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A diversidade na Igreja

"A casa do meu Pai tem muitas moradas", diz-nos Jesus no evangelho.

A unidade na diversidade não é sempre aparente na Igreja enquanto povo de Deus, mas é uma realidade em Deus e uma presença na fé cristã desde a sua origem. A Palavra de Deus não é partidária, elitista e exclusiva. O Reino de Deus é como uma árvore que estende os ramos para dar abrigo a todos os pássaros do céu. Cristo não morreu na cruz para salvar uma mão cheia de cristãos. Até o Deus Uno encerra em si o mistério de uma Trindade.

A Palavra de Deus é inequívoca e só pode levar à desinstalação, à abertura ao outro, e a recebê-lo e amá-lo enquanto irmão ou irmã. Ninguém fica de fora, nem mesmo - se tivessemos - os inimigos.

Muitos cristãos crêem nesta Igreja, nesta casa do Pai, corpo de Cristo, templo do Espírito Santo. Mas como esquecer que muitos se sentem "de fora" por se verem rejeitados, amputados e anulados, e afastam-se por ninguém lhes ter mostrado que há um lugar para cada um, com a totalidade do seu ser?

Um blogue para cristãos homossexuais que não desistiram de ser Igreja

Porquê este blogue?

Este blogue é a partilha de uma vida de fé e é uma porta aberta para quem nela quiser entrar. É um convite para que não desistas: há homossexuais cristãos que não querem recusar nem a sua fé nem a sua sexualidade. É uma confirmação, por experiência vivida, que há um lugar para ti na Igreja. Aceita o desafio de o encontrares!

Este blogue também é teu, e de quem conheças que possa viver na carne sentimentos contraditórios de questões ligadas à fé e à orientação sexual. És benvindo se, mesmo não sendo o teu caso, conheces alguém que viva esta situação ou és um cristão que deseja uma Igreja mais acolhedora onde caiba a reflexão sobre esta e outras realidades.

Partilha, pergunta, propõe: este blogue existe para dar voz a quem normalmente está invisível ou mudo na Igreja, para quem se sente só, diferente e excluído. Este blogue não pretende mudar as mentalidades e as tradições com grande aparato, mas já não seria pouco se pudesse revelar um pouco do insondável Amor de Deus ou se ajudasse alguém a reconciliar-se consigo em Deus.
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domingo, 25 de março de 2018

Felizes os pacificadores

Com amor desinteressado

«Estou firmemente convencido de que a verdade desarmada e o amor desinteressado terão a última palavra. É mais do que nunca necessário tornar a escutar agora (e sempre) a voz dos pacificadores, já “beatificados” por Jesus no Discurso da Montanha.»

Proponho hoje uma frase do discurso pronunciado a 11 de dezembro de 1964 por Martin Luther King no momento de receber o prémio Nobel da paz.

É uma palavra de esperança e de otimismo que deve expandir-se – com esforço e dificuldade – no meio da cizânia da guerra, da prevaricação, da opressão, da injustiça, uma densa e luxuriante vegetação maligna que cobre o mundo e que tem as raízes nos corações dos seres humanos.

A tentação do desencorajamento é forte mas não é cristã, como também não o é do crente no sentido mais universal do termo. Porque as religiões, no seu espírito mais íntimo, são fontes de vida e de paz; só a maneira com que os seus seguidores as incarnam é que as tornam ofensivas, agressivas, exclusivistas.

Para ter confiança no secreto poder da «verdade desarmada» e do «amor desinteressado» é preciso ser autenticamente religioso e, portanto, corajoso e otimista, certo de que Deus nunca está alinhado com as armas e a força bruta.

Gandhi, que desta certeza foi uma testemunha inabalável, declarava que «para praticar a não violência é preciso ser intrépido e ter uma coragem a toda a prova». Mas a meta, sempre luminosa e feliz, é a das Bem-aventuranças: «Felizes os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus».

P. (Card.) Gianfranco Ravasi In Avvenire
Tradução: SNPC

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Quando o catolicismo passa ao lado da verdade

Howe
As dez heresias do catolicismo actual

por Anselmo Borges para DN em junho e julho de 2016

"Heresia vem do grego háiresis, com o significado de parcialidade. Ora, pode acontecer que uma parcialidade se absolutize de tal modo que já não deixa espaço para elementos imprescindíveis da identidade cristã. É neste sentido que o jesuíta J.I. González Faus, um dos teólogos vivos mais sólidos e cristãos, escreveu um livro intenso com o título em epígrafe, para desmontar as dez heresias que inconscientemente foram tomando conta da teologia e da vida, arruinando a identidade cristã. Será o nosso guia também nas duas próximas semanas.

1. Primeira heresia: "Negação da verdadeira humanidade de Jesus." Como reconhecer em Jesus "uma psicologia humana como a nossa: sujeita ao erro e à ignorância ou à fraqueza, à angústia, ao medo ou à sensação de fracasso"? O problema está em que já se tem uma ideia prévia de Deus e estas características parecem incompatíveis com a dignidade divina. Mas qual é a consequência? Ao exigir que, em Jesus, Deus corresponda à imagem que temos dele, acabamos por impedir que Jesus revele efectivamente Deus. São Paulo, esse, percebeu, ao escrever que o Deus que anunciamos é "loucura para os sábios e escândalo para as pessoas religiosas". Afinal, a noção de dignidade divina deve ser concebida em consonância com a ideia humana ou a partir do exemplo de Jesus? "Eu, Senhor e Mestre, dei-vos o exemplo, lavando-vos os pés.".Jesus, de condição divina, escreve São Paulo, "apresentou-se como um entre outros", "sendo rico, fez-se pobre por nós, a fim de enriquecer-nos com a sua pobreza", mostrando que a verdade de Deus é o seu amor na autenticidade e fidelidade.

2. Vinculada à primeira, a segunda heresia: "Negação da eminente dignidade dos pobres na Igreja."De facto, a negação da verdadeira humanidade e humilhação do Messias leva a não preocupar-se com os humilhados, os pobres, atribulados, famintos, refugiados ou presos, embora seja com eles que Jesus em primeiro lugar se identificou. O Papa Francisco tem razão, voltando a uma Igreja pobre para os pobres.

