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A diversidade na Igreja

"A casa do meu Pai tem muitas moradas", diz-nos Jesus no evangelho.

A unidade na diversidade não é sempre aparente na Igreja enquanto povo de Deus, mas é uma realidade em Deus e uma presença na fé cristã desde a sua origem. A Palavra de Deus não é partidária, elitista e exclusiva. O Reino de Deus é como uma árvore que estende os ramos para dar abrigo a todos os pássaros do céu. Cristo não morreu na cruz para salvar uma mão cheia de cristãos. Até o Deus Uno encerra em si o mistério de uma Trindade.

A Palavra de Deus é inequívoca e só pode levar à desinstalação, à abertura ao outro, e a recebê-lo e amá-lo enquanto irmão ou irmã. Ninguém fica de fora, nem mesmo - se tivessemos - os inimigos.

Muitos cristãos crêem nesta Igreja, nesta casa do Pai, corpo de Cristo, templo do Espírito Santo. Mas como esquecer que muitos se sentem "de fora" por se verem rejeitados, amputados e anulados, e afastam-se por ninguém lhes ter mostrado que há um lugar para cada um, com a totalidade do seu ser?

Um blogue para cristãos homossexuais que não desistiram de ser Igreja

Porquê este blogue?

Este blogue é a partilha de uma vida de fé e é uma porta aberta para quem nela quiser entrar. É um convite para que não desistas: há homossexuais cristãos que não querem recusar nem a sua fé nem a sua sexualidade. É uma confirmação, por experiência vivida, que há um lugar para ti na Igreja. Aceita o desafio de o encontrares!

Este blogue também é teu, e de quem conheças que possa viver na carne sentimentos contraditórios de questões ligadas à fé e à orientação sexual. És benvindo se, mesmo não sendo o teu caso, conheces alguém que viva esta situação ou és um cristão que deseja uma Igreja mais acolhedora onde caiba a reflexão sobre esta e outras realidades.

Partilha, pergunta, propõe: este blogue existe para dar voz a quem normalmente está invisível ou mudo na Igreja, para quem se sente só, diferente e excluído. Este blogue não pretende mudar as mentalidades e as tradições com grande aparato, mas já não seria pouco se pudesse revelar um pouco do insondável Amor de Deus ou se ajudasse alguém a reconciliar-se consigo em Deus.
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quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

A Violação Correctiva perpeptua-se na África do Sul

Na África do Sul acreditam que violar pode curar

Chama-se Millicent Gaika e é sul-africana. É lésbica e por isso foi torturada durante cinco horas, violada por um homem.

É a denominada "violação correctiva", uma prática sul-africana aplicada às mulheres homossexuais e que, segundo os activistas dos direitos humanos, nunca foi judicialmente condenada.

Millicent sobreviveu, ao contrário de Eudy Simolane, uma das ícones do futebol feminino sul-africano, que em 2008 foi violada e assassinada após revelar que era lésbica e tornar-se voz forte na defesa do movimento LGBT.

Neste momento está a decorrer uma petição para pôr fim a esta violência homofóbica.

Por Bárbara Rosa in dezanove

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Mundial 2022 sem sexo para os homossexuais

Presidente da FIFA sugere que gays e lésbicas devem fazer abstinência sexual se forem ao Mundial em Qatar

O presidente da FIFA Sepp Blatter diz que os adeptos gays e lésbicas não devem ter relações sexuais durante o Mundial 2022 de Futebol no Qatar, país onde a homossexualidade é proibida.

A afirmação foi feita mais ou menos a brincar por Blatter quando foi questionado se os gays e as lésbicas se devem preocupar por causa da atitude hostil do país do Médio Oriente em relação à homossexualidade. No entanto Blatter espera que haja a "abertura" da cultura islâmica para o Mundial.

"É uma outra cultura e outra religião, mas no futebol não temos limites", disse Blatter a partir da Soccer City em Johannesburgo, África do Sul durante a noite do encerramento oficial do Mundial 2010.

