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A diversidade na Igreja

"A casa do meu Pai tem muitas moradas", diz-nos Jesus no evangelho.

A unidade na diversidade não é sempre aparente na Igreja enquanto povo de Deus, mas é uma realidade em Deus e uma presença na fé cristã desde a sua origem. A Palavra de Deus não é partidária, elitista e exclusiva. O Reino de Deus é como uma árvore que estende os ramos para dar abrigo a todos os pássaros do céu. Cristo não morreu na cruz para salvar uma mão cheia de cristãos. Até o Deus Uno encerra em si o mistério de uma Trindade.

A Palavra de Deus é inequívoca e só pode levar à desinstalação, à abertura ao outro, e a recebê-lo e amá-lo enquanto irmão ou irmã. Ninguém fica de fora, nem mesmo - se tivessemos - os inimigos.

Muitos cristãos crêem nesta Igreja, nesta casa do Pai, corpo de Cristo, templo do Espírito Santo. Mas como esquecer que muitos se sentem "de fora" por se verem rejeitados, amputados e anulados, e afastam-se por ninguém lhes ter mostrado que há um lugar para cada um, com a totalidade do seu ser?

Um blogue para cristãos homossexuais que não desistiram de ser Igreja

Porquê este blogue?

Este blogue é a partilha de uma vida de fé e é uma porta aberta para quem nela quiser entrar. É um convite para que não desistas: há homossexuais cristãos que não querem recusar nem a sua fé nem a sua sexualidade. É uma confirmação, por experiência vivida, que há um lugar para ti na Igreja. Aceita o desafio de o encontrares!

Este blogue também é teu, e de quem conheças que possa viver na carne sentimentos contraditórios de questões ligadas à fé e à orientação sexual. És benvindo se, mesmo não sendo o teu caso, conheces alguém que viva esta situação ou és um cristão que deseja uma Igreja mais acolhedora onde caiba a reflexão sobre esta e outras realidades.

Partilha, pergunta, propõe: este blogue existe para dar voz a quem normalmente está invisível ou mudo na Igreja, para quem se sente só, diferente e excluído. Este blogue não pretende mudar as mentalidades e as tradições com grande aparato, mas já não seria pouco se pudesse revelar um pouco do insondável Amor de Deus ou se ajudasse alguém a reconciliar-se consigo em Deus.
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segunda-feira, 25 de março de 2019

Lançamento de livro de Jean Vanier em Portugal

Novo livro de Jean Vanier

É depois de amanhã, dia 27 de Março às 21h na Capela do Rato, o lançamento do livro de Jean Vanier "Verdadeiramente Humanos". Jean Vanier é um teólogo canadiano, autor de numerosos livros, e fundador da L'Arche, uma organização internacional dedicada à criação de desenvolvimento de lares, programas e redes de apoio a pessoas com deficiência mental. Haverá uma conversa por esta ocasião. Para mais informações clicar no link acima.

Morreu Manuel Graça Dias, um arquitecto que não tinha medo da cor

Aos 66 anos, morreu um arquitecto que marcou a década de 1990 da arquitectura portuguesa

Manuel Graça Dias é um nome bem conhecido para quem se interessa pela arquitectura. Trabalhou muito com o arquitecto Egas José Vieira no ateliê Contemporânea. Responsável pelo pavilhão de Portugal na expo de Sevilha em 1992, foi também da sua autoria a reconversão da torre da Galp criando a entrada Sul da expo' 98 em Lisboa. Outras das suas obras mais conhecidas são a sede da Ordem dos Arquitectos em Lisboa, os cinemas Monumental, o Teatro Azul em Almada... Outros projectos mais arrojados não escaparam da polémica, como o edifício Golfinho em Chaves ou projectos utópicos como o elevador para o Castelo de São Jorge em Lisboa - que nunca saiu do papel.  Foi professor universitário de muitas gerações de arquitectos e também ficou conhecido pelos programas na RTP 2 ou os livros que escreveu, com uma linguagem muito acessível ao grande público.

Proponho o artigo do Observador sobre este tema.


domingo, 8 de abril de 2018

Hoje eu quero voltar sozinho

Trailer do filme brasileiro de 2014 Hoje eu quero voltar sozinho (The way he looks), um belíssimo filme a não perder

Umberto Eco

Mais do que O Nome da Rosa

O presidente do Conselho Pontifício da Cultura considera que o traço mais distintivo do escritor e pensador italiano Umberto Eco, que morreu esta sexta-feira *, aos 84 anos, em Milão, foi a «curiosidade».

