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A diversidade na Igreja

"A casa do meu Pai tem muitas moradas", diz-nos Jesus no evangelho.

A unidade na diversidade não é sempre aparente na Igreja enquanto povo de Deus, mas é uma realidade em Deus e uma presença na fé cristã desde a sua origem. A Palavra de Deus não é partidária, elitista e exclusiva. O Reino de Deus é como uma árvore que estende os ramos para dar abrigo a todos os pássaros do céu. Cristo não morreu na cruz para salvar uma mão cheia de cristãos. Até o Deus Uno encerra em si o mistério de uma Trindade.

A Palavra de Deus é inequívoca e só pode levar à desinstalação, à abertura ao outro, e a recebê-lo e amá-lo enquanto irmão ou irmã. Ninguém fica de fora, nem mesmo - se tivessemos - os inimigos.

Muitos cristãos crêem nesta Igreja, nesta casa do Pai, corpo de Cristo, templo do Espírito Santo. Mas como esquecer que muitos se sentem "de fora" por se verem rejeitados, amputados e anulados, e afastam-se por ninguém lhes ter mostrado que há um lugar para cada um, com a totalidade do seu ser?

Um blogue para cristãos homossexuais que não desistiram de ser Igreja

Porquê este blogue?

Este blogue é a partilha de uma vida de fé e é uma porta aberta para quem nela quiser entrar. É um convite para que não desistas: há homossexuais cristãos que não querem recusar nem a sua fé nem a sua sexualidade. É uma confirmação, por experiência vivida, que há um lugar para ti na Igreja. Aceita o desafio de o encontrares!

Este blogue também é teu, e de quem conheças que possa viver na carne sentimentos contraditórios de questões ligadas à fé e à orientação sexual. És benvindo se, mesmo não sendo o teu caso, conheces alguém que viva esta situação ou és um cristão que deseja uma Igreja mais acolhedora onde caiba a reflexão sobre esta e outras realidades.

Partilha, pergunta, propõe: este blogue existe para dar voz a quem normalmente está invisível ou mudo na Igreja, para quem se sente só, diferente e excluído. Este blogue não pretende mudar as mentalidades e as tradições com grande aparato, mas já não seria pouco se pudesse revelar um pouco do insondável Amor de Deus ou se ajudasse alguém a reconciliar-se consigo em Deus.
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quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

O cristianismo e a Alegria

Rafael Cardoso
O cristianismo ou causa alegria, ou não é cristianismo

«Um cristão é um homem e uma mulher de alegria, um homem e uma mulher com alegria no coração. Não existe um cristão sem alegria», frisou hoje o papa, na missa a que presidiu, no Vaticano.

Aqueles a quem a alegria lhes é estranha «não são cristãos», reiterou Francisco, citado pela Rádio Vaticano, acrescentando: «Dizem sê-lo mas não o são. Falta-lhes qualquer coisa».

«O bilhete de identidade do cristão é a alegria, a alegria do Evangelho, a alegria de ter sido eleito por Jesus, salvo por Jesus, regenerado por Jesus; a alegria daquela esperança que Jesus nos antecipa, a alegria que, mesmo nas cruzes e nos sofrimentos desta vida, se exprime de outra maneira, que é a paz na segurança que Jesus nos acompanha, está connosco», afirmou.

«Quando nas nossas paróquias, nas nossas comunidades, nas nossas instituições, encontramos pessoas que se dizem cristãs e querem ser cristãs mas estão tristes, alguma coisa não está bem», acentuou.

Francisco também meditou sobre o trecho do Evangelho proclamado nas missas desta segunda-feira (Marcos 10, 17-27), em que um homem pergunta a Jesus o que é preciso para alcançar a vida eterna, obtendo como resposta a necessidade de dar todo o dinheiro aos pobres, escolha que o entristece e o leva a afastar-se.

Para o papa, o homem rico «não foi capaz de abrir o coração à alegria e escolheu a tristeza»: «Estava amarrado aos bens. Jesus tinha-nos dito que não se podem servir dois senhores: ou serves Deus ou serves as riquezas. As riquezas não são más em si mesmas; o que é mau é servir a riqueza».

«A admiração da alegria, o ser-se salvo de viver amarrado a outras coisas, às mundanidades – as muitas mundanidades que nos afastam de Jesus –, apenas se pode com a força de Deus», assinalou.

A homilia terminou com uma oração: «Peçamos hoje a Deus que nos dê a admiração diante dele, diante das muitas riquezas espirituais que nos deu; e com este espanto nos dê a alegria, a alegria da nossa vida e de viver em paz no coração as muitas dificuldades».

«Que Deus nos proteja de procurar a felicidade em tantas coisas que ao fim nos entristecem: prometem muito mas não nos darão nada. Recordai-vos bem: um cristão é um homem e uma mulher de alegria, de alegria no Senhor; um homem e uma mulher de admiração», concluiu Francisco. "

Por Rui Jorge Martins para SNPC

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Carta de Rosa Luxemburgo

Uma alegria interior e um olhar de compaixão

"Um dos textos mais comoventes que conheço é uma carta de Rosa Luxemburgo escrita a uma amiga a partir da prisão feminina de Breslavia, na Polónia, por ocasião do Natal, poucos meses antes da sua execução.