"Estamos abertos a todo o mundo e acho que não deve haver qualquer discriminação contra qualquer ser humano (...)."

"O futebol é um jogo que não afecta qualquer tipo de discriminação. Pode ter a certeza ... se as pessoas quiserem assistir a um jogo no Qatar em 2022, serão admitidos para os jogos."

O Qatar pune os actos sexuais consentidos entre adultos do mesmo sexo com uma pena até cinco anos de prisão.

in PortugalGay.PT
http://portugalgay.pt/news/141210A/qatar:_presidente_da_fifa_sugere_que_gays_e_lesbicas_nao_devem_fazer_sexo_se_forem_ao_mundial

domingo, 21 de novembro de 2010

Números da Sida no mundo

Flagelo em toda a África e a crescer no Leste e na Ásia

ONU diz que a situação está a estabilizar, mas número de infectados aumenta de forma descontrolada no continente africano e no Leste europeu e na Ásia Central


Anualmente mais de 2,7 milhões de pessoas são infectadas com o vírus da sida, sobretudo na África subsariana. Mas a epidemia está a estabilizar à escala global. Esta é uma das conclusões do último relatório publicado pela Organização Mundial de Saúde em conjunto com o programa de luta contra a sida das Nações Unidas. Quem combate o VIH em África acredita que uma maior abertura da Igreja quanto ao uso do preservativo pode fazer a diferença.

Segundo as Nações Unidas, políticas como o apoio a diferentes programas de sensibilização, o reforço de programas de tratamento, que aumentaram dez vezes nos últimos cinco anos, levaram a uma baixa da mortalidade em 18 por cento. Por outro lado, uma maior acessibilidade aos novos medicamentos prolonga a longevidade a cada vez mais infectados. Contudo, o impacto da crise económica está a prejudicar os programas de prevenção e de tratamento, pelo menos em 22 países de África, Caraíbas, Europa, Ásia e Pacífico.

Estima-se que na actualidade o número de pessoas com VIH esteja próximo dos 40 milhões. Uma em cada dez pessoas infectadas sabe que o está. Um de cada 100 adultos de idades entre os 15 e os 40 anos contraiu o vírus.

Desde o princípio da epidemia, 3,8 milhões de menores de 15 anos de idade terão ficado infectados pelo HIV e que 2,7 milhões já morreram com a doença. Mais de 90 por cento desses jovens contraíram o vírus através das mães seropositivas, antes ou durante o parto ou através do aleitamento materno. Mais de oito milhões de crianças perderam a sua mãe por causa da sida antes de cumprir os 15 anos, e muitos deles também perderam o pai. Este número quase se triplicará este ano.

A África do Sul é líder em portadores do vírus VIH no mundo, com 11,6% (5,7 milhões) da população (de 49 milhões) atingida. Em África a população atingida é de 22,4 milhões.

O padre Almiro Mendes esteve um ano na Guiné-Bissau e jamais esquecerá a tragédia que presenciou. "Em certas localidades 70 por cento da população está infectada", afirmou ao DN, acrescentando que as campanhas de sensibilização têm dado pouco resultado. Só no Hospital de Cumurra, de uma missão italiana, nesse ano, morreram 200 pessoas. "Agradado com a posição do Papa" acha no entanto que as campanhas têm poucos resultados devido a uma cultura que encara de forma diferente a sexualidade.

Para além de África, a preocupação das autoridades mundiais de saúde estão viradas para o Leste Europeu e para a Ásia Central, regiões do mundo onde o número de novas infecções com o vírus dispararam.

por Alfredo Teixeira in diário de notícias a 21 de Novembro de 2010
 
Ler no blogue
http://moradasdedeus.blogspot.com/2010/11/vida-nao-pode-ser-infectada-vida-nao.html
http://moradasdedeus.blogspot.com/2010/11/anuncio-do-papa-sobre-preservativos-e.html
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http://moradasdedeus.blogspot.com/2010/11/3-reaccoes-abertura-de-bento-xvi-ao-uso.html
http://moradasdedeus.blogspot.com/2010/11/as-novas-declaracoes-do-papa-em-relacao.html

sábado, 9 de outubro de 2010

A Diversidade promove a Unidade

A Igreja e o Vaticano II: Um retrocesso (5ª e última parte)

conclusão do discurso de Kevin Dowling, bispo de Rustenburg (África do Sul)