Eco era uma pessoa «convicta da complexidade do real e queria sempre olhar para lá das próprias fronteiras», afirmou Gianfranco Ravasi em entrevista publicada este domingo no jornal "Avvenire", diário da Igreja católica em Itália.

Ravasi sublinha que as raízes etimológicas do termo "curiosidade" apontam para o «cuidado, paixão, preocupação com alguma coisa: não é simplesmente andar às voltas da realidade como uma borboleta, mas também procura de envolvimento».

O cardeal recorda que Umberto Eco «tinha uma verdadeira paixão pelos estudos bíblicos, ainda que dissesse que nunca os tinha podido praticar» e sabia-se como não compreendia o motivo por que os alunos das escolas deveriam «saber tudo dos deuses homéricos e quase nada de Moisés, tudo da Divina Comédia e não do Cântico dos Cânticos e doutros textos bíblicos».

«Estando a par da minha prática exegética, estava sempre pronto a dialogar comigo; entre os textos que mais o fascinavam destacava por exemplo o Qohélet [Eclesiastes]», acrescentou.

Além da Bíblia, a amizade entre Ravasi e Eco centrava-se também na «literatura medieval», que recorda o romance "O nome da rosa", a que acrescenta a «paixão» por S. Tomás de Aquino, cuja estética esteve na base da sua formação universitária.

«Recordo a sua emoção quando lhe mostrei um texto autógrafo do santo, escrito com uma grafia quase incompreensível, obscura, nos antípodas da sua lucidez lógica», lembrou Ravasi, que dirigiu uma das mais importantes bibliotecas cristãs do mundo, a Ambrosiana, em Milão.

O amor comum ao livro completava a convergência de interesses entre ambos, relatou o cardeal, lembrando que a Biblioteca Ambrosiana «fascinava tanto» Umberto Eco, que ele a frequentava «quando estava fechada, para poder andar entre as salas em liberdade».

O prelado sublinhou também que a «experiência religiosa juvenil» de Umberto Eco foi «uma matriz que nunca quis esquecer, não obstante o seu espírito profundamente laico; havia nele o desejo de ver como se poderia viver a experiência de fé sem renunciar a toda a curiosidade cultural. Sempre com grande respeito pelos temas teológicos e de espiritualidade».

Também no domingo, o jornal do Vaticano, "L'Osservatore Romano", realçou a «grande, inexausta paixão pelo conhecimento» que marcou a «vastíssima e multiforme produção literária» do autor.

Umberto Eco caracterizou-se por um «desejo voraz, incessante, bulímico de conhecer, ler, aprofundar», escreve Silvia Guidi, acrescentando que a fixação em S. Tomás de Aquino continuaria após o doutoramento, ao estudar «com a mesma paixão e o mesmo empenho o significado de "integritas", "consonantia" e "claritas" no pensamento do "Doutor Angélico".

Da atração do autor pelos «florilégios e pastiches mais ou menos mascarados (e mais ou menos assinalados explicitamente nas notas de rodapé) nasce o celebérrimo romance "O nome da rosa", uma centena de textos medievais traduzidos, reelaborados e voltados a juntar em torno a um cativante drama negro que foi um "best seller" traduzido em todo o mundo».

Para a autora, «o grande brilho intelectual» do «inventor da semiótica» tem, todavia, um lado sombrio, quando repetia que «tudo é falsificável», que «os instrumentos da comunicação servem só para mentir e a própria vida é um jogo sem importância», posição «aparentemente descontraída e irónica, mas talvez imbuída pela amargura».

Depois de referir que nem toda a «imensa» bibliografia do professor é assinalada de sucessos, o artigo recorda que a militância católica de Umberto Eco nos anos juvenis se foi desvanecendo com o tempo, e termina com uma citação apropriada para esta hora, em que «a sua vida terrena se concluiu».