Era o último vislumbre daquele paradoxal ano de 1917, e poucos se arriscavam a dizer com certeza para que destino o mundo estava a ser arrastado. O texto de Rosa Luxemburgo confirma um compromisso explícito naquele contexto histórico e toma a defesa da revolução então em curso na Rússia, em oposição à perspetiva dos «correspondentes dos jornais burgueses» que descreviam a nova situação como um desencadeamento insano. Esta é, seguramente, a parte mais datada, parcial e envelhecida da carta. Rosa sabe ser profética quanto à Alemanha, entrevendo a possibilidade de um “pogrom”, mas não o é da mesma maneira em relação à Rússia.

Na verdade, o que faz da sua carta um «documento de humanidade e poesia», para citar Karl Kraus, que deveria ser ensinado «às gerações futuras», são as duas partes seguintes. Era o terceiro Natal que a filósofa e sindicalista passava na prisão. Procura uma árvore de Natal para si, mas não consegue encontrar melhor do que um arbusto mísero e despido, que ainda assim transporta para a própria cela. E isto leva-a a interrogar-se sobre a «alegre embriaguez» que conseguia conservar naquele inferno, naquela irredutível espécie de confiança que nela persistia, a despeito do desconforto e da desolação.

Escreve naquela noite: «Aqui estou eu, deitada, só, em silêncio, envolvida nestes múltiplos e negros lençóis das trevas, do tédio, da prisão invernal – e entretanto o meu coração bate de uma alegria interior incompreensível e desconhecida, como se estivesse a caminhar ao sol radioso sobre um prado florido. (…) Nestes momentos penso em vós e gostaria muito de vos transmitir esta chave mágica e alegre da vida». E quando se pergunta mais profundamente sobre o porquê de tanta «felicidade», declara: «Não encontro nada e não posso impedir-me de sorrir novamente de mim. Creio que este segredo não é outro senão o da própria vida».

A última parte da carta não é menos inesquecível. Rosa Luxemburgo assiste à chegada de vagões cheios de pesados sacos de roupa militar, que os prisioneiros deverão remendar. São puxados por búfalos capturados na Roménia e exibidos como troféus. Pela primeira vez, atenta na indizível dor dos animais. É um choque e uma revelação. Quando se arrisca a pedir «um pouco de compaixão por aquelas criaturas extenuadas, o carreteiro responde-lhe violentamente: «E de nós, quem tem piedade?» E diante dela recomeça a bater com força nos búfalos.

O olhar de Rosa Luxemburgo fixa-se então sobre um deles. O animal deitava sangue mas permanecia imóvel, com os olhos mais dóceis que ela alguma vez tinha visto. Naqueles olhos entrevê uma impotência semelhante à de uma criança que tivesse chorado durante muito tempo sem ter sido escutada. «Era exatamente a expressão de uma criança que acaba de ser duramente castigada e não sabe por que motivo nem para quê, que não sabe como escapar do sofrimento e da força bruta… Eu estava diante dele, o animal olhava-me, as lágrimas caiam dos meus olhos, eram as suas lágrimas. Diante da dor de um irmão querido é impossível não ser sacudido pela mais dolorosa amargura como eu estava na minha impotência diante deste mudo sofrimento».

Da empatia que ligava naquele momento uma mulher a um anónimo animal ferido nascia uma nova forma de resistência à brutalidade e à barbárie. «Diante dos meus olhos vi passar a guerra ao estado puro»: Rosa Luxemburgo compreende que uma comunhão entre os seres humanos e as outras criaturas não é só possível. É urgente e necessária."

José Tolentino Mendonça In "Avvenire"
Tradução de Rui Jorge Martins para SNPC, publicado a 10 de dezembro de 2015

domingo, 3 de dezembro de 2017

Alegria e Natal

George Platt Lynes, 1934
A alegria do Natal

«O anjo disse-lhes: “Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo: Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor» (Lucas 2, 10-11)
É preciso falar alegremente da alegria, cantá-la como os anjos, na noite do nascimento de Jesus. Dado que não tenho a voz de um anjo, recolhamos ao menos a sua mensagem no nosso coração, à imagem de Maria silenciosa. É uma boa nova que cantam os anjos, uma grande alegria para todo o povo, para todas as pessoas. Acabou o tempo do medo, vivemos sem temor. Chegaram os tempos messiânicos. Aquele que devia vir está no meio de nós. Ele vem para nos salvar do pecado, do mal e da morte. Ele traz a redenção e o perdão. Ele oferece-nos o amor gratuito de Deus e a vida eterna. Ele dá-nos a sua alegria, alegria alicerçada na fonte inesgotável do dom infinito do Pai. «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens do seu agrado.» (Lucas 2, 14).