A meu ver, deveríamos ter uma Igreja onde a liderança reconhecesse e incentivasse o acto de tomar decisões ao nível apropriado das Igrejas locais; onde a liderança local escutasse e discernisse em conjunto com o povo de Deus desse local o que “o Espírito diz à Igreja”, e então articulasse o resultado como um consenso da comunidade de fé, de oração e que isso servisse. Precisamos ter fé em Deus e confiança no povo de Deus para, como pode parecer a alguns (ou a muitos), correr um risco. A Igreja poderia enriquecer com o resultado de uma diversidade que integrasse verdadeiramente os valores socioculturais e a percepção de uma fé viva e em evolução, juntamente com o reconhecimento de como tal diversidade poderia promover unidade dentro da Igreja – sem exigir, portanto, uniformidade com vista a ser verdadeiramente autêntica.

A diversidade na vida e na prática, como uma expressão do princípio de subsidiariedade, tem sido retirada das igrejas locais em todo o mundo através da centralização da tomada de decisões pela parte do Vaticano. Além disso, a ortodoxia está cada vez mais identificada com as opiniões e os pontos de vista conservadores sobre o mundo, com a consideração de que tudo o que é rotulado de “liberal” tanto é suspeito como não ortodoxo e por isso, deve ser rejeitado como um perigo à fé do povo.

Há algum caminho que nos conduza em frente? Isto é uma luta minha, especialmente vendo a divisão aparente do propósito e da visão na Igreja. Como reconciliar tais visões ou modelos de Igreja tão diferentes? Eu não tenho resposta, apenas defendo que temos de encontrar uma atitude de respeito e reverência pela diferença e diversidade enquanto procuramos uma unidade viva na Igreja. Que as pessoas sejam autorizadas, e que lhes sejam dadas condições para encontrarem ou criarem o tipo de comunidade que expresse a sua fé e aspirações em relação às suas vidas cristãs e católicas, e ao compromisso da Igreja no mundo, (…) que haja um esforço para manter a tensão legítima e construtiva dentro das incertezas e ambiguidades que vierem, confiando na presença do Espírito Santo.

No cerne disto está a questão da consciência. Como católicos, temos de ser suficiente “sérios” para tomarmos decisões conscientes na nossa vida, no nosso testemunho, e nas nossas expressões de fé, espiritualidade, oração e interacção com o mundo – tendo uma consciência madura como base.

E, como convite para uma avaliação de consciência e decisões conscientes sobre as nossas vidas e participação no que é uma Igreja muito humana, concluo com a formulação ou o parecer dado por alguém como o teólogo Josef Ratzinger, actual Papa, quando era perito ou expert no Concílio Vaticano II:

Acima do Papa, como expressão da reivindicação vinculativa da autoridade eclesiástica, encontra-se a própria consciência, que deve ser obedecida até mesmo, se necessário, contra a exigência da autoridade eclesiástica. Esta ênfase sobre o indivíduo, cuja consciência confronta um tribunal supremo e final, e aquele que, em última instância, está além da reivindicação de grupos sociais externos, mesmo a Igreja oficial, também estabelece um princípio em oposição ao crescente totalitarismo.” [1]

[1] Joseph Ratzinger in “Comentário sobre o Documento do Vaticano II”, Vol. V., pág. 134 (Ed) H. Vorgrimler, Nova Iorque, Herder and Herder, 1967).

