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A diversidade na Igreja

"A casa do meu Pai tem muitas moradas", diz-nos Jesus no evangelho.

A unidade na diversidade não é sempre aparente na Igreja enquanto povo de Deus, mas é uma realidade em Deus e uma presença na fé cristã desde a sua origem. A Palavra de Deus não é partidária, elitista e exclusiva. O Reino de Deus é como uma árvore que estende os ramos para dar abrigo a todos os pássaros do céu. Cristo não morreu na cruz para salvar uma mão cheia de cristãos. Até o Deus Uno encerra em si o mistério de uma Trindade.

A Palavra de Deus é inequívoca e só pode levar à desinstalação, à abertura ao outro, e a recebê-lo e amá-lo enquanto irmão ou irmã. Ninguém fica de fora, nem mesmo - se tivessemos - os inimigos.

Muitos cristãos crêem nesta Igreja, nesta casa do Pai, corpo de Cristo, templo do Espírito Santo. Mas como esquecer que muitos se sentem "de fora" por se verem rejeitados, amputados e anulados, e afastam-se por ninguém lhes ter mostrado que há um lugar para cada um, com a totalidade do seu ser?

Um blogue para cristãos homossexuais que não desistiram de ser Igreja

Porquê este blogue?

Este blogue é a partilha de uma vida de fé e é uma porta aberta para quem nela quiser entrar. É um convite para que não desistas: há homossexuais cristãos que não querem recusar nem a sua fé nem a sua sexualidade. É uma confirmação, por experiência vivida, que há um lugar para ti na Igreja. Aceita o desafio de o encontrares!

Este blogue também é teu, e de quem conheças que possa viver na carne sentimentos contraditórios de questões ligadas à fé e à orientação sexual. És benvindo se, mesmo não sendo o teu caso, conheces alguém que viva esta situação ou és um cristão que deseja uma Igreja mais acolhedora onde caiba a reflexão sobre esta e outras realidades.

Partilha, pergunta, propõe: este blogue existe para dar voz a quem normalmente está invisível ou mudo na Igreja, para quem se sente só, diferente e excluído. Este blogue não pretende mudar as mentalidades e as tradições com grande aparato, mas já não seria pouco se pudesse revelar um pouco do insondável Amor de Deus ou se ajudasse alguém a reconciliar-se consigo em Deus.
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sexta-feira, 12 de maio de 2017

Conceitos LGBTI: Transfobia, Transgénero, Transexual, Travesti, Triângulo Negro, Triângulo Rosa

Glossário LGBTI: letra T

Reconhecendo as minhas próprias limitações relativas a alguns conceitos utilizados ao falar de questões ligadas à comunidade LGBTI, resolvi partilhar com os leitores do blogue um glossário dos termos mais recorrentes. Esta publicação será faseada

"Conscientes dos efeitos de estereotipização e da tentativa de normalização, não se pretende com este glossário contribuir ainda mais para o aumento dessa problemática. Pretendemos apenas clarificar alguns conceitos básicos para que possamos todos/as falar a mesma língua.

Transfobia – ódio, medo ou repulsa irracionais e injustificados por pessoas trans.

Transgénero – termo abrangente que inclui qualquer pessoa que, por qualquer razão, não se identifica com o género associado ao sexo que lhe foi atribuído à nascença. Pode, ou não, fazer algum tipo de transição.

Transsexual – termo médico, que data de 1850, criado para referir as pessoas que desejam que o seu sexo biológico corresponda à sua identidade de género, mudando assim o seu corpo através de hormonas e/ou cirurgias. Refere-se a idivíduos que não se identificam com o género associado ao sexo que lhes foi atribuído à nascença. Frequentemente descrevem sentir disforia de género e fazem algum tipo de transição com o objetivo de aliviar essa disforia.

Travesti – pessoa que se veste com roupas do sexo oposto por prazer ou diversão. Um travesti não é necessariamente um homossexual. Em Portugal, o termo é usado para designar drag queens ou crossdressers, indiferentemente.

Triângulo Negro – símbolo nazi para identificar lésbicas, prostitutas, mulheres sem crianças e aquelas com peculiaridades “antissociais”. Semelhante ao triângulo rosa, o triângulo negro tornou-se tanto um símbolo de orgulho lésbico como do feminismo.