O que lemos no capítulo 25 do Evangelho segundo São Mateus, referente ao Juízo Final? Todos são julgados pela maneira como reagiram diante do Deus presente no necessitado, no faminto, no nu, embora o não soubessem: "O que fizestes a um destes mais pequeninos foi a mim que o fizestes." Este passo do Evangelho é abissal, pois nele não temos um ensinamento em primeiro lugar ético mas teológico, um ensinamento sobre Deus, como ele se comporta e é: não é possível falar sobre Deus sem a sua relação com os seres humanos, a começar pelos mais desamparados. "É falso todo o Deus cuja glória não seja a vida do homem." Também está na Primeira Carta de São João: "Se alguém possui bens deste mundo e, vendo o seu irmão passar necessidade, não o socorre, não pode estar nele o amor de Deus."

3. Terceira heresia: "Falsificação da cruz de Cristo." "O que foi que condenou Jesus a uma morte tão atroz? Foi Pilatos? Foram os escribas e fariseus? Não, meus irmãos, não. Foi a Justiça divina que nunca quis dizer "basta" até que o viu expirar sob este suplício. O Salvador bondoso agonizava suspenso no ar por três cravos, derramava lágrimas de sangue, sangrava por todos os lados. Mas a Justiça divina, inexorável, dizia: "Ainda não." A sua doce mãe chorava ao pé da cruz, soluçavam as piedosas mulheres, gemiam todos os anjos e espíritos bem-aventurados diante de tão cruel espectáculo. Mas a Justiça, sem se deixar comover, repetia: "Ainda não." E não disse "já basta" enquanto o não viu exalar o último suspiro. O que dizeis então, meus irmãos? "Se a Justiça divina tratou tão severamente o Unigénito do Pai só porque havia tomado sobre si os nossos pecados, como nos tratará a nós que somos os verdadeiros pecadores?"

Muitos terão ouvido sermões semelhantes a este, de São Leonardo de Porto Maurício. Jesus tinha de morrer para pagar uma dívida infinita contraída com Deus pela humanidade e assim reconciliá-lo. Foi esta concepção que levou muitos ao abandono da fé. Aí está um Deus bárbaro, inexorável, que se não deixa comover, e uma teologia da satisfação expiatória que santifica a justiça próxima da vingança. O contrário do Deus que Jesus revelou como Abbá e Misericórdia, na parábola do filho pródigo. "O dolorismo heterodoxo que a Cruz produziu no nosso catolicismo vem, em boa parte, daqui: estamos a um passo de uma redenção "sadomasoquista", com a perversão de uma grande verdade: "Tudo o que vale custa" transformou-se num falso princípio: "Tudo o que custa vale." "A Cruz transformou-se assim em factor de resignação, quando na realidade é o resultado de Jesus não se ter resignado perante a injustiça estabelecida."A morte de Jesus é "uma consequência da sua vida e não uma exigência metafísica da justiça de Deus". Não morreu vítima de um Deus irado, que precisa de ser aplacado, mas vítima da maldade do mundo; morreu para ser consequente com a sua mensagem, dando testemunho até à morte do Deus que é Amor.

4. "Desfiguração da Ceia do Senhor." Imaginemos uma conversa entre um cristão piedoso de hoje e um cristão do século I. Aquele dirá que o centro da sua vida cristã é a "adoração eucarística" e este só lentamente entenderá que se está a referir à "fracção do pão" e também que a Missa quer dizer "a Ceia do Senhor". O que se passou?

Os primeiros cristãos celebravam a Eucaristia em casas particulares, com todos à volta da mesma mesa; ali, pela primeira vez na história, escravos e senhores sentaram-se uns ao lado dos outros. De acordo com o Novo Testamento, "nem sequer era o presbítero que presidia à celebração, embora pouco a pouco se tenha imposto que o presidente da Eucaristia fosse aquele que presidia à comunidade, talvez para aprender que devia exercer a autoridade não impositivamente, mas igualitariamente, e procurando o máximo de comunhão possível".

Quando os cristãos se tornaram multidão, foram necessários locais amplos, o latim deixou de ser entendido pelo povo, os assistentes já não participavam, com o celebrante de costas e à distância e as pessoas a fazerem "outra coisa" (rezar o terço...) enquanto "estão na Missa", atentos ao momento da "consagração" e, depois, alguns vão receber a hóstia. Tudo se centrou no culto da hóstia, "totalmente separado do gesto do partir, partilhar o pão". Da refeição passou-se a um acto de culto, com uma deturpação fundamental da Eucaristia: "Separar completamente a matéria (pão e vinho) do gesto (partilhá-los)", quando "partir o pão significa compartilhar a necessidade humana (da qual o pão é símbolo primário) e passar a taça é comunicar a alegria, da qual o vinho é outro símbolo humano ancestral". O corpo e o sangue são a pessoa e a vida de Jesus vivo.

5. "Transformar o cristianismo numa doutrina teórica." Heresia fundamental, que consiste em desfigurar a fé cristã, "transformada numa doutrina teórica ou numa religião centrada no culto, em vez de ser uma vida e um caminho crente para a transformação do mundo". À maneira dos gnósticos, põe-se o acento no conhecimento, que pode ser passivo, em vez de no amor, que é essencialmente activo: o decisivo do cristianismo não é dizer "Senhor, Senhor", mas "fazer a vontade do Pai", que consiste em que "todos tenham vida e vida em abundância". "A glória de Deus é a vida do homem", dizia Santo Ireneu.

O que então fica resume-se, infelizmente, em duas teses: a) "Deixadas à sua própria inércia, as sociedades estruturam-se de modo anticristão, não porque se estruturem de maneira laica ou reconheçam as uniões homossexuais, mas porque se estruturam na desigualdade, que é o valor mais contrário à paternidade do único Deus e o mais característico da divindade do Dinheiro"; b) "O Dinheiro é o único Deus verdadeiro das nossas sociedades que se consideram modernas, mas também o verdadeiro "senhor" de todos nós, que ameaça levar-nos à nossa própria destruição e à destruição do planeta." E "o nosso catolicismo foi cúmplice deste processo degenerador tão contrário à sua essência".