«Se um dia chegar ao paraíso e puder encontrar Deus, tenho duas possibilidades. Se é aquele vingativo do Antigo Testamento, volto as costas e vou para o inferno. Se, em vez disso, é aquele do Novo Testamento, então lemos os mesmos livros e falamos a mesma língua. Entender-nos-emos.»

texto de Rui Jorge Martins
* Publicado em 22 de fevereiro de 2016 In SNPC

terça-feira, 3 de abril de 2018

Arvo Pärt, um místico de hoje: uma breve introdução à sua obra

Arvo Pärt, ou a música da identidade do cristianismo

É um profundo louvor da palavra e da sua meditação em forma de música, esta Passio Domini Nostri Jesu Christi Secundum Joannem, ou Passio, na versão abreviada. A obra do estoniano Arvo Pärt prende-nos desde o clamor inicial, com a formulação do título. A partir daí, e até ao “Amen” final, a peça vai-se tecendo numa densa narrativa do sofrimento e da paixão, história definidora do cristianismo e da sua identidade – o sofrimento que se transfigura na plena doação, a paixão que se concretiza como redenção.

Ao contrário de outras peças musicais que narram ou se fundamentam na mesma história (como as de J.S. Bach, Heinrich Schütz, Stolzel, Homilius ou Buxtehude, por exemplo – ver nota e ligações no final deste texto), e nas quais a construção musical é obviamente fundamental, esta peça de Pärt tem o seu centro na palavra, na história narrada e contada de geração em geração desde há vinte séculos – uma história que viria a tornar-se central para tantos homens e mulheres e para o próprio devir da humanidade. Cantada em latim, a obra ganha uma emoção plena, que se transfigura também numa intensa perturbação, dimensões às quais a interpretação dos Hilliard Ensemble não é estranha.

Arvo Pärt foi um dos três vencedores da edição de 2017 do Prémio Ratzinger de teologia, uma distinção atribuída pela Fundação Joseph Ratzinger-Bento XVI, em Setembro do ano passado, e entregue pelo Papa Francisco em Novembro – e um pretexto para (re)encontrar algumas etapas da sua obra. Na ocasião do anúncio do prémio, o cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício da Cultura, considerou o músico nascido na Estónia, em 1935, como sendo talvez o maior compositor vivo. E, quando entregou o prémio, o Papa Francisco enalteceu o facto de a distinção ter sido alargada às artes – uma ideia que considerou corresponder “bem à visão de Bento XVI, que muitas vezes nos falou de modo tocante da beleza como via privilegiada para nos abrir à transcendência e encontrar Deus”. E de quem, acrescentou, “admirámos a sua sensibilidade musical e o seu exercício pessoal de tal arte como via para a serenidade e para a elevação do espírito”.

Desde a sua revelação com Tabula Rasa, na ECM (1984), que o trabalho de Pärt traduz também, há muito, essa sensibilidade de fazer da arte e da música uma via para a serenidade e a elevação do espírito. Numa obra recente, The Deer’s Cry, isso pode verificar-se: o disco começa com uma peça intensa, que dá o título ao disco, “o grito do veado”: “Cristo comigo, Cristo diante de mim, atrás de mim, em mim... Cristo à minha direita, à minha esquerda, quando me deito, quando me sento...” O poema como que ressoa as palavras de São Paulo: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim.” E é essa comunhão só intensamente possível que aqui se ouve, se sente, se estremece.

A mesma experiência que se tem com outras composições sugeridas por geografias tão diversas quanto o México (uma ternurenta Virgencita) ou Portugal (com Três Pastorinhos de Fátima, encomenda do santuário escutada na Sé de Lisboa, em 2015). Na incursão portuguesa do trabalho de Arvo Pärt, aqui preciosamente cantado pelos seus compatriotas estonianos Vox Clamantis, surge em toda a sua plenitude a capacidade do compositor em recriar o mistério, a jovialidade da infância e a aclamação. 

De outras referências ainda se faz este disco: desde a inspiração bíblica, com o belíssimo E Um dos Fariseus, narrando, com um coro e solista, o episódio da mulher pecadora em casa de Simão; até peças nas quais já reconhecemos a marca Arvo Pärt, como o profundo Da Pacem, Domine ou os hinos litúrgicos Most Holy Mother of God (Santíssima Mãe de Deus), Gebet Nacht dem Kanon (oração depois do cânone) ou Habitare Fratres in Unum (viver como irmãos em união) que, a par da peça sobre Fátima, é uma das novas composições. Uma beleza capaz de nos pôr a dançar interiormente ou de, como diz o director artístico dos Vox Clamantis, Jaan-Eik Tulve, arrebatar por igual grandes líderes espirituais e ateus radicais.