Triângulo Rosa – símbolo criado para identificar os homossexuais masculinos nos campos de concentração nazi. Tornou-se num símbolo do orgulho gay e foi usado pela primeira vez para relembrar a judeus homofóbicos que os homossexuais também estiveram nos campos de concentração." (Ler mais em: triângulo rosa)

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

A monja radical e o Ministério secreto

A freira que pediu perdão à comunidade Trans

Nos Estados Unidos há uma comunidade de irmãs onde vive uma pequena freira que é uma grande mulher. No seu dia-a-dia, entre a vida de oração e em comunidade, encontra tempo para dedicar uma atenção especial à comunidade transgender, sendo uma autêntica mãe para uma "pastoral trans". Para isso, com simplicidade e coragem, coloca os valores do Evangelho em prática e as palavras em acções.

Abaixo segue o link de uma reportagem sobre esta história, em inglês: ler O Ministério em Segredo

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Sexualidade e fé católica: a luta de um encontro (9 testemunhos)

John Singer Sargent
"Como assumir ao mesmo tempo a sua orientação sexual e a sua crença em Deus? Como é que a Igreja acolhe e acompanha estas pessoas que, diariamente, ou através da sua caminhada de vida, descobrem uma atracção, um amor por uma pessoa do mesmo sexo? Mesmo que o assunto permaneça tabu, nascem iniciativas, desenham-se aberturas…

Xavier e Benoît, um casal e uma comunidade de Vida Cristã (espiritualidade inaciana)
«Como casal desde há sete anos, permanecemos profundamente ligados à Igreja. Estamos activos no seio da CVX [1], ou na nossa paróquia. De facto, respeitamos infinitamente a posição da Igreja sobre este assunto, até quase que a compreendemos, se considerarmos que ela não pode ter outro discurso. Vivemos simplesmente, acolhemos aquilo que a vida nos «reservou» sem que o tivéssemos escolhido, a não ser a escolha de assumir, como a parábola dos talentos: a nós de fazer frutificar o que nós somos, de dar amor onde estamos e de testemunhar essa fé que nos foi passada. Essa fé, tentamos transmiti-la aos três filhos de Xavier, quando eles estão em casa, de férias, tentamos partilhá-la o mais simplesmente na CVX, o mais profundamente possível, sem provocações e sem chocar… essa fé, exprimimo-la aquando da cerimónia do nosso Compromisso: nesse dia, em 2010, fizemos a escolha de exprimir o nosso amor mútuo, que voltamos resolutamente para todos aqueles que partilham o nosso caminho (crianças, famílias, amigos, etc.). Esta cerimónia, que criámos em torno daqueles que nos são mais próximos, não a quisemos como uma simulação de casamento, isso não faria qualquer sentido e, fiéis à Igreja, não desejamos colocarmo-nos contra Ela. Confiámos, simplesmente, o nosso projecto, o nosso futuro, a Deus, confiando-lhes as orações dos nossos entes queridos» 
Xavier e Benoît

Fiel à minha fé, apesar da minha consternação
«Sim, sou homossexual e católico. E praticante em ambos os casos… porque não teríamos o direito, também nós, de amar e ser amados em plenitude de sentimentos? Não pedimos compaixão mas a assunção de uma realidade biológica. Um dia, em confissão, um padre recusou-me a absolvição devido ao único de lhe ter confessado que era homossexual… Que humilhação para mim! Se acrescentarmos a isso o facto de a minha situação nunca ter sido verdadeiramente aceite pela minha família, o facto de levar uma vida pública bastante intensa e o facto de habitar na província, facilmente se compreenderá que nem sempre é fácil ser homossexual em 2011. Os costumes evoluem, mas não as mentalidades, pelo menos ao mesmo ritmo. Apesar dos períodos de turbulência e de dúvida, permaneci fiel à minha fé e encontro-me igualmente envolvido na minha paróquia. Eu acomodo-me, mas luto pela minha condição, pensando que o amor de Deus é mais forte que a maldade dos homens.» 
Olivier

É preciso intervir junto dos pais e dos alunos
«A 4 de Agosto de 1990, o nosso quarto filho, Jean-Baptiste, morreu aos 26 anos, no nosso apartamento, devido a uma doença, diagnosticada em 1981 nos Estados Unidos e tida então como o «cancro gay»: a SIDA. Três anos antes, em vez do Serviço militar, ele era professor na Universidade de S. José, em Beirute, em plena guerra civil. Não foi uma bala perdida que o atingiu, mas o VIH. Ele dizia que tanto se sentia atraído por raparigas como por rapazes… A doença de Jen-Baptiste deu-me a conhecer que as pessoas homossexuais têm comportamentos tão variados como aqueles que se dizem heterossexuais, ainda que nós, concidadãos, não vejamos frequentemente senão a ponta do iceberg. Por exemplo a entreajuda e a fidelidade ao longo dos anos, podem ser vividas entre dois homens de forma tão intensa, senão mais intensa, que entre casais heterossexuais. Isto não deveria continuar a ser ignorado pela minha Igreja Católica, reservando a palavra «matrimónio» para os casais formados por um homem e uma mulher. Realço um documento notável do ensino católico (Maio de 2010) sobre a «educação afectiva relacional e sexual nos estabelecimentos católicos de ensino». «Um número significativo de homens e mulheres têm tendências homossexuais profundas. Eles não escolhem a sua condição homossexual. A educação aborda, pois, aqui, uma questão extremamente sensível. Formas diversas de homofobia podem ferir gravemente as pessoas… O educador deve, portanto, velar particularmente na articulação entre o que pode dizer sobre a diferença sexual no respeito incondicional pelas pessoas». Para fazer isso seria desejável que existissem mais pessoas que se formem, de modo a intervirem junto dos pais e dos alunos. 
Um pai de família