6. "Negação da absoluta incompatibilidade entre Deus e o Dinheiro." Afinal, a inscrição do dólar não é "In God we trust", mas "In Gold we trust", como parodiou E. Dussel. O problema dos imensamente ricos frente aos pobres que morrem a cada dia de fome aos milhares, mais do que um escândalo moral monstruoso, é a idolatria do deus Dinheiro, sendo essa a razão de se contar no número das heresias: "Uma visão teológica que pode desfigurar nada menos que a identidade do Deus bíblico. Deus é o Deus dos pobres, conhecê-lo não é especular muito nem sequer rezar muito, mas "praticar a justiça", como disse o profeta Jeremias."

Quando se olha para a linguagem oficial da Igreja, "dá a sensação de que toda a moral se reduz ao sexo e que é aqui que é preciso levantar a voz, ao passo que se deixa o dinheiro correr pecaminosamente sem o molestar". Ao contrário de Jesus, que foi parco no tema sexual, exigente na teoria e compreensivo com as pessoas concretas, mas duro quanto à riqueza opressora. "Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro." Significativamente, os Evangelhos, escritos em grego, mantiveram a palavra aramaica Mamôn (e além disso, sem artigo, como se fosse um nome próprio) para designar a riqueza: porque vem da mesma raiz (mn) do verbo crer, acreditar. "É uma maneira de dizer, mais uma vez, que God e Gold são muito aparentados: não se pode adorar ao mesmo tempo Deus e o Dinheiro." Quando se pensa na força crescente do Dinheiro, cada vez com mais possibilidades, pois já não se trata de meros poderes pessoais, mas estruturais e anónimos, é preciso rever a sociologia da religião: afinal, ela está em aumento, o que diminui é a fé no Deus de Jesus, o Deus que criou o mundo para todos e não apenas para os ricos. "O deus dos senhores é diferente." (J.M. Arguedas).

7. "Apresentar a Igreja como objecto de fé". Que se entende por Igreja? É decisivo responder adequadamente a esta pergunta, para afastar o perigo em que caiu o Papa Pio IX, que se negava a renunciar aos Estados Pontifícios, alegando que "aqueles territórios não eram seus, mas de Cristo". A Igreja não é Deus, é comunidade de comunidades formadas por homens e mulheres que acreditam em Jesus e no Deus que Jesus revelou. Homens e mulheres que acreditam no Deus de Jesus formam a Igreja e é em Igreja que acreditam em Deus. Temos, pois, um erro quando "a Igreja se apresenta como objecto de fé, equiparando-se ao Deus trino e esquecendo que só em Deus, e em mais ninguém, é possível crer, no sentido pleno da palavra". Percebe-se também que a autoridade na Igreja só como serviço se pode compreender.

8. "A divinização do Papa". "Confessamos que o Papa romano tem poder para mudar a Escritura e aumentá-la ou diminuí-la de acordo com a sua vontade. Confessamos que o santíssimo Papa deve ser honrado por todos com a honra devida a Deus e com a genuflexão maior devida a Cristo." Estas "palavras incríveis" provêm da profissão de fé que os jesuítas propunham aos protestantes húngaros para passarem à Igreja Católica nos finais do século XVII. O Papa Bento XVI, quando era professor, denunciou esta profissão como "monstruosa", reconhecendo depois que o magistério nunca a condenou.

As citações nesta linha são quase infindáveis. Atribuíram-se ao Papa títulos como "Vice-Deus da humanidade", "o Verbo encarnado que se prolonga". Num livro de meditações atribuído a São João Bosco, lê-se: "O Papa é Deus na Terra. Jesus colocou o Papa no mesmo nível de Deus." Chama-se a isto culto da personalidade e idolatria. Leia-se o "incrível" texto chamado Dictatus Papae, do Papa Gregório VII, século XI: "A Igreja romana foi fundada só por Jesus Cristo. Por isso, só o Romano Pontífice é digno de ser chamado universal. Só ele é digno de usar insígnias imperiais; ele é o único homem cujos pés todos os príncipes beijam. Não existe texto jurídico algum fora da sua autoridade; a sua sentença não pode ser reformada por ninguém e ele pode reformar as de todos. Ele não pode ser julgado por ninguém. A Igreja romana nunca se equivocou e nunca poderá equivocar-se. O Romano Pontífice canonicamente ordenado é sem dúvida santo pelos méritos de São Pedro." Na famosa bula Unam sanctam, o Papa Bonifácio VIII define que "submeter-se ao Romano Pontífice é necessário para a salvação de todos os homens". O Papa Gregório XVI opôs-se à tradição que fala de uma "Igreja com necessidade constante de reforma", acusando-a de "absurda e injuriosa", porque não se pode "nem sequer pensar que a Igreja esteja sujeita a defeito ou ignorância ou a quaisquer outras imperfeições".

A Igreja acabou por ser confundida com o Papa, como consta no programa do grupo La Sapinière, que o Papa São Pio X apoiou tacitamente: "Pode-se dizer que o Papa e a Igreja são uma só coisa." E, embora a palavra hierarquia (poder sagrado) nunca apareça no Novo Testamento, e, na linguagem eclesiástica, só no século V, de facto o cristianismo foi sendo reduzido a um eclesiocentrismo e este a um hierarcocentrismo: "A Igreja reduzida ao poder sagrado e o resto dos fiéis é apenas objecto deste poder, cuja única missão é "aceitar ser governado e obedecer" (e pagar), como disse o Papa Pio X. E, por fim, este hierarcocentrismo é reduzido à figura do Papa, separado do colégio episcopal pela forma como a cúria romana costuma governar."

E aí está como o Papa, cuja missão é de unidade, foi fonte de ruptura: lembrar o cisma do Oriente (1054) e a Reforma protestante (1517), e como se percebe o fascínio do Papa Francisco, porque é um papa cristão.

9. "Clericalismo". Tudo se concentra nesta pergunta: Deus pode ser concebido como Poder, quando Jesus o revelou como "Amor que capacita para amar"?

No Novo Testamento, "a comunidade toda de crentes é "clerical", porque foi chamada a compartilhar a herança (klêros) dos santos na luz", como se lê na Carta aos Colossenses. "Não existem, portanto, clero e laicado, mas uma comunidade, um povo afortunado que, como qualquer grupo humano, precisará de diversos serviços": ensino, direcção, coordenação. E "os responsáveis das Igrejas são chamados presbíteros, supervisores, servidores, "os que trabalham por vós"..., mas nunca sacerdotes." Só mais tarde os ministérios eclesiais se revestiram de dignidade mundana, passando-se então do "povo afortunado" para "os afortunados do povo". E aí está o clericalismo para dentro e para fora da Igreja.