Em Lamentate, como escreve o próprio Arvo Pärt, se tenta reflectir o esbatimento da fronteira entre o temporal e o intemporal. Quando se escuta a música deste compositor estónio, a experiência que temos é desse esbatimento: as suas peças traduzem uma espiritualidade intensa, quase intemporal, mas enraizada no tempo. Inspirado em Marsyas, escultura de Anish Kapoor, Lamentate é uma obra para piano e orquestra, assumindo o piano o carácter de instrumento solista. O que lhe dá o tom certo entre a intimidade solista e o vigor orquestral. No início, o disco oferece-nos ainda um intenso Da pacem, Domine, composto a convite de Jordi Savall, e que recria, com as vozes do Hilliard Ensemble, uma antífona gregoriana do século IX. 

A profunda viagem musical e espiritual de Pärt tem outra etapa importante em In Principio, título que remete para a composição com o prólogo do Evangelho de São João. O disco inclui seis peças: além da que lhe dá o título, e por esta ordem, La Sindone fala do Sudário de Turim, Cecilia Vergine Romana conta a história da mártir Santa Cecília (século II), padroeira dos músicos, Für Lennart In Memoriam é o requiem para o funeral do seu amigo e antigo Presidente estónio (1992-2001), Lennart Meri, o já referido Da Pacem Domine é uma oração em memória das vítimas dos atentados de Março de 2004 em Madrid (tocada anualmente em Espanha desde então) e Mein Weg (escrito originalmente em 1989, para órgão) é aqui revisitada para 14 cordas e percussão.
A música de Pärt dá-nos a dramaticidade de histórias como as de Cecília, a emotividade de acontecimentos como os atentados de Madrid ou a intensidade e luminosidade de um texto como o Prólogo de São João. Compositor de uma espiritualidade vincada, este In Principio é, sem dúvida, uma etapa maior da sua obra, já tantas vezes justamente premiada.

Se mudarmos a rosa dos ventos para a direcção Leste-Oeste, a obra do compositor continua a traduzir a experiência contemporânea a partir de referências e histórias antigas. Em Orient Occident, três peças tentam ultrapassar as fronteiras da morte (a Canção do Peregrino, baseada no Salmo 121, é uma homenagem ao amigo Grigori Kromanov), da geografia (Oriente & Ocidente faz uma peregrinação admirável entre as sonoridades das duas metades da Europa) e da desesperança (Como o veado sedento retoma os Salmos 42 e 43 para nos levar do desencanto à consolação e à reconciliação), num trabalho que, todo ele, é de profunda interioridade.

Outro momento alto, entre o meditativo e o minimalista é o da Sinfonia nº 4. Composta por encomenda da Los Angeles Philharmonic e do seu director, Esa-Pekka Salonen, em parceria com o Canberra International Music Festival/Ars Musica Australis e o Sidney Cnservatorium of Music, estreada em Janeiro de 2009 no Disney Concert Hall, é a primeira sinfonia do músico estoniano após 38 anos, quando escreveu a terceira. O compositor, que vive no campo rodeado de silêncio, tinha andado a ler sobre anjos da guarda quando recebeu a encomenda vinda de Los Angeles (os anjos). Por isso, resolveu subtitular a obra, para cordas, harpa e percussão, como Los Angeles. E o que aqui temos é uma peça de uma beleza ímpar, que tem o seu ponto de partida num “cânone do anjo da guarda” e se mescla depois com a profundidade poética e musical da Igreja Ortodoxa e da cultura eslava. Ainda com uma nota simbólica adicional: a obra é dedicada ao empresário Mikhail Khodorkovsky, que tinha ambições políticas e esteve preso, entre 2003 e 2013, numa prisão siberiana. Não como dedicatória política, mas como expressão de respeito por um homem que descobriu o “triunfo moral no meio da tragédia pessoal”. E como tradução do “grande poder do espírito humano e da dignidade humana”.