Os Bispos devem ter a questão em consideração
«Escutei o apelo de Deus aos 12 anos, numa idade em que descobri igualmente qual era a minha sexualidade. Nunca a vivi de forma errada, pois fui criado num meio muito ecuménico. Vi que a reflexão antropológica levada a cabo pela outras Igrejas permitia ver o problema de outro modo. À minha volta, no entanto, depressa me apercebi dos danos que o silêncio fazia junto de muitos padres, seminaristas, que se torturam sobre esta questão. Os bispos devem ter a questão em consideração para os membros interessados do clero e propor-lhes um lugar de partilha. Depois, é necessário familiarizar as comunidades com esta questão e permitir aos que o desejem de se encontrarem para melhor viverem a sua presença em comunidade. Membro de uma grande ordem religiosa durante vários anos, decidi abandoná-la quando me apaixonei, tendo explicado a razão da minha partida. Uma verdadeira renuncia, pois era um religioso feliz. Este «sair do armário» institucional deu origem a uma verdadeira tempestade na minha ordem. Há um medo terrível da verdade. Sugeriram-me, antes, que ficasse, mas que me calasse, preocupando-se sobretudo com o que as pessoas iriam pensar. Acontece que os fiéis apoiaram-me e compreenderam-me. Por outro lado, nunca coloquei em causa a minha vocação sacerdotal; a minha orientação sexual não me impede de viver e servir. Actualmente, encontrei um ministério pois fui acolhido numa paróquia. O bispo conhece a minha história. Tenho um amigo que escolhi e perante o qual estou comprometido, mas renunciei a uma vida sexualmente activa no casal. É um caminho que enche e completa a minha vida. Nunca me senti tão equilibrado.» 
François, 42 anos, pároco

Para uma abordagem de aceitação da minha encarnação
«Desde os meus doze anos que penso que sou mau. Aos vinte anos mandei a religião passear. Deus não poderia querer nada comigo, pois eu era homossexual. Alguns anos mais tarde fui agarrado pela sua mensagem de amor. Ele amava-me como eu era. Então, preparei-me para uma vocação religiosa, que era muito forte, sem voltar a colocar-me a questão da minha homossexualidade. Encontrava-me, provavelmente, numa forma de rejeição. Depois tive uma relação com um seminarista e tomei consciência que, de facto, o problema ultrapassava-me largamente. Com todas estas questões, cheguei a um retiro de escolha de vida. Aí, Deus colocou-me, de forma esmagadora, frente às minhas contradições. Foi na experiência espiritual que compreendi que deveria ter plenamente em consideração quem eu era… não tinha avançado nada durante todos estes anos! Hoje, coloquei de parte o meu projecto religioso – que, por um lado me permitia regular o meu problema – para encetar o que considero ser uma abordagem razoável para aceitar a minha encarnação. A Igreja deve retirar a homossexualidade da marginalização. Se continua a caricaturá-la como uma vida de perdição, ela empurra-nos para o silêncio e a uma vida instintiva oculta que não queremos!» 
 Luís, 28 anos
(...)