Sinal de uma vida que se expande, a alegria era considerada no Antigo Testamento como manifestação do tempo da salvação e da paz dos últimos tempos.

No Novo Testamento, João Batista terá sido dos primeiros a senti-la: Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, já grávida de Jesus, «o menino saltou-lhe de alegria no seio» (Lucas 1, 41).

Já depois do nascimento de Jesus, os magos, «ao ver a estrela, sentiram imensa alegria», conta o evangelho segundo Mateus a propósito do astro que lhes indicou o lugar onde Maria tinha dado à luz.

«Manifestei-vos estas coisas, para que esteja em vós a minha alegria, e a vossa alegria seja completa», disse Jesus aos discípulos (João 15,11). Alegria de comunhão, de amizade, alegria por partilhar a sua vida de ressuscitado, mesmo se essa vida é acompanhada pela aflição: «Vós haveis de estar tristes, mas a vossa tristeza há de converter-se em alegria! … O vosso coração há de alegrar-se e ninguém vos poderá tirar a vossa alegria» (João 16, 20-22).

E os nossos corações? Estão plenamente felizes? Não haverá um fundo de tristeza? Porquê? O Natal traz-nos alegrias, é certo, mas a alegria, será que a conhecemos? Ó homens de pouca fé!

Ficamos demasiado presos aos nossos medos, à nossa autossuficiência, à nossa independência, ao nosso orgulho, às nossas riquezas de pacotilha, em suma a nós mesmos, para ter a audácia da alegria espiritual e nos deixarmos dilatar à medida do dom de Deus. A alegria dilata, a tristeza aprisiona. Para se ser alegre é preciso um certo esquecimento de si, uma perda de si no maravilhamento.

É por isso que a alegria do adulto é muitas vezes pouco natural, enquanto que a da criança é total. Aos poucos o adulto coloca a sua alegria no ter, por vezes muito material. Mas possuir é mais da ordem do prazer; no receber e no dar é que está a alegria. E a alegria é sempre um dom, ela traz sempre a marca da gratuidade, da festa. O adulto não sabe muitas veses receber gratuitamente, com toda a simplicidade, na pobreza cheia do não-ter que, só ela, dá acesso aos verdadeiros bens. Na nossa sociedade de consumo ambiciona-se poder comprar tudo, ter tudo. Mas não se compram senão coisas. Perseguem-se e acumulam-se. Possui-se muito mas não é nelas que se acha a alegria. Nelas só se encontra o prazer insaciável e, no limite, o aborrecimento. A alegria, ao contrário, é filha da pobreza, da gratuidade, da ousadia da vida que vive e ri em nós.

O contemplativo deve ter algo desta sabedoria da criança, da sua aptidão ao dom, ao abandono. Muitos parecem crer que só as pessoas “sérias” são sérias: a sabedoria deve obrigatoriamente manifestar uma atitude solene e um rosto franzido. O homem de negócios do “Princípezinho” está demasiado ocupado a contar e a “possuir” as estrelas para ver a sua beleza e abrir-se ao seu canto. Sejamos simples, não tenhamos medo de ser alegres.

Tendo perdido a espontaneidade da simplicidade, iremos procurá-la com o peso da razão?

A alegria de Maria

Entremos na escola de Maria para aprender a alegria. Temos muito poucas palavras dela e as que temos são de uma grande densidade por serem portadoras de um imenso peso de silêncio. Há o “fiat”, o sim pelo qual Maria consente livremente no dom de Deus, no dom que Deus lhe faz de si mesmo, à ação misteriosa do Espírito Santo pelo qual Jesus é nela concebido. E Jesus é concebido na alegria. O coração de Maria está repleto de alegria, da alegria de um pobre que soube acolher a vida:

«A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador» (Lucas 1, 46-47).

Alegria cuja partilha desperta a alegria no coração de Isabel. O bebé no seio da sua mãe alimenta-se da sua substância, constrói-se a partir do que ela é. Tudo acontece no silêncio de uma simbiose intensa entre duas pessoas. Maria está só com o seu bebé oculto; para o bebé, o seu universo é o seio de Maria.

Depois é chegado o tempo em que o Menino sai para entrar no mundo dos homens. É quando acontece a primeira separação que lhe vai permitir ser Ele que está entre nós, para nós. A alegria de Maria é dar Jesus ao mundo. O seu coração está cheio de uma alegria que em nada diminui a pobreza do seu nascimento, num estábulo, recebida entre os animais, nenhum lugar entre os homens havia para eles.

Mas o bebé é rei, rei pobre, duas vezes rei. Os anjos cantam o seu deslumbramento, anunciam a alegria da sua vinda àqueles que estão mais preparados para o receber: os pobres, os pastores e os que o procuram pelos caminhos da sabedoria humana, os magos.