Passio – intérpretes: Hilliard Ensemble; dir. Paul Hillier
The Deer’s Cry – intérpretes: Vox Clamantis; dir. Jaan-Eik Tulve
Lamentate – intérpretes: Hilliard Ensemble e outros
In Principio – direcção: Tõnu Kaljuste
Orient Occident – Swedish Radio Symphony Orchestra
Symphony no. 4 – Los Angeles Philharmonic; dir. Esa-Pekka Salonen
(todos os discos são edição ECM)


Todos os textos, excepto o que se refere a Passio, são adaptados de artigos publicados na revista Além-Mar, em Dezembro de 2002, Fevereiro de 2006, Maio de 2009, Outubro de 2010 e Outubro de 2016; os textos podem ser lidos aqui, procurando os meses respectivos.
Acerca dos outros autores citados, podem ler-se textos e ouvir-se excertos ou obras integrais nas seguintes ligações:
Paixão segundo São Mateus, de J.S. Bach, texto e vídeo
Paixão Segundo São Mateus, de Heinrich Schütz, vídeo
Brockes Passion, de Gottfried Heinrich Stölzel, texto e vídeo
Homilius, texto e excerto aqui
e a obra de Buxtehude aqui

quarta-feira, 28 de março de 2018

Arte na favela

Um belíssimo projecto feito numa favela em São Paulo, Brasil, onde a arte serve toda uma comunidade

Vê o vídeo Luz nas Vielas

segunda-feira, 26 de março de 2018

Homenagem a Pina Bausch em imagens


Pina Bausch: a imperfeição do amor

PINA BAUSCH (1940-2009): o método e o amor

Viktor. 1986

Em 1982, algum tempo antes de Dezembro, no estúdio de Wuppertal onde concebia as suas obras, é certo que Pina Bausch se sentou com os seus colaboradores e bailarinos e lhes perguntou: digam ou façam ”qualquer coisa sobre o primeiro amor”; “como imaginavam o amor quando eram crianças?”; “duas frases sobre o amor”; “como imaginam o amor?”; “se alguém vos quer obrigar a fazer amor, como reagem?”; destas questões saíram os gestos, movimentos, cenas, situações, narrativas ou micronarrativas de Nelken, como de muitas outras questões nasceram muitas outras obras.
Trata-se, ou tratava-se, como se sabe, do método de trabalho criativo coreográfico de Pina Bausch. Para cada obra, tinha a autora um sortido de palavras, palavras soltas, que depois se combinavam em expressões, questões, frases – por exemplo, se se partia da palavra “ternura”, podia-se ir parar à necessidade de “seres terno contigo mesmo”, e daí para uma sucessão de ocorrências que geravam uma obra de teatro ou de dança ou de teatro-dança.

Todas as obras de Pina Bausch assim começavam: na relação entre questões e improvisação, das questões e a partir das questões, era necessário fazer dezenas, centenas, milhares (como a autora referia) de perguntas aos bailarinos, era, consequentemente, necessário em absoluto ficar suspenso naquele impressivo fio da navalha e naquela angústia de estar “dependente” dos outros para fazer nascer a obra própria, os movimentos despegados da coesão clássica do próprio movimento (e da sua narratividade), chegar à história para aportar ao fragmento. Ora, a angústia resultava do facto de, “por vezes, não sair nada”. Inevitavelmente.

Nunca é pois demais sublinhar que em Bausch a palavra antecedia o movimento, a conversa, o diálogo, aquela estranha comunhão autoral colectiva (sim, porque não?), antecedia a decisão autoral individual que aproximava, quando aproximava, a obra daquilo que ainda, apesar de tudo se chamava “Dança” (e note-se que todos os seus bailarinos tinham – têm – rigorosa formação clássica). Este método é interessantíssimo no actual contexto da produção e da valorização, digamos, capitalista, pois daqui não só poderia sair “nada” (uma “improdução” absoluta e estética), como, a sair, saía muito lentamente, Bausch falava sempre do tempo largo que necessitava para criar (juntamente com os “seus”). Temos, portanto, primeiro o nada, depois o fragmento, depois a pergunta, a resposta, a frase e a arte de uma cerzideira de restos ou “totalidades” que embatiam noutras “totalidades” sem formar UMA “totalidade”.