Finalmente associei o meu espírito ao meu corpo
«Sou cristã, homossexual e feliz: a minha orientação amorosa é diferente, mas não inferior. No entanto, interiorizei desde muito nova que «os homossexuais não fazem parte do plano de Deus». Para fazer parte do plano de Deus, realizei uma clivagem mental: amava Deus, os outros, era uma católica apaixonada pelo Evangelho, era uma enfermeira apaixonada pelos doentes e a tratá-los mas não era uma mulher. Casei-me com um cristão muito meigo. Mas na aliança perfeita homem-mulher-Deus, vivi uma espécie de desolação. Foi um casamento de morte, uma relação contra a minha natureza, que me deixou gravemente doente. Prefiro morrer de amor na eternidade, pois era incapaz de amar, dizia. De facto, era o meu amor que não estava no sítio certo. Encontrei uma mulher. Foi essa a minha verdade. Deste modo, a descoberta e a aceitação da minha homossexualidade foram espectaculares. Associei, enfim, a minha fé, a minha sexualidade, o meu espírito e o meu corpo. É a separação que nos torna doentes. Perante Deus, o meu primeiro amor, pude juntar as peças espartilhadas, tornar-me naquela que sou, desculpabilizada, acalmada e abençoada. Cada baptizado é chamado ao amor e à dádiva.» 
Sophie

O centro Tiberíade, uma família para os doente de SIDA
«Tendo acompanhado toda a minha vida, no quadro das minhas actividades profissionais, pessoas homossexuais maioritariamente marcadas pela infecção pelo VIH, encontrei-me com naturalidade como administrador e acompanhante dum centro de acolhimento de dia para essas mesmas pessoas, quando chegou a minha idade de reforma. O Centro Tiberíade, organizado pela Diocese no coração do 7.º bairro de Paris e criado pelo Monsenhor Jean Marie Lustiger a pedido da Madre Teresa. Uma equipa de voluntários e de elementos permanentes que acolhe, durante cinco dias por semana, pessoas para quem a vida foi madrasta, muitas vezes isoladas e doentes. Perto de 7000 refeições, preparadas por uma equipa discreta de voluntários, são servidas todos os anos. As pessoas acolhidas romperam frequentemente todos os laços com as suas famílias. Encontram no Tiberíade um ambiente caloroso e atencioso onde podem, com naturalidade, partilhar o seu dia-a-dia, expor as suas angústias e encontrar uma escuta e ajuda psicológica e terapêutica. Há à disposição uma biblioteca, jogos, actividades artísticas, visitas, (...) sem esquecer uma iniciação à fé cristã e a presença regular dum capelão com uma possível participação na missa de sexta-feira à tarde. Vive-se em Tiberíade uma fraternidade real, ao ponto de numerosos acolhidos afirmarem diariamente «a minha família está aqui».
Michel

Ser católico e transgénero
«Embora a Igreja comece timidamente a ter em consideração a homossexualidade, parece ignorar completamente ou mesmo rejeitar as pessoas transgéneras ou transexuais. Foi desta forma que não tendo encontrado, até há quatro anos, nenhum lugar na Igreja para me acolher com a minha especificidade, caminhei durante mais de 15 anos com um grupo de homossexuais cristãos: «Devenir Un En Christ (DUEC)», que me ajudou, mas não respondia plenamente à minha «diferença». Descobri a Comunidade Betânia. O único lugar da Igreja, que eu saiba, que se preocupa com o CCI (Cruzamento dos Cristãos Inclusivos) das pessoas transidentitárias que, de momento, me acompanha no plano espiritual e me ajuda a conciliar Fé e Transidentidade.
Isabelle

Pais de homossexuais
«É indispensável e urgente dar liberdade de expressão aos pais de homossexuais que se encontram frequentemente em grande sofrimento e aos jovens que não sabem para quem se voltar quando se apercebem que são homossexuais.
De facto a Igreja (de facto a Igreja é o quê?) trata o tema de forma expedita, como já o fez em relação à contracepção, mesmo quando tem o cuidado de não condenar as pessoas.
O Magistério denuncia frequentemente este estado (pois não é uma escolha, é um estado de facto) como uma desordem (no melhor), uma perversão (no pior) e somente tem como proposta «a vida na castidade».
O grupo «Reflexão e Partilha», no qual participamos, reúne pais preocupados com este problema e jovens, frequentemente em casal, e elaborou um folheto informativo sobre o tema «A Orientação sexual e a vida cristã» e deseja que sejam formados outros grupos e que estes proponham às autoridades eclesiásticas uma palavra apaziguadora e construtiva.
Claude e Jacques

Texto orignal: Elisabeth Marshall e Joséphine Bataille
Órgão: La Vie
Tradução: José Leote
in Rumos Novos

[1] Comunidade de Vida Cristã. A CVX é uma comunidade mundial de leigos, com Estatutos aprovados pela Igreja, e uma Espiritualidade própria: a Espiritualidade Inaciana; isto é, a sua fonte de inspiração característica, para além das Sagradas Escrituras e do Sentido de Igreja, são os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola. As linhas orientadoras da CVX estão consignadas nos Princípios Gerais, que ajudam a unir a Fé e a Vida numa opção apostólica.

sábado, 5 de março de 2011

A vida discriminada das pessoas transexuais e transgéneras

Pessoas transgéneras ou transexuais têm uma vida difícil, diz novo relatório norte-americano

As pessoas transgéneras e pessoas transexuais enfrentam discriminação galopante em todas as áreas da vida: educação, emprego, vida familiar, acomodações públicas, habitação, saúde, polícia e prisões, e os documentos de identificação.