Bispo Kevin Dowling C.Ss.R.
Cidade do Cabo, 1 de Junho de 2010

ver parte 1
http://moradasdedeus.blogspot.com/2010/10/o-vaticano-ii-em-aguas-de-bacalhau.html
ver parte 2
http://moradasdedeus.blogspot.com/2010/10/igreja-deveria-partir-do-principio-que.html
ver parte 3
http://moradasdedeus.blogspot.com/2010/10/seguir-os-principios-da-doutrina-social.html
ver parte 4
http://moradasdedeus.blogspot.com/2010/10/colegialidade-nas-decisoes-e.html
http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=34406

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

A Colegialidade nas decisões é inexistente

A Igreja e o Vaticano II: Um retrocesso (parte 4)

continuação do discurso de Kevin Dowling, bispo de Rustenburg (África do Sul)

Entretanto, penso que actualmente temos uma liderança que, na verdade, questiona exactamente a noção de subsidiariedade; os mínimos detalhes da vida e prática da Igreja “ao nível mais baixo” estão sujeitos à análise e autenticação da parte de um “nível mais alto”, (…) por exemplo, a autorização de linguagem e textos litúrgicos. Um dos princípios chave do concílio Vaticano II, a colegialidade nas tomadas de decisões, é virtualmente inexistente. O eminente emérito Arcebispo de Viena, Cardeal Franz König, em 1999 – quase 35 anos depois do Concílio Vaticano II – escreveu o seguinte: “(…) Intencionalmente ou não, as autoridades curiais que trabalham em conjunto com o Papa apropriaram-se da tarefa do Colégio Episcopal. (…)” (in "A minha visão da Igreja do Futuro", The Tablet, 27 de Março de 1999, p. 434).

O que leva a isto é, para mim, a mística que tem envolvido crescentemente a pessoa do Papa nos últimos 30 anos, de forma a que qualquer crítica ou questionamento às suas políticas, à sua forma de pensar, ao seu exercício de autoridade, são considerados como traição. (…) Quando a autoridade do Papa é estendida intencionalmente à cúria do Vaticano, existe a real possibilidade de que a inquestionável obediência às decisões humanas tomadas pelos departamentos curiais e cardeais sobre uma gama de questões, tornam-se na marca da fidelidade como católico, e tudo fora disso é interpretado como sendo desleal ao Papa (...).

Por isso, tornou-se cada vez mais difícil ao longo dos anos, para todo o Colégio de Bispos, ou numa dada região em particular, pôr em prática a liderança teologicamente baseada no serviço, discernir respostas apropriadas em relação à realidade e às necessidades socioeconómicas, culturais, litúrgicas, espirituais e pastorais; e ainda mais discordar ou procurar alternativas a políticas e decisões tomadas em Roma. E parece que cada vez mais a política de designar bispos “seguros”, inquestionáveis ortodoxos, e até muito conservadores para preencher dioceses vagas nos últimos 30 anos, faz com que cada vez menos o Colégio de Bispos – mesmo em conferências poderosas como nos Estados Unidos – questionem o que sai de Roma, e se o fazem, certamente não o farão publicamente.

Pelo contrário, há todo um esforço para tentar encontrar uma sintonia com os que estão no poder, o que significa que a posição romana acabará sempre por prevalecer. E, consequentemente, quando um bispo disser algo contrário, especialmente em público, a impressão ou julgamento dos restantes bispos será sempre de que estará “a desrespeitar a hierarquia”, e isto apenas confundiria os fiéis leigos – dizem – pois pareceria que os bispos não possuem unidade em relação aos ensinamentos e ao seu papel de líderes. A pressão, portanto, é no sentido da igualização.
... (continua)
ver parte 1
http://moradasdedeus.blogspot.com/2010/10/o-vaticano-ii-em-aguas-de-bacalhau.html

ver parte 2
http://moradasdedeus.blogspot.com/2010/10/igreja-deveria-partir-do-principio-que.html

ver parte 3
http://moradasdedeus.blogspot.com/2010/10/seguir-os-principios-da-doutrina-social.html

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quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Seguir os princípios da Doutrina Social

A Igreja e o Vaticano II: Um retrocesso (parte 3)
continuação do discurso de Kevin Dowling, bispo de Rustenburg (África do Sul)