Não sabemos de nenhuma palavra de Maria. Ela permanece silenciosa, ocupada a proteger este pequeno corpo tão vulnerável, a embrulhá-lo em panos e a deitá-lo na manjedoura. Ela é mãe, deve ater-se às obrigações da maternidade, ao mesmo tempo que permanece unida ao seu filho no seu coração. Mas agora há um face a face, duas pessoas entreolham-se, o amor torna-se mais pessoal, amor de amizade; em breve o sorriso do bebé responderá ao seu.

Mas Maria nunca diz nada. Ela deixa os pastores e os magos prestarem a sua homenagem diante do seu filho. São os anjos que cantam a sua glória. Ela, ela conserva todas estas coisas, guarda-as no seu coração.

Quem era este ser dela nascido? O seu coração sabe mais do que a inteligência pode dizer. Ela não é a Palavra mas a sua serva. O seu silêncio fala por ela, diz do seu amor.

Será assim toda a sua vida. Durante os longos anos tranquilos de Nazaré, a sua alegria é a intimidade constante com Jesus, a vida partilhada com este rapaz que cresce diante dos seus olhos. É o seu filho, e no entanto, um dia, mal tinha feito doze anos, ele diz: «Não sabíeis que devia estar em casa de meu Pai?» (Lucas 2, 49). Jesus regressou a Nazaré, a vida continuou mas nunca mais foi a mesma. A marca do Pai estava sobre ele; à alegria da sua intimidade acrescenta-se uma nota grave, de respeito, perante o mistério do seu ser.

Numa dialética de intimidade e separação, pouco a pouco Jesus revela-se à sua mãe – como aos seus discípulos, como a nós. De cada vez há um aprofundamento. Até que um dia ele irá radicalmente relegar para segundo plano os laços de sangue que os uniam: «Aquele que fizer a vontade de Deus, esse é que é meu irmão, minha irmã e minha mãe» (Marcos 3,35).

É sobre a rocha da vontade de Deus que a relação entre ambos deve fundar-se e fortalecer-se a partir daí, ao ponto que seja aceite a separação final de uma morte brutal. Onde está agora a tua alegria, Maria? Ela está sempre lá, onde se renova o sim do teu amor e da tua fé, no silêncio, numa solidão terrível. Nunca foste tão mulher como agora. E assim tu te tornas mãe do Corpo de Cristo, de todos nós. Alegria grave de um amor que dá mais do que si mesmo.

O amor é mais forte do que a morte, a alegria mais forte do que a tristeza. A luz da ressurreição vai inundar o espaço da sua fé e enchê-la de uma alegria que não terá fim. A assunção ao céu é a manifestação da plenitude desta alegria que impregna todo o seu ser, incluindo o seu corpo.

Maria não deixou uma palavra sobre Jesus, uma teologia, um discurso. A sua vida é a sua palavra, o seu amor, o seu conhecimento, o seu dom total à vontade de Deus e à ação oculta do Espírito nela, a sua pobreza, a transparência da sua pureza.

Essa alegria é o Cristo nela, é o Cristo em nós. Desejo-a a todos de todo o meu coração.

Nós somos responsáveis pela nossa alegria.

Monge Cartuxo In "Vivre dans l'intimité du Christ"
Tradução de Rui Jorge Martins publicada pelo SNPC a 24 de dezembro de 2014

sábado, 18 de janeiro de 2014

A vocação da Igreja

"Igreja, torna-te naquilo que és, no mais profundo de ti mesma: terra dos vivos, terra de reconciliação, terra de simplicidade.

Igreja, "terra dos vivos", responde à nossa espera.

Abre as portas da esperança: ela brilhará como um sol de verão. Abre bem as portas da confiança: ela vencerá a dúvida, a desconfiança e a vergonha de existir. Escancara as portas da alegria e a oração comunitária será celebração de uma festa sem fim. (...)

Igreja, sê terra de reconciliação.

Não deixarás mais, nunca mais, Cristo dilacerado, jazendo à beira da estrada. Então a divisão dos cristãos, em diferentes confissões, já não será tolerável. (...) A reconciliação visível entre os cristãos não admite mais adiamento. Reconciliar-se, não para ser mais fortes contra quem quer que seja, mas essencialmente para ser fermento de paz e de confiança entre todas as nações do mundo. (...)

Igreja, sê terra de simplicidade.

É preciso tão pouco para acolher. Os meios muito simples revigoram uma comunhão. Os meios fortes assustam e dilaceram a universalidade do apelo de Cristo... Se, mais do que nunca, organismos e administrações da Igreja deixassem o seu ministério ser transfigurado pelo fogo irreprimível de um coração pastoral… Longe de acumular, ousa partilhar. A Fé, a confiança em Deus, pressupõe correr riscos. (...)

Igreja, sê terra de partilha para seres também terra de paz."

Irmão Roger de Taizé
in Les sources de Taizé - Dieu nous veut heureux

sábado, 2 de novembro de 2013

Uma profunda alegria

O louvor de Deus

«Nós, cristãos, não estamos muito habituados a falar de alegria», disse Francisco na missa a que presidiu no Vaticano (…). Depois de apontar que «muitas vezes» os cristãos têm mais gosto no lamento do que no contentamento, o papa salientou que «sem alegria» os crentes não podem ser «livres» (…).