O relatório refere-se aos EUA e foi redigido pela National Gay and Lesbian Task Force e a National Center for Transgender Equality.
"Estes dado são tão chocantes que irão alterar a forma como se olha para as pessoas transgéneras e deve mudar a maneira como defendemos os direitos T," disse a NGLTF.

O estudo é baseado em pesquisas de 6.450 pessoas trans dos 50 estados, o Distrito de Columbia, Porto Rico, Guam e os Ilhas Virgens Americanas.

Entre muitas outras coisas, o relatório descobriu que as pessoas transgéneras ou transexuais negras enfrentam mais dificuldades que os outros todos, que muitas pessoas transgéneras ou transexuais vivem na pobreza, que 41 por cento dos inquiridos tinham tentado o suicídio, que 90 por cento sofreram maus tratos no trabalho ou ocultam o seu estatuto de identidade de género no trabalho, e que 53 por cento tinham sido molestadas ou desrespeitados em locais como hotéis, restaurantes, autocarros, aeroportos ou escritórios do governo.

"Quase todos os sistemas e instituições nos Estados Unidos, grandes e pequenos, do local ao nacional, estão envolvidos nestes dados", diz o relatório. "Os profissionais e sistemas de saúde, agências governamentais, famílias, empresas e empregadores, escolas e faculdades, departamentos de polícia, os sistemas de cadeia e prisão - cada um desses sistemas e instituições é falha diariamente na sua obrigação de servir pessoas transgéneras e transexuais, e pelo contrário, submetem-nas a maus tratos que vão desde o desrespeito corriqueiro até a violência, o abuso e à negação da dignidade humana ".

Para o relatório completo de 228 páginas em Inglês, consulta o relatório.
In portugalgay

domingo, 23 de janeiro de 2011

Crimes transfóbicos na América Central

"Transcausto" nas Honduras

Sensivelmente no espaço de um mês foram seis as mulheres trans assassinadas neste pequeno país da América Central.

Desde o golpe de estado de 28 de Junho de 2009 já somam 34 as mortes na comunidade LGBTTI, sendo que a maior parte delas pertencem à comunidade trans.

Em Dezembro, Lorenza Hernández, jovem mulher transexual de 23 anos, é violada, apedrejada mortalmente e o seu corpo queimado por elementos de um gangue. No mesmo mês, Cheo, mulher trans trabalhadora sexual, é encontrada morta por esfaqueamento. Também em Dezembro, Lady Oscar Martínez Salgado, mulher transgénero de 45 anos é esfaqueada mortalmente inúmeras vezes em sua casa e o seu corpo queimado, supostamente por dois desconhecidos.

Já este mês, Cheo, jovem mulher transgénero é esfaqueada mortalmente numa rua de Tegucigalpa, Génesis, mulher trans entre 23 e 27 anos, é estrangulada por desconhecidos. E uma jovem mulher transexual não identificada é assassinada com múltiplos tiros.

A ministra da Justiça e Direitos Humanos, Ana Pineda, condenou estes crimes de ódio contra a comunidade LGBTTI hondurenha.

Os principais dirigentes da comunidade LGBTTI exigiram ao governo o esclarecimento destes crimes.

Por sua vez, a embaixada dos EUA nas Honduras mostrou-se preocupada com estes seis crimes contra a comunidade transexual/transgénero, recordando que as leis hondurenhas garantem protecção a todos os seus cidadãos, independentemente da sua orientação sexual, pedindo às forças policiais hondurenhas para investigarem vigorosamente estes crimes, levar os culpados à justiça e que tomem todas as medidas necessárias para garantirem a protecção desta comunidade.
 
In PortugalGay.pt
http://portugalgay.pt/news/Y210111A/honduras:_transcausto_nas_honduras

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Identidade de género na Argentina

Tania Luna, actriz transexual de 27 anos, tornou-se na primeira pessoa da América Latina a conseguir que lhe reconhecessem a sua identidade de mulher sem ter sido forçada a submeter-se a uma CRS, num acto considerado pelas associações de direitos humanos como “um facto histórico.”