10. "Esquecimento do Espírito Santo". A raiz de todas estas heresias: o esquecimento do Espírito do Deus de Jesus, Espírito criador, que une na diferença e renova todas as coisas.

Ler na íntegra em: 

sábado, 2 de novembro de 2013

O Vaticano na Bienal de Arte de Veneza de 2013

Nota: esta imagem não representa nenhum dos trabalhos apresentados pela Santa Sé
Encontro entre Bíblia e arte contemporânea promovido pela Santa Sé

Erradamente, a arte contemporânea e a fé são para muitos termos incompatíveis. Os postulados são apresentados como uma espécie de contradictio in adjecto, seja porque se entende que a liberdade estética, a transgressão e o declarado caráter transiente [transitório] da arte contemporânea são incompatíveis com o ideário do belo, do bom e do verdadeiro, porque se observa na arte contemporânea uma imoralidade estratégica, ou porque, por outro lado, se defende que a fé está definitivamente afastada das matérias profanas da atividade artística. Esta atitude serve apenas radicalismos inúteis, mas fáceis. Além de falácias sediciosas, alimenta um antagonismo que, na verdade, reescreve a relação de proximidade que o impulso artístico tem mantido ao longo de séculos com a intuição da fé.

A arte contemporânea é frequentemente enigmática, renegoceia, não raro, as relações entre o belo e o feio, mas não deixa de constituir uma procura, mesmo que situada, pela revelação de uma certa transcendência. Ainda que esta transcendência não se manifeste no impulso da fé, há justamente um espaço de abertura que trespassa a gestualidade moderna, da música de Stockhausen às coreografias de Pina Bausch ou às telas rasgadas de Lucio Fontana.

O Cardeal Gianfranco Ravasi, que preside ao Conselho Pontifício para a Cultura, salientava esta abertura ao absoluto do gesto aparentemente destrutivo, mas rico de intencionalidade de Fontana, numa conferência, em Lisboa, em novembro passado, defendendo a necessidade de recuperar a intimidade entre a busca da arte contemporânea e a Igreja, atacada pela desconfiança dos últimos tempos, na senda da abertura dialógica que o catolicismo convoca.

Um passo importante nesta direção é o pavilhão da Santa Sé na Bienal de Veneza (…). Com curadoria do Cardeal Ravasi, esta é a primeira vez que o Vaticano participa na Bienalle, este ano subordinada ao tema "O Palácio Enciclopédico", com um tríptico concebido a partir do Livro de Génesis.

Neste modelo triádico configura-se a criação, a descriação, ou destruição, e a recriação. Ao invés de uma funcionalização litúrgica da arte, as obras, do fotógrafo checo Josef Koudelka, do pintor americano Lawrence Carrol e do coletivo multimédia italiano Studio Azzurro, configuram o círculo da criação, apresentando a arte contemporânea em diálogo com o mais antigo manifesto de estética, o Livro de Génesis e a sua representação mais perfeita, a humanidade. Um encontro radioso a visitar até 24 de novembro.

Isabel Capeloa Gil
Vice-reitora da Universidade Católica Portuguesa
In Página 1, 29.5.2013
Com SNPC a 30.05.13

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

A estética do sagrado

O estético, o ético e o sacro: breve "excursus" sobre a encíclica "Luz da fé"

O estético, o ético e o sacro representam a evidência simbólica da consciência crente na sua tematização estética e ética. De acordo com a hermenêutica gadameriana, a arte e religião, o belo e mito, estão na base da experiência hermenêutica originária (Verdade e Método). Esta manifestação do sentido originário presente nas coisas interpela o sujeito humano que vive na história segundo o dinamismo interior. Assim «a interioridade torna-se tema de reflexão e apropriação precisamente através da qualidade espiritual à qual a exterioridade sensível, mediante a ressonância do sentimento e o simbolismo da imaginação, dirige a consciência» (P. Sequeri). A qualidade estética da experiência crente está profundamente relacionada com a descoberta da interioridade no processo de hominização e humanização.

Os estados interiores, as imagens que povoam a nossa mente, resultantes de representações, pensamentos e ideias, provêm do sentimento das emoções que influenciam de algo modo o nível de confiança que o ser humano atribui a si mesmo e aos outros. A interioridade – que aqui podemos estabelecer paralelamente com a mente – ganha qualidade espiritual na medida em que é capaz de aliar a si a sensibilidade cristalizada no sentimento e na imaginação. A qualidade espiritual, o sentimento e a imaginação não são apenas componentes constitutivos da consciência mas a sua condição cognoscitivo-prática. A consciência cristalizada na emoção, no sentimento, no desejo, no afeto funda a dimensão estética que é o âmbito da sensibilidade da consciência.

A perceção do sentir, ou perceção da emoção, dá-se na consciência estética enquanto categoria que explicita o affectus fidei, o afecto da fé, ou a reapropriação teórica e prática dos diversos modos em que se percepciona o manifestar-se de Deus. A estética teológica assim entendida estabelece a «relação entre o teológico e o modo da percepção. Porque não basta olhar, há modos e modos de olhar; não basta tocar, há modos e modos de tocar» (P. Sequeri). Isto supõe que à experiência estética, à experiência da beleza evocativa da justiça originária que conduz ao cumprimento da promessa de sentido último, seja subjacente à inteligência e à vontade humana. É neste contexto que emerge a percepção do sacro que institui uma relação diferenciadora com a realidade. Esta percepção do sacro insere-se na justiça da afeição de Deus «porque sem nenhuma referência a uma origem divina não posso ser perfeitamente justo, porque sem este referimento, sem uma não apropriação do género, colocar-me-ei no lugar de juiz supremo, de mestre da justiça e isto é início de toda a espoliação» (F. Hadjadj).