O papa Paulo VI sublinhava que «não se pode levar adiante o Evangelho com cristãos tristes, abatidos» e «desencorajados», recordou Francisco. «Muitas vezes os cristãos têm mais cara de que estão num cortejo fúnebre do que estão a louvar a Deus», assinalou. O louvor a Deus, prosseguiu Francisco, concretiza-se «saindo de si próprio», «gratuitamente», como é gratuita a graça divina. (…)

As palavras de Francisco foram proferidas no dia em que os católicos evocam a visitação da Virgem Maria, grávida de Jesus, a Isabel, que apesar de idosa também se preparava para dar à luz João Batista. No evangelho das missas do último dia de maio é proclamado o Magnificat, canto de ação de graças a Deus pronunciado por Maria, figura que para o papa constitui modelo de louvor para a Igreja.

Rui Jorge Martins
in SNPC a 31.05.13

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Cultivar o diálogo e beber da fonte da alegria

O Papa no Rio
parte 5

É preciso conversar

«A única maneira para uma pessoa, uma família, uma sociedade crescer, a única maneira para fazer avançar a vida dos povos é a cultura do encontro; uma cultura segundo a qual todos têm algo de bom para dar, e todos podem receber em troca algo de bom. O outro tem sempre algo para nos dar, desde que saibamos nos aproximar dele com uma atitude aberta e disponível, sem preconceitos. Esta atitude aberta, disponível e sem preconceitos, eu a definiria como «humildade social» que é o que favorece o diálogo. Só assim pode crescer o bom entendimento entre as culturas e as religiões, a estima de umas pelas outras livre de suposições gratuitas e num clima de respeito pelos direitos de cada uma. Hoje, ou se aposta no diálogo, na cultura do encontro, ou todos perdemos. Todos perdemos… Passa por aqui o caminho fecundo.» (Encontro com a classe dirigente do Brasil)

A fé que nos anima

A vida cristã, o serviço aos pobres, a missão, tudo isso não é nada se os crentes não são capazes de testemunhar concretamente, no quotidiano, sobre o seu próprio rosto, a fé e a esperança que os anima. Habituado a usar expressões com impacto («por vezes, vemos cristãos melancólicos que parecem "pimenta com vinagre"), Francisco acrescentou mais algumas pedras à sua pastoral da alegria.

«O cristão é alegre, nunca está triste. Deus acompanha-nos. Temos uma Mãe que sempre intercede pela vida dos seus filhos, por nós, como a rainha Ester na primeira leitura (cf. Est 5, 3). Jesus mostrou-nos que a face de Deus é a de um Pai que nos ama. O pecado e a morte foram derrotados. O cristão não pode ser pessimista! Não pode ter uma cara de quem parece num constante estado de luto. Se estivermos verdadeiramente enamorados de Cristo e sentirmos o quanto Ele nos ama, o nosso coração se “incendiará” de tal alegria que contagiará quem estiver ao nosso lado.» (Homilia no santuário de Aparecida)

«Vocês sabem que na vida de um bispo já muitos problemas que pedem para ser solucionados. E com estes problemas e dificuldades, a fé do bispo pode entristecer-se. Que feio é um bispo triste. Que feio que é. Para que a minha fé não seja triste, vim aqui para contagiar-me com o vosso entusiasmo.» (Homilia na missa de acolhimento)

ler mais em:
SNPC
neste blogue:
parte 1
parte 2
parte 3
parte 4

sábado, 19 de outubro de 2013

Não basta ser cristão do bem estar

in Revista Cult
Permiti-me publicar este artigo, tendo a certeza que ela não corresponde a uma imagem do fácil e do rápido e do fashionable; publico-a porque me faz pensar... e isso é bom!

reflexões do Papa Francisco



"O papa Francisco afirmou esta sexta-feira no Vaticano que a prova para cada pessoa saber se se é cristão está na capacidade de «suportar as humilhações com alegria e paciência».

Referindo-se ao apóstolo Pedro, que não queria acreditar que Jesus fosse humilhado e morto, o papa afirmou que a mesma atitude ocorre entre os católicos quando estão dispostos apenas a seguir Cristo «até um certo ponto».

«É esta a tentação do bem-estar espiritual: Temos tudo: temos a igreja, temos Jesus Cristo, os sacramentos, a Virgem Maria, tudo, um belo trabalho para o Reino de Deus; somos bons, todos. (…) Mas não basta o bem-estar espiritual até certo ponto». (...) «Como aquele jovem que era rico: queria andar com Jesus, mas até um certo ponto. Falta esta última unção do cristão, para ser cristão verdadeiro: a unção da cruz, a unção da humilhação», apontou.

«Esta é a pedra angular, a verificação da nossa realidade cristã: sou um cristão de cultura e de bem-estar? Sou um cristão que acompanha o Senhor até à cruz? O sinal é a capacidade de suportar as humilhações».