Uma das contribuições realmente significativas da Igreja para a construção de um mundo em que pessoas e comunidades possam viver em paz e com dignidade, com uma qualidade de vida de quem é criado à imagem de Deus, é o “corpo” do que se tem chamado de “Doutrina Social da Igreja”, um compêndio publicado nos últimos anos. Os princípios da doutrina social são: Bem comum, Solidariedade, Opção pelos pobres, Subsidiariedade, Destino universal dos bens, Integridade da criação e a Centralidade da pessoa – todos baseados e seguindo os valores do Evangelho. Aqui temos princípios e directrizes muito relevantes para empregar em realidades sociais, económicas, culturais e políticas complexas (…).

Porém, se a hierarquia da Igreja (…) ousa desaprovar ou criticar políticas económicas e sociopolíticas, quem planeia tais políticas ou mesmo os governos, também deve deixar-se criticar da mesma forma, em relação às suas políticas, à sua vida interna e, especialmente, ao seu modus operandi. Uma cultura e prática democrática, com foco na participação dos cidadãos e mantendo o dever de prestar contas pelos que são eleitos para governar, é cada vez mais desejada (…). Se a Igreja e a sua hierarquia declaram seguir os valores do Evangelho e os princípios da Doutrina Social da Igreja, então a sua vida interna, os seus métodos de governação e o seu uso da autoridade serão analisados com base no que nós acreditamos.

Vamos olhar, por exemplo, para um princípio da doutrina social com importância vital para a garantia da democracia participativa no domínio sociopolítico: a subsidiariedade.

Trabalhei 17 anos com a Conferência Episcopal (da África do Sul), no Departamento de Justiça e Paz. Após a nossa libertação política em 1994, constatámos que esta seria pouco relevante para a realidade dos pobres e marginalizados, se não resultasse na sua emancipação económica. Nós, portanto, decidimos que uma questão fundamental para a África do Sul pós 1994 era a justiça económica. Depois de muita discussão (…) emitimos uma Nota Pastoral em 1999: “Justiça Económica na África do Sul”. O seu foco principal foi necessariamente a economia. Entre outras coisas, tratou de cada um dos princípios da Doutrina Social da Igreja; apresento uma citação do tópico da subsidiariedade:

O princípio da subsidiariedade protege os direitos dos indivíduos e grupos perante os poderosos, especialmente o Estado. Faz com que aquelas coisas que podem ser feitas ou decididas a um nível mais baixo da sociedade não sejam substituídas pelo que vem de um nível mais alto. Assim, reafirma o nosso direito e a nossa capacidade de decidirmos por nós, organizarmos os nossos relacionamentos e entrarmos em sintonia com os outros. (...) Nós podemos e deveríamos dar passos para encorajar tomadas de decisões nos níveis económicos mais baixos, e capacitar o maior número de pessoas a participar o mais possível na vida económica.” (…)

Aplicado à Igreja, o princípio de subsidiariedade requer que a hierarquia promova e encoraje activamente a participação, a responsabilidade pessoal e o empenho efectivo de todos, em âmbitos de vocação e ministério particular na Igreja e no Mundo, de acordo com suas possibilidades e dons.
... (continua)

ver parte 1
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ver parte 2
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segunda-feira, 4 de outubro de 2010

A Igreja deveria partir do princípio que não tem todas as respostas de antemão

A Igreja e o Vaticano II: Um retrocesso (parte 2)
continuação do discurso de Kevin Dowling, bispo de Rustenburg (África do Sul)

Há que reconhecer que para um número significativo de jovens católicos, católicos adultos, padres e religiosos em todo o mundo, o modelo “restaurador” de Igreja que tem sido implementado nos últimos 30/40 anos é procurado e valorizado. Vai de encontro a uma necessidade que têm, dá-lhes uma sensação de pertencerem a algo com claros parâmetros e directrizes para a vida. Traz-lhes um sentido de segurança e clareza sobre o que é verdade e o que moralmente é certo ou errado, pois há uma estrutura de autoridade clara e forte (…) em que confiam absolutamente como sendo de origem divina.