A consciência estética supõe portanto a consciência crente e a consciência ética. Sem estas instâncias não é possível colher a experiência estética no seu núcleo metafísico e universal. O perigo subjacente é a degeneração do belo em sedução, do medo em pânico, da alegria em histerismo, e assim por diante. Portanto, a experiência de beleza que o sujeito faz está profundamente ligada ao sentido da justiça e da verdade, isto é ao saber originário da consciência, a uma metafísica dos afectos, que subtrai o humano ao útil, ao funcional e ao poder sedutor incontrolável da imediateza. É verdade quando Pierre Levy afirma que «se o mundo humano subsistiu até hoje é porque sempre houve justos suficientes. Porque as práticas de acolhimento, de ajuda, de abertura, de atenção, de reconhecimento, de construção, acabam por ser mais numerosas ou mais fortes do que as práticas de exclusão, de indiferença, de negligência, de ressentimento, de destruição».

Na verdade, a autêntica experiência estética situa-se ao nível da qualidade espiritual do humano e não no sentido primário do usufruto, do gozo sentimental. A beleza sem a bondade e a inteligência é um estéril sentimento, momento sedutor que afasta a verdade das coisas, colocando-a ao nível de um simples jogo de sedução. A consciência estética está profundamente ligada à experiência religiosa e não tanto ao gozo imediato de uma obra de arte. Se a beleza não invoca a justiça e a verdade originária inscrita no coração humano converte-se em banal encantamento, sedução sentimental, aparência de bem, auto-referencial. À estética teológica caberá fazer apelo à interioridade humana, mantendo em relação a dimensão corpórea (cognitiva) e a dimensão espiritual (afectiva) do sentir. Por exemplo, a música enquanto «ciência da anima» tem a missão de explicitar, invocar e discernir a qualidade sensível e espiritual da experiência humana e religiosa. A música surge como a evidência simbólica da consciência crente. A música como síntese do sensível leva o humano a sentir uma experiência originária vital, libertando o seu imaginário frequentemente preso às palavras e gestos, a ritos e representações.

Há portanto, aqui uma ressonância afectiva e cognitiva que liberta a interioridade humana e a predispõe para o acolhimento da Revelação. A «fé é, substancialmente, escuta emocionada da palavra de Deus» (Ricotta), ou melhor: «reconhecimento que se nutre de agradecimento» (Sequeri). A razão teológica apresenta uma evidência simbólica (ético, símbolo e rito) que faz apelo ao reconhecimento a partir da interioridade do sujeito mas ao mesmo tempo o dispõe para uma abertura re-memorativa à Tradição, a um existir que o precede e funda. Em parte, poder-se-ia ver neste reconhecer-se (sentir-se) reconhecido uma certa receptividade passiva do sujeito. Mas a evidência simbólica da razão teológica é mais do que uma ideia ou uma representação de um ideal. Ela assume, na verdade, uma figuração ontológico-hermenêutica do princípio verdade/justiça da ordem afectiva instaura pelo ágape livremente oferecido de Deus.

O «dar-se da Vida como autoafeição pática cruza-se com o próprio poder da incarnação» (Viola), visibilidade do invisível, o Logos crístico que revela, na sua configuração histórico-hermenêutica. A consciência estética (beleza) desenvolve uma evidência simbólica (rito, símbolo, ethos) capaz de ordenar os afectos, de manifestar a vida invisível, inconsciente, ao si humano consciente, restituindo-o a sua afectividade originária. Na verdade, uma «semelhante fenomenologia do espírito-vida, no corpo-mundo, poderá chegar a tocar a realidade da vida espiritual, porém, somente aonde o espírito seja compreendido, na sua acepção mais originária, como vida gerada no logos da afeição e libertada pela justiça do sentido» (Sequeri). Sem racionalidade, sem afecto e sem o justo sentido da existência a mente humana permanece à deriva de si e dos outros. Fica a interrogação apelativa: «aquilo que se comunica na Igreja, o que se transmite na sua Tradição viva é a luz nova que nasce do encontro com o Deus vivo, uma luz que toca a pessoa no seu íntimo, no coração, envolvendo a sua mente, vontade e afectividade, abrindo-a a relações vivas na comunhão com Deus e com os outros»? (Carta Encíclica Lumen Fidei, 40).

João Paulo Costa
in SNPC a 29.07.13

domingo, 12 de maio de 2013

A falibilidade (sem dogmas) e a pobreza táctil

Ziraldo
Publico este artigo, pensando na "arrogância" do dogma da "Infalibilidade papal": parece-me que este papa, na sua lucidez a que nos tem habituado, tem posto o dedo em tantas feridas, tem sido sensível a tantos aspectos que desvirtuam a Igreja da sua vocação primordial, e na sua humildade e sapiência de servidor e de pastor sabe e afirma que ninguém é infalível. Quem crê no dogma, pode crer no que o papa disse: "ninguém é dono da verdade"!

Ninguém é dono da verdade


O papa afirmou esta quarta-feira que «ninguém é dono da verdade» e estimulou os católicos a seguirem o exemplo da evangelização feita por S. Paulo, que foi um «construtor de pontes» e não de «muros». «A verdade não entra numa enciclopédia. A verdade é um encontro; é um encontro com a Suma Verdade: Jesus, a grande verdade. Ninguém é dono da verdade. A verdade recebe-se no encontro», disse Francisco, citado pelo portal de notícias da Santa Sé. À imagem de Cristo, «que falou com todos», o cristão que anuncia o Evangelho deve «escutar todos», tendo presente que a Igreja “não cresce com proselitismo”, mas pela «atração, pelo seu testemunho, pela sua pregação». «Os cristãos que têm medo de fazer pontes e preferem construir muros são cristãos inseguros da própria fé, não seguros de Jesus Cristo», frisou Francisco (...).
A pobreza deve ser entendida como «superação de todos os egoísmos na lógica do Evangelho que ensina a confiar na Providência de Deus», apontou. «Pobreza como indicação a toda a Igreja que não somos nós a construir o Reino de Deus, não são os meios humanos que o fazem crescer, mas é principalmente o poder, a graça do Senhor, que opera através da nossa fraqueza», explicou. Para Francisco a pobreza revela-se através da «solidariedade, a partilha e a caridade», bem como na «sobriedade e alegria pelo essencial», a par da vigilância face aos «ídolos materiais que obscurecem o sentido autêntico da vida». «A pobreza teórica não nos serve. A pobreza aprende-se tocando a carne de Cristo pobre, nos humildes, nos pobres, nos doentes, nas crianças», vincou. (...)