A actriz, que a 7 deste mês estreou um espectáculo de revista, conseguiu ver escrito na sua documentação o nome com que se rebaptizou há onze anos. Numa sala do Congresso, a CHA (Comunidad Homosexual Argentina) entregou a Tania o seu novo BI, que reconhece a sua identidade feminina, e ao mesmo tempo requeriu uma lei para implementar o reconhecimento e o respeito pela identidade de género. Agradecendo à sua família e às associações que a apoiaram, Tania considerou-se uma privilegiada e pediu uma lei para que o que ela conseguiu por via judicial fique ao alcance de todas as pessoas que não tenham posses para contratarem um advogado.

“Tive de passar por análises psicológicas e físicas invasivas para demonstrar a minha irreversabilidade. Para que certificassem que sou sã e equilibrada. Não quero que mais nenhuma trans passe por isso. É necessária uma lei de identidade de género.”, esclareceu.

“O BI é a porta de entrada para a cidadania, o reconhecimento da identidade de género de cada um e o acesso aos direitos sociais, desde a saúde ao direito a votar.”, afirmou Claudio Morgado do Inadi (Instituto Nacional contra la Discriminación y la Xenofobia).

Com a entrega do novo BI, a comunidade transexual argentina deu uma forte amostra do seu apoio aos projectos de lei de identidade de género apresentados no mês passado, que têm quatro pontos principais: A despatologização das identidades trans, o retirar das alterações de nome e género da área judicial, a desestigmatização (incluindo a não discriminação) das identidades trans e a descriminalização das mesmas.

Até agora a jurisprudência argentina apenas considerava as pessoas transexuais que se tivessem submetido a uma CRS. Com a presente sentença, a situação vai-se alterar. O juiz encarregado do caso considerou que submeter a substituição de nome e género a uma intervenção cirúrgica implicava uma séria incongruência e uma visão reducionista, entendendo que se equiparava o sexo ao género unicamente pelas suas exteriorizações em detrimento da identidade pessoal. A advogada Verónica Luna, irmã de Tania, foi essencial para o sucesso da acção.

A sentença data de 2008 mas só agora foi entregue o novo BI.

Para Tania, a identidade de género não é algo ligado ao sexo físico. “Agora o meu BI vai coincidir com a minha aparência e com a minha situação de transexual que é a condição a que pertenço e é muito simples: nascer de um sexo e pertencer-se psicologicamente ao outro. Queremos que seja um direito, já que é uma necessidade.”, afirmou, acrescentando, “pensei em operar-me, mas há três anos dei-me conta de que não era necessário. Um dia parei frente ao espelho e senti-me completa. A minha única cirurgia foi o busto que fiz aos 21 anos.”

A CHA tem registados uns 15 pedidos judiciais para alteração de identidade na capital, havendo outros apresentados noutros pontos do país.

Em Santiago del Estero, por exemplo, Luísa Paz, de 47 anos de idade, dirigente provincial da ATT e colaboradora permanente do INADI, requereu também a alteração de nome e género sem se submeter a uma CRS. “É uma luta de muitos anos e uma situação muito difícil e especial”, alegou, “de cada vez que digo o meu nome e no BI aparece outro.”

“Sabemos que é um processo longo que iniciamos, mas esperamos obter uma resposta favorável da justiça.” finalizou, acompanhada da sua advogada Teresa Roldàn. Acrescentou Luísa que “tenho 47 anos e chamo-me Luísa desde os 16, mas o pedido vai mais além do nome, tem a ver com o reconhecimento do meu género como feminino.”

Marcela Romero, presidente da ATTA (Asociación Travestis Transexuales y Transgéneros de la Argentina) demorou uma década a conseguir mudar os documentos.

Nos últimos dias conheceu-se um caso similar mas com desfecho ainda incerto, protagonizado pela actriz Florencia de la V, que se passaria a chamar Florencia Trinidad graças a uma decisão judicial.

in PortugalGay.PT
http://portugalgay.pt/news/Y131210A/argentina:_casos_de_identidade_de_genero

sábado, 27 de novembro de 2010

Transfobia na Ucrânia

severance
TDOR marcado por transfobia

Em Kiev, na Ucrânia, no passados dia 20 de  Novembro, no Transgender Day of Remembrance (TDOR - dia de homenagem a quem foi morto devido à transfobia), desconhecidos atacaram a reunião pacífica organizada pela ONG "Insight" e Visual Culture Center - "Response to violence against transgender people" (Resposta à violência contra pessoas transexuais e transgénero).

A organização tinha organizado uma projecção do filme "Boys Don't Cry", seguido de debate e de uma pequena vigília com velas.