É extremamente interessante também ler relatos de alguns bailarinos(as) de formação clássica que precisavam de trabalhar o corpo em exercícios regulares técnicos e, em vez disso, tinham de se sujeitar a estes jogos de perguntas/respostas ou, acima de tudo, creio-o bem, sessões de contenção corporal, de, como diria Alain Badiou noutro contexto, gestos de “negação da obediência imediata a impulsos”. A dança era uma espécie de negação de si mesma, isto se entendêssemos a dança como a arte de “obedecer ao impulso”, que aqui era banida, pois tratava-se antes de “guardar”, “esperar”, habitar o tempo sem limite de tempo (se fosse caso disso).

Maurice Nadeau, em 1958, falava do surrealismo como de um cruzamento entre o maravilhoso, o inconsciente, o sonho e a loucura, e os estados alucinatórios. Será este o contexto da obra de Pina Bausch? Muitos ligam-na ao surrealismo, outros ao dadaísmo, outros a ambos (o Routledge Companion to Theatre and Performance), recordando não apenas o contexto da dança expressionista, mas também autores como Alfred Jarry ou Artaud.

Quanto a mim, recordo-me de me ter “zangado” com este universo ao ver, pela primeira vez (depois de ter visto várias peças), a obra Viktor, realizada a partir de uma estadia em Roma (que inauguraria uma série de obras que resultavam das famosas relações entre a companhia de Bausch e cidades em particular, por onde passaria também Lisboa, na obra Mazurca Fogo). Porque vi ali um registo de pessimismo e de incomunicabilidade que se me afigurava demasiado insistente. Mas, pouco depois, li correctamente tudo ao contrário, e, em Café Müller, de 1978, tornara-se claro que um dos temas da autora era o amor. Neste lúgubre café há um inesquecível “encontro” entre o bailarino eleito de Bausch, Dominique Mercy, e uma mulher: ela sobe para o colo de Mercy, abraça-o, ele aparentemente nada faz (apesar de ser “ensinado” por um terceiro) e ela cai ao chão – tudo se repete infinitas vezes. Pode não parecer, mas Mercy é o paradigma ou símbolo do amor, nesta situação aflitiva. Porque o amor não é um contrato fechado, completo e pelo menos desde S. Paulo sabemos que só o ser incompleto pode amar. Mercy, assim, nunca se “completa” com a mulher que se lança infindas vezes aos seus braços – por isso, o infinito pode repetir-se até ao infinito. É este o retrato da infinitude e da imperfeição do amor.

sábado, 24 de março de 2018

Mística da Arte

Marc Chagall
É a arte que dá o nome a Deus

Quando o escritor Paul Claudel faz a receção da poesia de Rimbaud, no seu processo de aproximação ao espiritual, dirá deste - e dizê-lo de um poeta é, de certa forma, dizê-lo de todo o artista - que é um místico selvagem.

Os artistas são essa possibilidade do espírito em estado puro, essa mística prévia a qualquer organização. E, de facto, o espírito não pode viver sem a arte. Não conseguimos aceder à espiritualidade sem esse caminho preparatório que a própria arte é, por três razões fundamentais.

Primeiro, a arte ajuda-nos a operar um desmantelamento necessário do mundo. O mundo deixa de ser a crosta, a superfície, e passamos a ver uma coisa como quem vê outra, introduzindo uma dimensão simbólica. Percebemos que os cinco dedos de uma mão não são apenas a pura materialidade, mas podem conter em si outros mundos possíveis.

A arte é uma espécie de perfuração deste real que tantas vezes nos parece simplesmente linear e opaco, e é uma espécie de rasgão, como Lucio Fontana fazia nas telas, que abre ao olhar a possibilidade de uma profundidade na planura do mundo, na rasura da nossa experiência vital.

Todas as artes são esse rasgão feito com uma navalha aguda dos sentidos, do génio, da intuição, da estética, da sensibilidade. São um rasgão que nos prepara para outra possibilidade de ser.

Neste sentido, o artista não tem de ser cristão ou budista ou filiado numa determinada prática religiosa. Ele tem de ser o artista, tem de viver a experiência artística para operar essa espécie de revisão das próprias imagens e daquilo que à primeira vez assoma ao nosso olhar como uma evidência acabada.

Na admiração, no espanto a que a arte nos inicia não vemos apenas a realidade em si; vemo-la proposta de outra coisa, muitas vezes até como a positividade de uma ausência, como a presença que nos possibilita tatear uma transcendência. Por isso é que a arte é tão fundamental para a experiência espiritual.