O crescimento de grupos e organizações conservadores na Igreja nos últimos 40 anos ou mais, que atraem um grande número de adeptos, levou a um fenómeno que eu considero difícil de lidar. Uma igreja com um olhar “para dentro”, atemorizante, ou até antagónico, em relação a um mundo secular com o “perigo” concomitante do relativismo, especialmente em relação à verdade e à moralidade – frequentemente referido pelo papa Bento XVI. Uma igreja que dá uma impressão de “sair pela retaguarda”, e que confia numa autoridade forte centralizada para garantir a unidade através da uniformidade do credo e da prática perante semelhantes perigos. Há medo de, caso fosse autorizada qualquer liberdade de decisão sem supervisão e controlo, mesmo em questões menos importantes, se poder abrir a porta para a divisão e para o colapso da unidade da Igreja.

Isto acontece por uma “visão” fundamentalmente diferente na Igreja e da Igreja. Onde é que actualmente podemos encontrar os grandes líderes teológicos e pensadores do passado, como o Cardeal Frings de Colónia (Alemanha) e Alfrink de Utrecht (Holanda), e os grandes bispos profetas dos quais as vozes e testemunhos foram uma chamada de trombeta pela justiça, direitos humanos e uma comunidade global de distribuição justa – o testemunho do Arcebispo Romero de El Salvador, as vozes dos cardeais Arns e Lorscheider, e os bispos D. Hélder Câmara e Casadaliga do Brasil? Novamente, quem no mundo de hoje, “por ai”, ainda dá ouvidos, ou pelo menos aprecia ou permite ser desafiado pela liderança da Igreja na actualidade? Penso que a autoridade moral da liderança da Igreja nunca esteve tão fraca. É, portanto, importante, no meu ponto de vista, que a liderança da Igreja, ao invés de dar uma impressão do seu poder, privilégio e prestígio, deveria ser experimentada como ministério humilde, em busca conjunta com as pessoas, para discernir a resposta mais apropriada ou viável que poderia servir para complexificar as questões éticas e morais – uma liderança, portanto, que não presume ter constantemente todas as respostas.
... (continua)
ver parte 1

O Vaticano II em "águas de bacalhau"

Kevin Dowling, bispo de Rustenburg (África do Sul), proferiu um discurso que teve uma grande repercussão nos países anglófonos. Um grupo de “católicos leigos influentes” pediu-lhe que dissesse algo sobre a situação actual da Igreja.

O discurso de D. Kevin Dowling foi publicado no site National Catholic Reporter no dia 8 de Julho de 2010.




A Igreja e o Vaticano II: Um retrocesso (parte 1)
[devido à extensão do texto, será publicado em diferentes mensagens]
Dowling começou a palestra lendo uma nota do correspondente do National Catholic Reporter em Washington, Jerry Filteau, sobre uma Missa Latina celebrada em Abril passado na Basílica do Santuário Nacional da Imaculada Conceição nesta cidade. Edward Slattery, bispo de Tulsa, celebrou a missa envergando a cappa magna [1], um “adereço” litúrgico vermelho brilhante com quase 20 metros, um dos símbolos do renascimento da missa tridentina.


The Southern Cross (jornal católico semanal da África do Sul) (…) publicou uma fotografia do bispo Slattery com sua cappa magna. Para mim, tal demonstração, que representa o triunfalismo, numa Igreja despedaçada por escândalos de abusos sexuais, é muito infeliz. O que aí aconteceu reproduziu as marcas de uma corte real medieval, não a liderança humilde e servidora demonstrada por Jesus. Mas parece-me que isto é também um símbolo do que tem ocorrido na Igreja (…) – e isto é (…) o desmantelamento cuidadosamente planeado da teologia, da eclesiologia, da visão pastoral, (…) da “abertura das janelas” do Concílio Vaticano II –, (…) [restaurando-se] um modelo de Igreja anterior, mais controlável através de uma estrutura de poder cada vez mais centralizada. Estrutura essa que agora controla tudo na vida da Igreja através de uma rede de congregações do Vaticano, lideradas por cardeais que asseguram a estrita observância do que por eles é considerado “ortodoxo”. Aqueles que não obedecem arcam com censura e punição. Por exemplo, os teólogos que são proibidos de leccionar em faculdades católicas.