Cerca de dez homens mascarados invadiram o Visual Culture Center enquanto o filme estava a ser exibido. Obviamente, os atacantes tinham planeado invadir a sala, onde se encontravam mais de trinta espectadores, e atacá-los com gás lacrimogéneo. No entanto, devido à rápida reacção dos organizadores e ativistas, os atacantes foram detidos na entrada e mantidos fora da sala.

Um dos organizadores e coordenador da parte transgénero da ONG "Insight", Timur Lysenko, que foi o primeiro a confrontar os bandidos bloqueando-lhes o acesso à sala, foi espancado. Ele e a sua colega Anastasia Medco da ONG "Fulcrum", que também resistiu, foram fortemente envenenados pelo gás lacrimogéneo. Os agressores, entretanto, fugiram do local.

Timur foi diagnosticado com lesões internas e queimaduras químicas faciais. Todos os espectadores presentes na sala durante o ataque sofreram efeitos do gás lacrimogéneo.

Quando a polícia chegou classificou o ataque como "vandalismo". No entanto, a táctica dos atacantes indica claramente pré-planeamento e intenção: os atacantes usavam máscaras, tinham armas, as suas acções foram coerentes e deliberadas, e fugiram do local todos ao mesmo tempo. O evento dedicado ao Transgender Day of Remembrance foi anunciado antecipadamente, o que permitia planear e organizar o ataque. A acção terá sido feita por transfobia. (...)

Até ao momento várias queixas foram apresentados à polícia pelos participantes lesados no evento. Os organizadores insistem que as autoridades reconheçam o ataque como crime de ódio.
 
In PortugalGay.pt
http://portugalgay.pt/news/Y221110A/ucrania:_tdor_marcado_por_transfobia

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

O fenómeno transgender

O nosso moderador, pediu-me que trouxesse ao Blog, algum texto que nos ajudasse a reflectir o fenómeno da transexualidade. Encontrei um texto brilhante do Prof. Allen Gomes, que nos ajuda a reflectir esta e outras formas de ser homem e mulher...partilho convosco:

"A nossa sociedade, desde sempre, encarou o sexo, ou o género, de uma forma fortemente bipolarizada e esteriotipada: masculino e feminino.
Na sua forma típica – palavra que me parece menos má do que normal – cada sexo sentia-se identificado com o seu corpo (identidade de género), exibia um comportamento social de acordo como o que cada sociedade, em cada momento, prescreve para cada sexo (papel de género) e orientava-se – em termos de atracção erótica – para o outro sexo (orientação sexual). Em termos simples: homem heterossexual com uma identidade e papel de género masculino e mulher heterossexual com uma identidade e papel de género feminino. Este seria o melhor dos mundos- o admirável mundo velho!

Só que, um número significativo de pessoas, não se consegue encaixar nesta polaridade tão redutora e apresenta vivências ou comportamentos típicos do outro sexo, numa ou mais das suas características. Na terminologia médico-psicológica estas pessoas apresentam transposições de género, situações consideradas de carácter patológico e, portanto, enquadradas nas respectivas classificações clínicas, enquanto no léxico delas próprias se designam por transgender, não se consideram como doentes, mas como tendo um estilo de vida alternativo (...). De acordo com a tipicidade dos elementos definidores do sexo, descreveram-se à partida três grandes transposições do género: a homossexualidade – identidade e papel de género típicos, com orientação sexual atípica; travestismo – identidade de género e orientação sexual típicas e papel de género atípico; transexualismo – identidade, papel e orientação sexual atípicos.

Temos assim, três grandes categorias, aparentemente bem definidas... contudo, a diversidade do comportamento sexual não se esgota em categorias tão rígidas. A orientação sexual é muito mais complexa que a simples polarização heterossexual/homossexual. Ela é um contínuo entre dois extremos – o heterossexual e o homossexual exclusivos. Entre estes pólos, encontra-se uma imensa variedade de comportamentos em que, em maior ou menor grau, se encontram pessoas com vivencias de dupla atracção, cuja frequência e predominância apresenta importantes nuances ao longo da vida. Assim, ao nível da orientação sexual, construiu-se uma nova categoria – bissexualidade –que em si só também não dá para compreender a pessoa, que de facto é susceptível a fenómenos de dupla atracção. Por outro lado, com o passar do tempo, foi-se constatando que não havia critérios científicos para considerar o comportamento homossexual como patológico, pelo que, desde há mais de trinta anos, a homossexualidade foi retirada das grandes classificações internacionais de doença (...). O transexualismo mantém-se como a categoria mais estável. Cientificamente, define-se como todo o indivíduo que deseja viver e ser aceite como membro do outro sexo, sentindo-se altamente desconfortável com o seu sexo anatómico e procurando, afincadamente, tratamentos hormonais, cosméticos e cirurgicos que tornem o seu corpo o mais congruente possível com a sua vivência psicológica. Uma alma de mulher aprisionada num corpo de homem – transexual masculino, ou uma alma de homem aprisionada num corpo de mulher – transexual feminino, constitui ainda a definição mais compreensiva destas pessoas.