Rui Jorge Martins
Publicado por SNPC

quarta-feira, 2 de março de 2011

Desvendar o rosto de Deus ou a arte da Interrogação e da Procura

Porta do Paraíso, Francisco Borba, 2008
A procura de Deus em 2049

(...)
«“O que ameaça a espiritualidade não é certamente o exercício da inteligência, nem o avanço científico e técnico”, diz o padre Tolentino. Pelo contrário, vê a maior ameaça na “desistência de buscar arduamente a verdade, onde quer que ela se manifeste”. Ou na “perda da capacidade de recolhimento e de espanto, sobretudo num tempo em que triunfam as ditas soluções rapidíssimas e portáteis”, condenando ao crepúsculo as “artes humanas de excelência como são as de interrogação e da procura”.

Só a procura da verdade “entra mais próxima ou remotamente, na procura de Deus. O que desvenda a verdade, em qualquer dos seus aspetos, desvenda um traço, mesmo que infinitesimal, do seu rosto”.

Assim, “uma fórmula matemática pode-nos aproximar tanto de Deus como um tratado místico. Um poema pode encerrar tanta verdade como um dogma. De facto, Deus procura-se como? Sabemos apenas que nada do que é humano pode ser excluído nessa busca. No limite, Deus também se procura com microscópios, motores de busca, lentes e sondas. Pois procuramos Deus acolhendo a presença e a ausência. Abraçando o máximo e o mínimo. Aceitando o papel da crença e o da descrença.”»
(...)

José Tolentino Mendonça

In Expresso (Revista Única), publicado por SNPC

terça-feira, 1 de março de 2011

O Louvor é o motor da Poesia

Foto: AP
Paul Claudel: a poética de Deus
Vida e obra


Sobre a inspiração poética disse Paul Claudel: «o talento poético, a inspiração poética, é como a profecia, uma graça». Para este poeta, diplomata e dramaturgo do século XX, o grande motor da poesia, dado pela religião a par com o «significado» e a «dramática», é o «louvor», uma vez que ele representa a «mais profunda necessidade da alma, a voz da alegria e da vida».

Nascido em França a 6 de julho de 1868 em Villeneuve-sur-Fère, numa família de agricultores e funcionários do governo, o pai de Paul Claudel, Louis-Prosper, dedicava-se a hipotecas e transações bancárias. Enquanto que a sua mãe, Louise Cerceaux trabalhava na agricultura, pois era oriunda de uma família católica de agricultores de Champagne, existindo até sacerdotes católicos na família. Paul Louis Charles Marie Claudel seria batizado no dia 11 de outubro de 1868. Todavia, os pais de Claudel, segundo o testemunho do próprio, eram indiferentes em matéria religiosa.

Claudel passou os primeiros anos da sua vida em Champagne, onde morava. A princípio foi instruído por um professor particular, tendo passado depois para o liceu de Bar-le-Duc e para o liceu Louis-le-Grande em 1881, quando os seus pais se mudaram para a Paris. É na escola da “Cidade das Luzes” que perde a fé, pois considerava-se um naturalista, um monista e um materialista influenciado pelos pensadores da época, inclusive pela leitura da “Vida de Jesus” de Renan. O sofrimento e a morte do avô, que sofria de cancro, serão vividos pelo jovem Paul com dramatismo e angústia, ganhando pavor da morte.

O «primeiro brilho da verdade», como dirá, veio-lhe da leitura de um grande poeta de época de seu nome Artur Rimbaud, nomeadamente, a leitura de dois textos:“Illuminations” e “Une saison en Enfer”.

Aos 18 anos, angustiado e desesperado, a 25 de dezembro de 1886, entra na catedral de Notre-Dame de Paris, onde toma parte na missa cantada, com moderada alegria. Voltando à sé ao final da tarde para as Vésperas de Natal, entra quando começa o cântico evangélico do ‘Magnificat’, cantado por meninos do coro e jovens seminaristas. E nesse momento dá-se uma conversão súbita e «fulminante». Dirá Paul Claudel no ano de 1913 em “A Minha Conversão”: «Ali se deu o acontecimento que domina toda a minha vida. Num momento, o meu coração sentiu-se tocado, e tive fé (…) não ficava margem para nenhuma espécie de dúvida».

A verdade é que aconteceu na vida deste “poeta de Deus e do homem” aquela experiência dramática, de significado e de louvor que parece conter a poética de Deus e que ele próprio tão bem soube expressar.

Paul Claudel estudará em Paris, no Instituto de Estudos Políticos, embora tenha pensado entrar para os Beneditinos. Em 1893 começa a sua carreira diplomática, que continua até 1936.

A 15 de março de 1906 casa-se com Reine Sainte-Marie Perrin. Depois de ser cônsul em vários pontos do globo, Claudel terminará a sua carreira em Bruxelas. Durante o tempo da magistratura diplomática, revela-se um grande dramaturgo e poeta cristão. Assim, utilizou o cristianismo, na sua confissão católica, como base do seu pensamento e da sua escrita poética e dramática.

A tetralogia “Le Soulier de Satin” (composta entre 1914 e 1924 e estreada em 1943) é uma obra de arte que integra texto, música e dança. Na peça “L´Échange”(1910), Claudel problematiza pela primeira vez o conflito de uma mulher que se debate entre amor e casamento.

Além de romances, peças teatrais e ensaios, compôs também poemas que foram buscar inspiração à poesia bíblica. Em 1946 foi escolhido como membro da Academia Francesa. Morre a 23 de fevereiro de 1955, deixando uma obra de prosa, poética e dramática enorme, cuja influência depressa se fez sentir.

L. Oliveira Marques
In SNPC

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A dificuldade da Fraternidade: não há lei que obrigue sentir o outro como irmão ou irmã

parece-me esta abordagem de D. Manuel Clemente muita válida para nossa reflexão e os três pontos (no final) bons princípios para tentar pôr em prática.

Fraternidade: O item não legislável

Do ideário de 1789 a fraternidade será porventura o item mais difícil, porque menos legislável e certamente mais anímico. É duma "alma" nova que se trata, em que nos sintamos realmente próximos, com a verdade que a palavra "irmão/irmã" transporta, enquanto vinculação íntima, disponível e gratuita.