Todos querem ressuscitar, mas «nem todos» tencionam alcançar esse objectivo pelo caminho da cruz, pelo que, ao lamentarem-se das afrontas que sofrem, comportam-se de maneira oposta ao que Cristo fez e pede para imitar, assinalou. «A verificação de se um cristão é um cristão verdadeiro é sua capacidade de suportar com alegria e com paciência as humilhações; e como isto é algo que não agrada…», disse.

Francisco sintetizou as suas palavras apontando para uma «escolha» pessoal: ou ser-se «cristão do bem-estar» ou «cristão próximo de Jesus, pela estrada de Jesus». "

por Rui Jorge Martins, in SNPC

segunda-feira, 13 de maio de 2013

As modestas alavancas de transformação

Precisamos é de bicicletas

Muitas vezes parecemos estar à espera de um qualquer sinal espetacular para tomar uma decisão de vida sempre adiada. E queixamo-nos de falta de meios para, então sim, levar a cabo aquela transformação necessária ou aquela viragem desejada ou, mais adiante ainda, aquela concretização que indefinidamente protelamos. Contudo, as verdadeiras transformações inventam os meios próprios para se expressarem, e estes, regra geral, começam por ser espantosamente modestos. Fernando Pessoa, com a caricatura dos que “conquistam o mundo sem levantar-se da cama”, refere, no fundo, uma doença interior infelizmente muito comum: idealizamos de tal maneira o que pode ser a vida que ela perde, depois, o jogo por falta de comparência, sequestrada num plano cada vez mais mental e abstrato. Se a vida não decorre como imaginamos, baixamos as persianas e preferimos não vivê-la. Ora, se não estamos dispostos a aprender com a sabedoria dos pequenos passos e com a dinâmica do provisório dificilmente alcançaremos o segredo da alegria.

Penso em dois grandes pulmões espirituais na Europa que nos está mais próxima: Taizé e Bose. Taizé é uma minúscula povoação que fica a 390 Kms a sudeste de Paris. Em 1940, era uma espécie de zona de demarcação entre a França ocupada pelas tropas alemãs e a França livre. Precisamente nesse ano chega a esse lugar um jovem teólogo suíço, Roger Schutz. Ele vinha buscando, dentro de si, qual seria a sua missão. E não tinha encontrado ainda respostas. O que é engraçado é que a primeira vez que ele chegou a Taizé, fê-lo de bicicleta (veio a pedalar desde Genebra). Poderia ser só um passeio ou uma fuga para lugar nenhum. Taizé não tinha nada, mas ele entendeu esse nada como uma oportunidade para “reparar” as feridas da humanidade. Dois anos depois é expulso dali, porque os alemães perceberam que ele auxiliava os judeus perseguidos. Mas em 1944 ele regressa, e traz já consigo um pequenino grupo de jovens da sua idade, movidos pelo ideal de construir e viver uma experiência monástica, na frugalidade, no silêncio, no louvor e no acolhimento. Hoje largos milhares de jovens caminham para Taizé como se buscassem uma fonte refrescante. E o testemunho do Irmão Roger tornou-se uma inspiração de que não precisamos de aviões a jato ou de veículos sofisticados para descobrir o mapa do coração. Basta-nos uma bicicleta, ou menos ainda.
Bose, por sua vez, fica no Norte da Itália, entre Turim e Milão, no território montanhoso de Biella. No ano de 1968, época de tantas mutações e reivindicações, há um jovem estudante de economia que decide começar uma experiência monástica num pequeno monte periférico. Àquela época não tinha eletricidade, nem água canalizada. Por mais de dez anos ele viveu nessa solidão, fiel à oração e ao trabalho manual. Ele conta, por exemplo, que durante o inverno uma das suas tarefas era não deixar apagar a lareira, que lhe servia para tudo: cozinha, iluminação, aquecimento. Hoje, com graça, ele conta que tudo o que sabe sobre Deus e sobre o amor ao mundo, o deve ao fogo (ou melhor, a essa vigilância ativa para não deixar se apagar o fogo). Muitas vezes achamos que precisamos de mais isto e aquilo, quando, no fundo, precisamos é de aprender a tornar fecundo o nosso ponto de partida (seja ele qual for).
José Tolentino Mendonça
In Diário de Notícias (Madeira)
publicado a 14 de Agosto de 2011 por SNPC

sexta-feira, 11 de março de 2011

O Entrudo na soleira das Cinzas: o Carnaval visto por um cristão

Carnaval e alegria cristã
O Carnaval já não é o que era mas continua a ser um tempo fundamental para escapar dos hábitos do dia-a-dia e congregar a população, superando as suas divisões, considera o ator católico Júlio Martín.

O Entrudo «já não tem aquela expressão tão forte como teve noutras alturas, em que era a única possibilidade ao longo do ano de transgredir, de sair de si e de fazer a festa, sobretudo na rua», referiu em declarações ao programa Ecclesia.