Neste contexto classificativo, onde se enquadram os indivíduos do sexo masculino que se vestem de mulheres e se comportam como tal de uma forma permanente, que tomam hormonas femininas, que utilizam silicone para tornar as suas formas mais femininas mas que não se submetem a cirurgias que modifiquem os seus orgãos genitais? A resposta, é que pura e simplesmente, não se enquadram nas classificações existentes! Daí que, o nome mais adequado para eles, seja o que as comunidades gay e transgender utilizam – as drag queens. Como se vê, não são nem travestis, nem transsexuais. A imagem que melhor os caracteriza será o de uma “mulher com pénis” (...).

Como se vê, a diversidade humana a nível de género é tão vasta como a qualquer outro nível. No aspecto científico, classificar as variações de género em categorias rígidas, não só não resolve o problema da compreensão do fenómeno transgender – que abrange todas as identidades sexuais que culturalmente transgridem os chamados papéis masculinos e femininos – como se pode revestir de alguns perigos. A construção, nestas situações, de categorias clínicas bem delimitadas, pode obrigar técnicos de saúde e leigos a fazer com que as pessoas se encaixem, forçadamente, nelas, correndo o risco de se adoptarem procedimentos radicais – nomeadamente cirurgicos – que, no futuro, se revelem insatisfatórios para as pessoas a que foram aplicados.

A título de ilustração, gostaria de terminar este artigo, com uma citação de um site da internet – FTM (female-to-male)International: 'nós situamo-nos em vários pontos do continuum transgender-transexualism. Muitos de nós, fizemos a transição através de auto-exploração com colegas ou conselheiros. Muitos tentaram a transição física tomando hormonas para produzir caracteres sexuais secundários, como voz grave e barba, ou submeteram-se a cirurgias – tais como mastectomia bilateral, para criar um torso masculino e faloplastia, para construir genitais masculinos. Outros, embora partilhando uma identidade de género masculino, decidiram que as hormonas/cirurgias não seriam necessárias para demonstrarem a sua masculinidade. Outros, ainda, expressam a sua identidade masculina, exclusivamente, através da forma como se vestem e se comportam socialmente...'"

In Paixão, amor e sexo de Francisco Allen Gomes (páginas 127-132), Publicações Dom Quixote

Porque estou aqui

Sinto-me privilegiado por ter encontrado na Igreja um lugar vazio, feito à minha medida. É certo que tê-lo encontrado (ou encontrá-lo renovadamente, pois não é dado adquirido) foi também mérito da minha sede, do meu empenho, de não baixar os braços e achar, passivamente, que não seria possível. Passo a contextualizar: a comunidade onde vou à missa é pequena e acolhedora, e podia bem não o ser. Ao mesmo tempo, sentia um desejo grande de reflexão de vida cristã e encontrei um casal (heterosexual) que tinha a mesma vontade. Começámo-nos a reunir semanalmente numa pequena comunidade de oração e reflexão que, apesar de crítica, nos tem ajudado a sermos Igreja e a nela nos revermos. Paralelamente, face ao contínuo desencanto em relação a algumas posturas e pontos de vista de uma Igreja mais institucional e hierárquica, tive a graça de encontrar um grupo de cristãos homossexuais, que se reuniam com um padre regularmente, sem terem de se esconder ou de ocultar parte de si.

Sei que muitos cristãos homossexuais nunca pensaram sequer na eventualidade de existirem grupos cristãos em que se pudessem apresentar inteiros, quanto mais pensarem poder tomar parte e pôr em comum fé, questões, procuras, afectos e vidas.

Por tudo isto me sinto grato a Deus e me sinto responsável para tentar chegar a quem não teve, até agora, uma experiência tão feliz como a minha.

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As imagens que ilustram as mensagens são retiradas da Internet. Quando se conhece a sua autoria, esta é referida. Quando não se conhece não aparece nenhuma referência. Caso detectem alguma fotografia não identificada e conheçam a sua autoria, pedimos que nos informem da mesma.

As imagens são ilustrativas e não são sempre directamente associáveis ao conteúdo da mensagem. É uma escolha pessoal do autor do blogue. Há um critério de estética e de temática ligado ao teor do blogue. Espero, por isso, que nenhum leitor se sinta ofendido com as associações livres entre imagem e conteúdo.

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