Não é espontânea, a fraternidade, nem pela lei nem pelo espírito. A legislação incidirá na liberdade cívica e na igualdade política e social, ao menos no capítulo das oportunidades. Mas ninguém nos pode "obrigar" a sentir o outro como irmão, ou a nós mesmos como irmãos dos outros, de todos e de cada um dos outros...

Em sociedades tradicionais, especialmente nas tocadas pelo cristianismo, as vizinhanças eram espontâneas e a vida confraternal mais ativa e expressiva. A aldeia – ou a concentração de "aldeias" que era a cidade emergente – vivia problemas idênticos em ritmos comuns, com momentos simbólicos igualmente gerais. Assim se consideravam "fregueses" (= filhos da mesma igreja) e nalguns lugares até "irmãos de pia [batismal]", porque irmanados num só sacramento.

É verdade que esta relação essencial convivia com maiores ou menores disparidades na escala social e material. Mas é também verdade que a prática religiosa habitual lembrava insistentemente a fraternidade sacramental e a universalidade dum juízo final e iminente para ricos e pobres, nobres e plebeus, clérigos e leigos. Como igualmente se exortava à concretização orante e caridosa da fraternidade, por sufrágios e esmolas.

O grande movimento confraternal que se desenvolveu na Europa, da Idade Média para a Moderna, assinala fortemente tudo isso: confrarias, irmandades. Misericórdias... O traço comum foi o duma fraternidade "ideal", que não desistia de concretizações práticas e mobilizadoras, inclusive no campo cultural e artístico. Aí podemos encontrar até uma das radicações mais certas das atuais democracias, que nem sempre conseguiram manter o ânimo fraternal e cristão que lhes assegurou as origens.

Por outro lado, a evolução comercial, industrial e citadina da Europa contemporânea dificilmente conseguiu e consegue manter as proximidades efetivas e afetivas da sociedade antiga. Bem pelo contrário, verificamos que quanto mais contíguos, habitacional ou laboralmente, também mais ambíguos nos manifestamos, na discrepância flagrante entre a "fraternidade" ideologicamente enunciada e a pouca em que realmente (con)vivemos, por falta de motivação religiosa ou filantrópica. É o caso tão verificado de a habitação em pequenos "fogos" de grandes prédios proporcionar menos vizinhança real do que a habitação em casas apartadas da mesma rua ou bairro. A proximidade forçada ou forçosa, desperta mais o autofechamento, zeloso da sua intimidade, do que predispõe à conversa da rua ou praça comum, de quem se sente seguro de si e dos seus.

Concomitantemente, o trabalho de cada um, em lugares sucessivos e dependente de fatores mutáveis, mais ocasiona individualismo e concorrência do que solidariedades fraternas. Não foi por acaso que a Revolução Francesa, tão fixada na autodisponibilidade burguesa, cedo extinguiu as antigas corporações de artífices... As associações operárias ou patronais que vieram depois expressam outra lógica, de defesa de grupo e "fraternidades" sectoriais e contrapostas. Hoje talvez nem isso, dada a maior mobilidade social e a muito maior individualização dos percursos, além da rarefação ideológica própria da pós-modernidade.

Aqui nos situamos, se é que de que de “situação” se pode falar em terreno tão resvaladiço. Para quem não desista de inspirar cristãmente a cultura, o desafio redobra com as atuais fraturas, que só nos abrem a “fraternidades” de escolha e particularíssima escolha, parecendo insanável a rutura entre as antigas solidariedades prévias e as atuais solidariedades de escolha, tendendo estas a serem sucessivas, discrepantes e restritas. Para “outra margem” passa-nos Jesus de Nazaré, começando com um pequeno grupo, em que podiam coexistir publicanos (Mateus) e zelotas (Simão); uma fraternidade tão universal como única é a origem de nós todos, relativizando consequentemente tudo quanto a possa obnubilar: “Quanto a vós, não vos deixeis tratar por ‘Mestres’, pois um só é o vosso Mestre, e vós sois todos irmãos” (Mt 23, 8).

Em termos mais conclusivos e práticos, poderemos insistir numa pastoral assim "cultivada":

1) Na consciencialização da raiz religiosa da fraternidade, com grande incidência ecuménica (unidade da criação). No que ao cristianismo respeita, evidenciar a absoluta fraternidade das atitudes e palavras de Cristo: "Ouvistes o que foi dito: 'Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo'. Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem, fazendo assim, tornar-vos-eis filhos do vosso Pai que está no Céu, pois Ele faz com que o sol se levante sobre os bons e os maus e faz cair a chuva sobre os justos e os pecadores. [...] Portanto, sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai celeste" (Mt 5, 43-45.48). E no reconhecimento da origem e convergência de todo o bem que se faça, seja quem for, seja a quem for: "João tomou a palavra e disse: 'Mestre, vimos alguém expulsar demónios em teu nome e impedimo-lo, porque ele não te segue juntamente connosco'. Jesus disse-lhe: 'Não o impeçais, pois quem não é contra vós é por vós'" (Lc 9, 49-50).

2) No mais lídimo espírito cristão e franciscano - da "Galileia dos gentios" às bodas de prata do "espírito de Assis" (1986 ss) - participar e colaborar em tudo o que aproxime grupos, povos e crenças, com incidência humanista, e ultrapasse antigas e atuais manifestações de segregação, desconfiança e mútuo alheamento. Podendo começar pelas nossas próprias comunidades, na valorização da contribuição diferenciada de cada um dos seus membros e grupos, segundo os respetivos carismas, a bem do todo.

3) No campo das "artes e letras", incidir particularmente em tudo quanto manifeste a unidade de origem e destino da nossa humanidade comum, tão expressa na bondade, verdade e beleza essenciais: "De resto, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é nobre, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é respeitável, tudo o que possa ser virtude e mereça louvor, tendo isso em mente. [...] Então, o Deus da paz estará convosco" (Fl 4, 8-9).