No entender do encenador, o Carnaval «é uma festa que celebra coletivamente um período de certa alegria, em que é possível alguma rutura, saindo da rotina do quotidiano», numa dinâmica «importante e estruturante» para a sociedade.

Para Júlio Martín, a alegria dos cristãos é fundamentada na esperança de que é possível «ir além do sofrimento e da realidade, imaginando e pensando outro mundo e fazendo tudo o que é possível para o construir».

O cristianismo, contudo, não vive só da confiança na vida eterna, já que os testemunhos relativos a Jesus transmitidos pelos evangelhos são «de alguém que estava no meio das pessoas e da festa», recorda o ator. «Acreditamos em algo que nos transcende mas também estamos aqui e agora e também acreditamos na vida antes da morte», sublinha o encenador, acrescentando que à semelhança de «Cristo pregado na cruz», os cristãos devem também estar «pregados» à sua realidade para a «transformar, iluminar e dar-lhe esperança e alegria».

O gosto de Júlio Martín pelo teatro começou a concretizar-se nas festas, especialmente no Carnaval, Natal e também nos dias do Pai e da Mãe, através de representações no grupo de jovens da paróquia de Algés, concelho de Oeiras. «Com estas pequenas celebrações fui descobrindo que contar histórias, transmitir esperança e alegria era algo que me agradava», explicou.

A origem dos festejos de Entrudo é pré-cristã, ligando-se posteriormente à Quaresma, que começa no dia a seguir à terça-feira de Carnaval, palavra que segundo algumas interpretações deriva da expressão latina ‘carne vale!’ (adeus, carne!), prenunciando a entrada num tempo marcado pelos apelos a uma prática mais intensa do jejum, esmola e oração.

Rui Martins
In Agência Ecclesia, publicado por SNPC

quarta-feira, 2 de março de 2011

A vocação da alegria

Procuras a alegria? Dá tudo o que tens!


(...) É a todos nós que experimentamos este desejo persistente [de algo mais - a esperança de que aquilo que ansiamos está ao alcance da mão, seguida do desapontamento e do regresso ao desejo inicial nunca satisfeito-] que Jesus estende o convite: “Vem comigo! Segue o meu caminho”. Muitos de nós estão prontos a dizer-lhe “sim”, mas subsistem algumas perguntas: Como é que eu O sigo? Qual é o seu caminho? Conhecemos a resposta genérica: “Ama a Deus de todo o teu coração e o próximo como a ti mesmo”. Mas como é que este preceito se torna concreto? Como é que podemos construir uma vida orientada em torno deste mandamento?

Começaremos por lembrar que o amor nunca é abstratoos bons sentimentos são simpáticos mas não são amor. O amor é sempre concreto. Damos o nosso amor e cuidado a uma pessoa específica, num determinado momento. Mais: amamos e cuidamos com o que temos e com o que somos, e não com o que outra pessoa tem ou é.

A concretização do amor a que somos individualmente chamados é definida pelos dons que Deus nos confiou. Por um lado, isto quer dizer que, provavelmente, os meus leitores não vão ser chamados a ser a Madre Teresa de Calcutá, e eu, definitivamente, não sou chamado a ser o organista da paróquia. Mas também significa que temos de nos esforçar arduamente para ver, nomear e desenvolver os nossos dons, a fim de os podermos partilhar com quem precisa do que temos para oferecer.

A intensa e ansiosa procura pela alegria, que todos nós tão bem conhecemos, nunca será plenamente satisfeita nesta vida. Mas se olharmos, identificarmos e desenvolvermos os nossos melhores dons e os dividirmos de coração aberto com todos os que deles necessitam, principiaremos a experimentar a alegria que sempre desejámos. Começaremos então a conhecer a paz para a qual fomos criados.
Mons. Dennis Clark

In Catholic Exchange
Trad. / adapt: Rui Martins, In SNPC

terça-feira, 2 de novembro de 2010

O evangelista do Amor

Na pequena comunidade de oração e reflexão com que me reuno semanalmente (que até há uns meses era apenas formada por mim e por um casal, e que desde então conta com mais um elemento) estamos a ler o evangelho de S. Lucas. Inicialmente achei-o duro, seco e demasiado teatral e pedagógico nalguns dos seus episódios, com uma linguagem que se adequava pouco às nossas (pre)ocupações do 3º milénio. Parecia povoada por exorcismos e com cenas desconexas tiradas de uma peça de teatro escolar.
Contudo não posso deixar passar em branco os hinos dos primeiros capítulos, a infância de Jesus e as parábolas que, à medida que vamos avançando, começam a ser mais fecundas, frequentes e ricas. E é por essa razão que partilho um texto publicado no site da Pastoral da Cultura sobre este Evangelho.