Assim, que não deixemos de destacar (…) este facto importante: Vaticano II foi um concílio ecuménico, ou seja, um exercício solene do Magistério da Igreja, ou ainda, o colégio de bispos reunidos com o bispo de Roma exercitando uma função de ensino para toda a Igreja. Por outras palavras, a sua visão, os seus princípios e directivas, devem ser seguidos e implementados por todos, do Papa ao camponês lavrador nas Honduras.

Desde o concílio Vaticano II, não houve tal exercício de autoridade de ensino do magistério. Em vez disso, uma série de decretos, declarações e decisões, (…) mas na realidade são simplesmente as interpretações ou opiniões teológicas ou pastorais dos que têm poder no centro da Igreja. Eles não foram definidos solenemente como pertencentes ao “depositário da Fé” para serem (…) seguidos por todos os católicos, como outros dogmas solenemente proclamados.

Quando trabalhei internacionalmente, a partir da minha base congregacional religiosa em Roma, de 1985 a 1990 - Dowling é Redentorista [Congregação do Santíssimo Redentor] -, (…) uma das minhas responsabilidades era a construção da Pastoral de Jovens em conjunto com as nossas comunidades nos países europeus, onde tantos jovens estavam longe da Igreja. Desenvolvi relações com muitas centenas de jovens católicos que procuravam de forma sincera, bem abertos a questões de injustiça, pobreza e miséria no mundo, conscientes da injustiça estrutural nos sistemas políticos e económicos que dominam o mundo. Eles sentiam cada vez mais que a Igreja “oficial” não estava apenas a perder a noção da realidade, mas a dar mau testemunho às aspirações de católicos pensadores e conscientes, que procuram uma experiência diferente de Igreja.
Por outras palavras, procuravam uma experiência que os deixasse acreditar que a Igreja a que pertenciam possuia algo de relevante para dizer e testemunhar neste mundo desafiante em que vivemos. Muitos, mas mesmo muitos destes jovens, desde então, deixaram a Igreja definitivamente.


[1] a fotografia desta capa encontra-se na mensagem abaixo: Será que a Igreja reconhece Jesus Cristo?
... (continua)
http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=34406

Porque estou aqui

Sinto-me privilegiado por ter encontrado na Igreja um lugar vazio, feito à minha medida. É certo que tê-lo encontrado (ou encontrá-lo renovadamente, pois não é dado adquirido) foi também mérito da minha sede, do meu empenho, de não baixar os braços e achar, passivamente, que não seria possível. Passo a contextualizar: a comunidade onde vou à missa é pequena e acolhedora, e podia bem não o ser. Ao mesmo tempo, sentia um desejo grande de reflexão de vida cristã e encontrei um casal (heterosexual) que tinha a mesma vontade. Começámo-nos a reunir semanalmente numa pequena comunidade de oração e reflexão que, apesar de crítica, nos tem ajudado a sermos Igreja e a nela nos revermos. Paralelamente, face ao contínuo desencanto em relação a algumas posturas e pontos de vista de uma Igreja mais institucional e hierárquica, tive a graça de encontrar um grupo de cristãos homossexuais, que se reuniam com um padre regularmente, sem terem de se esconder ou de ocultar parte de si.

Sei que muitos cristãos homossexuais nunca pensaram sequer na eventualidade de existirem grupos cristãos em que se pudessem apresentar inteiros, quanto mais pensarem poder tomar parte e pôr em comum fé, questões, procuras, afectos e vidas.

Por tudo isto me sinto grato a Deus e me sinto responsável para tentar chegar a quem não teve, até agora, uma experiência tão feliz como a minha.

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