D. Manuel Clemente

Bispo do Porto, presidente da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais, no 7.º Encontro Nacional de Referentes da Pastoral da Cultura, Fátima, 29 de Janeiro de 2011)

publicado por © SNPC a 30 de Janeiro de 2011

domingo, 23 de janeiro de 2011

Batata ou cebola? Viagem ao centro da alma e a atenção ao silêncio


A atenção

Comecemos talvez de um modo desajeitado, perguntando: o nosso mundo interior é uma cebola ou uma batata? A pergunta faz-nos sorrir, é um bocado cómica, mas, se quisermos, acaba por colocar-nos perante a nossa realidade de uma forma bastante profunda. A pergunta pode ser feita numa cozinha, por uma criança que está a descobrir o mundo, pode ser proferida por filósofos nos seus tratados ou pode ser formulada por um mestre espiritual.

O nosso mundo interior é uma cebola ou uma batata? Nietzsche, por exemplo, dizia que «tudo é interpretação», isto é, não há um núcleo de Ser a sustentar a nossa experiência de vida, tudo são cascas de cebola, modos de ver, perspetivas, interpretações. Para lá disso não há mais nada. Uma visão espiritual do mundo, por outro lado, está certamente do lado da batata, pois considera que mesmo escondida por uma crosta ou por um véu persiste uma realidade que é substanciosa e vital.

A verdade é que mesmo sabendo que a vida é uma batata, nós vivêmo-la muitas vezes como se fosse uma cebola. Vivemos de opiniões, de verdades parciais e provisórias, de paixões, vivemos aparências e modas como se a vida fosse isso. Esgotamo-nos a desfilar cascas e camadas, sem um centro que nos dê realmente acesso ao pleno sentido. Há uma escritora contemporânea, Susan Sontag, que diz que a nossa existência como que fica sequestrada neste sem fim de interpretações que nos distraem da viagem essencial. Não habitamos em nós próprios, levados por ideias, pontos de vistas, cascas e mais cascas. Segundo ela, o mais urgente seria apurar e aprofundar os nossos sentidos, aprendendo a ver melhor, a sentir melhor, a escutar melhor.

Na vida espiritual também é isso o mais importante. Simone Weil escrevia que ela é fundamentalmente feita de atenção: «é a orientação para Deus de toda a atenção de que a alma é capaz». Da qualidade da atenção depende em muito a qualidade da vida espiritual.

Possamos dizer a verdade do poema de Sophia de Mello Breyner Andresen:

«Deixai-me limpo
O ar dos quartos
E liso
O branco das paredes
Deixai-me com as coisas
Fundadas no silêncio.»

Os sentidos espirituais abrem-se e maturam no silêncio. Se mergulhamos neles, tornam-se trilhos para o nosso caminho. É esse o conselho que os mestres unanimemente fazem para passarmos da cebola à substanciosa e vital batata. O conselho de Arsénio, um dos Padres do Deserto (eremitas cristãs que fundaram a espiritualidade monacal) soava assim - «Foge. Cala-te. Permanece no recolhimento». Poemen garantia - «Se fores realmente silencioso, em qualquer lugar onde estiveres encontrarás repouso». João Clímaco, na primeira metade do século VII, escreveu: «o amigo do silêncio aproxima-se de Deus, e encontrando-se com Ele em segredo, recebe a sua luz». Isaac de Nínive prescrevia aos que o procuravam: «Ama o silêncio acima de todas as coisas; ele concede-te um fruto que à língua é impossível descrever… Dentro do nosso silêncio nasce alguma coisa que nos atrai ao silêncio. Que Deus te conceda perceber aquilo que nasce do teu silêncio.»

José Tolentino Mendonça

In Diário de Notícias - Madeira, a 16 de Janeiro de 2011
publicado por SNPC

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Um passo em frente: Papa diz que a Igreja deve assumir que erra

Papa diz que a Igreja deve questionar e reconhecer os seus erros


"Devemos questionar-nos sobre o que estava mal na nossa forma de definir o que é um cristão, o que fez com que tal coisa possa ter acontecido", afirmou Bento XVI perante os membros da Cúria Romana, com quem se reuniu para os votos de Natal.
 
Ratzinger insistia assim na necessidade de a Igreja questionar e assumir os seus erros de forma a que cessem os escândalos de pedofilia envolvendo homens do clero.
 
Ao fazer o balanço do ano que em breve termina, o Papa falou longamente da "humilhação" vivida pela Igreja e provocada pelos referidos escândalos. "Devemos acolher esta humilhação como a exortação à verdade e um apelo à renovação", disse e insistiu que a Igreja deve "questionar-se sobre o que pode fazer para reparar o mais possível (esta) injustiça e ser capaz de penitência".
 
Bento XVI, que se afirmou "transtornado" por tais escândalos, que atingiram uma dimensão "inimaginável", lamentou que o rosto da Igreja se tenha "coberto de poeira" precisamente durante o Ano Sacerdotal. Ratzinger tinha dedicado o período de Junho de 2009 a Junho de 2010 aos padres.


in dn.sapo.pt a 21 de Dezembro do 2010

Porque estou aqui

Sinto-me privilegiado por ter encontrado na Igreja um lugar vazio, feito à minha medida. É certo que tê-lo encontrado (ou encontrá-lo renovadamente, pois não é dado adquirido) foi também mérito da minha sede, do meu empenho, de não baixar os braços e achar, passivamente, que não seria possível. Passo a contextualizar: a comunidade onde vou à missa é pequena e acolhedora, e podia bem não o ser. Ao mesmo tempo, sentia um desejo grande de reflexão de vida cristã e encontrei um casal (heterosexual) que tinha a mesma vontade. Começámo-nos a reunir semanalmente numa pequena comunidade de oração e reflexão que, apesar de crítica, nos tem ajudado a sermos Igreja e a nela nos revermos. Paralelamente, face ao contínuo desencanto em relação a algumas posturas e pontos de vista de uma Igreja mais institucional e hierárquica, tive a graça de encontrar um grupo de cristãos homossexuais, que se reuniam com um padre regularmente, sem terem de se esconder ou de ocultar parte de si.

Sei que muitos cristãos homossexuais nunca pensaram sequer na eventualidade de existirem grupos cristãos em que se pudessem apresentar inteiros, quanto mais pensarem poder tomar parte e pôr em comum fé, questões, procuras, afectos e vidas.

Por tudo isto me sinto grato a Deus e me sinto responsável para tentar chegar a quem não teve, até agora, uma experiência tão feliz como a minha.

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