Lucas, o evangelista do amor, pobreza, oração, renúncia e alegria


Lucas é o Evangelho do amor. O livrinho de parábolas do capítulo 15, a célebre parábola do samaritano, o “discurso da planície” (6, 17-49), a atenção de Jesus pelos excluídos, a eleição dos pobres e dos oprimidos, a dádiva aos pecadores, a fidelidade à História são elementos que repropõem ao crente de hoje um empenho renovado de solidariedade, de amor e de justiça segundo as novas e actuais coordenadas históricas. O Evangelho de Lucas apresenta-se como um apelo a redescobrir a dimensão social da fé, sem que ela se esgote numa simples proposta política. A história humana é um espaço onde o cristão deve sujar as mãos para contribuir para a plena realização do homem amado por Deus.

Lucas é o Evangelho da pobreza. Os pobres são evangelizados (cf. 4, 18): os pastores, a viúva que dá tudo, os discípulos que devem deixar tudo, os miseráveis que Jesus encontra no seu caminho cão os cidadãos do Reino de Deus, enquanto que os ricos insensatos (12, 13-21), os fariseus «amantes do dinheiro» (cf. 16, 9.14), aqueles que estão saciados e levam uma vida despreocupada são expulsos e refutados por Cristo. O jovem rico, apesar dos seus dons humanos e religiosos, não serve a Jesus se não distribui aos pobres «tudo quanto possui» (18, 22); «como é difícil para os que têm riquezas entrar no Reino de Deus! Sim, é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus!» (18, 24-25). Contra a idolatria do consumismo e do bem-estar, Lucas celebra o afastamento e a doação, exaltando a escolha preferencial de Cristo e dos cristãos pelos pobres.

Lucas é o Evangelho da oração. Cristo é retratado como o perfeito orante que nos momentos decisivos da sua vida se confia ao diálogo íntimo com o Pai. Lucas é um verdadeiro “catecismo da oração”. Uma atenção particular merecem os hinos do Evangelho da infância, que entraram na liturgia cristã (“Magnificat”, “Benedictus”, “Gloria in excelsis”, Nunc dimittis”): o seu aprofundamento permitirá celebrá-los com mais intensidade e revelar-nos-á a sua riqueza, ao mesmo tempo que nos faz entrar em sintonia com a oração da comunidade cristã das origens.

Lucas é o Evangelho da renúncia. «Quem olha para trás, depois de deitar a mão ao arado, não é apto para o Reino de Deus» (9, 62). Para seguir Jesus é preciso decidir por uma escolha radical, é preciso libertar-se de todo o compromisso, sobretudo com o dinheiro. É um imperativo diário de distanciamento que exige «deixar tudo» (5, 11) e «tomar a sua cruz, dia após dia» (9, 23). Lucas lança-nos um convite permanente a libertarmo-nos da idolatria das coisas e do egoísmo para ser, como Jesus e com Jesus, em marcha para a cidade do nosso verdadeiro destino.

Lucas é o Evangelho da alegria. O evangelista utiliza cinco verbos para a exprimir a alegria em 27 passos do seu escrito. Cristo, com a sua vinda à trama quotidiana dos nossos dias e nas nossas obras, lança a semente da felicidade e da esperança messiânica, sobretudo no coração dos homens «perdidos reencontrados», como se comprova na parábola do capítulo 15 (cf. versículos 5.6.7.9.10.23.25.32). Com Lucas há, portanto, a recuperação da dimensão jubilosa do Reino e da experiência da fé. Alegria que se manifesta sobretudo quando um «irmão que era morto regressa à vida», quando um «irmão que estava perdido é reencontrado» (15,32).
D. Gianfranco Ravasi
Presidente do Pontifício Conselho da Cultura

In Il Vangelo di Luca
Trad.: rm
© SNPC (trad.)
18.10.10
http://www.snpcultura.org/pedras_angulares_sao_lucas.html

Porque estou aqui

Sinto-me privilegiado por ter encontrado na Igreja um lugar vazio, feito à minha medida. É certo que tê-lo encontrado (ou encontrá-lo renovadamente, pois não é dado adquirido) foi também mérito da minha sede, do meu empenho, de não baixar os braços e achar, passivamente, que não seria possível. Passo a contextualizar: a comunidade onde vou à missa é pequena e acolhedora, e podia bem não o ser. Ao mesmo tempo, sentia um desejo grande de reflexão de vida cristã e encontrei um casal (heterosexual) que tinha a mesma vontade. Começámo-nos a reunir semanalmente numa pequena comunidade de oração e reflexão que, apesar de crítica, nos tem ajudado a sermos Igreja e a nela nos revermos. Paralelamente, face ao contínuo desencanto em relação a algumas posturas e pontos de vista de uma Igreja mais institucional e hierárquica, tive a graça de encontrar um grupo de cristãos homossexuais, que se reuniam com um padre regularmente, sem terem de se esconder ou de ocultar parte de si.

Sei que muitos cristãos homossexuais nunca pensaram sequer na eventualidade de existirem grupos cristãos em que se pudessem apresentar inteiros, quanto mais pensarem poder tomar parte e pôr em comum fé, questões, procuras, afectos e vidas.

Por tudo isto me sinto grato a Deus e me sinto responsável para tentar chegar a quem não teve, até agora, uma experiência tão feliz como a minha.

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