Sem a arte, cairíamos num materialismo irresolúvel, porque o mundo seria só o mundo, e a arte é aquilo que nos diz que o mundo não é só mundo, e que o que vemos é apenas o início de uma viagem de superação, de interpretação.

Um segundo aspeto que é um grande contributo da arte para a experiência do espírito é isto que a arte tem de transformar. Aquilo que começa por ser alguma coisa de impalpável, invisível, abstrato, em algo de fisiológico.

A arte começa por tornar o material, imaterial, começa por tornar o visível como uma grande escola para o invisível, mas depois faz também o movimento contrário: a arte é capaz de aproximar, de dar materialidade, de concretizar o estado impalpável, invisível, transcendente.

Quando olhamos para uma pintura de Vieira da Silva não temos dúvidas de que ela está a falar, a referir-se, a mostrar coisas que não estão completamente ali, não estão encerradas nessa imagem; aquela imagem é uma sugestão de muitos outros mundos possíveis, mas a verdade é que ela, não encerrando a realidade toda, é uma presentificação dessa realidade mais vasta.

A arte e os artistas ajudam a fazer com que o espírito deixe de estar capturado por uma abstração e se torne uma espécie de estado fisiológico, uma espécie de cisma, uma espécie de comoção que nos abala.

Os artistas fazem-nos habitar nas entranhas da baleia. Não apenas nos conceitos, nas ideias, nos ideais, mas fazem-nos descer ao côncavo, ao escuro, ao uterino, ao genesíaco, à lava, a esse lugar de prova, mas também de redenção que é a materialidade da vida.

Um terceiro aspeto que constitui um contributo decisivo das artes para o espírito é essa espécie de nomeação que a primeira dá ao segundo. Quando Moisés pergunta a Deus como se chama, Ele responde através da arte verbal, através de um poema: «Eu sou aquele que é».

A arte é a possibilidade de concretizar, de dar um corpo, de dar uma plausibilidade àquilo que nos é estranho, àquilo que é alteridade do nosso corpo, mas que as artes tornam vizinhança, limite, limiar de um diálogo que conseguimos estabelecer a partir da experiência que a arte nos dá.

A arte faz isto de uma forma fantástica, porque ela dá-nos o enunciado para aquilo que não tem nome, dá-nos uma imagem para aquilo que não tem rosto, dá-nos uma audibilidade para o silêncio, realizando isso numa singularidade que traduz a absoluta diversidade do mundo, na pluralidade das formas.

Na singularidade irredutível de cada percurso artístico, de cada voz, de cada pensamento, temos esse ato de nomeação que, se não fosse a arte, não saberíamos dizer.

Foi a arte que deu o nome a Deus. Não é a teologia, não são as religiões que dão o nome a um invisível, é sempre a arte, ou seja, aquilo que está mais próximo do símbolo, aquilo que aceita a turbulência de abraçar o inefável, é que é capaz de o traduzir.

Por isso, os artistas são místicos selvagens, mas é essa mística selvagem primeira que nos pode dar um acesso mais profundo àquela experiência radical do espírito.

José Tolentino Mendonça
Ciclo "Espírito da Arte / Arte do Espírito"
Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva, Lisboa, 5 de novembro de 2015
Publicado em SNPC

sexta-feira, 23 de março de 2018

Papa fala aos artistas

Discurso aos membros do movimento “Diaconia da Beleza”
Papa Francisco
Vaticano, 24 de fevereiro de 2018

Caros amigos,

acolho-vos por ocasião do simpósio que organizastes em Roma por ocasião da festa do Beato Fra Angélico [padroeiro dos artistas, 18 de fevereiro]. Agradeço ao arcebispo Roberto Le Gall pelas palavras que me dirigiu em vosso nome. Através de vós desejo exprimir a minha cordial saudação a todos os artistas que procuram fazer resplandecer a beleza, com os seus talentos e a sua paixão, como também às pessoas em condição de fragilidade que se restabelecem graças à experiência da beleza na arte.»

O papa João Paulo II escreve na “Carta aos artistas”: “ O artista vive numa relação peculiar com a beleza. Pode-se dizer, com profunda verdade, que a beleza é a vocação a que o Criador o chamou com o dom do ‘talento artístico’. E também este é, certamente, um talento que, na linha da parábola evangélica dos talentos (cf. Mt 25,14-30), se deve pôr a render”.

Esta convicção de S. João Paulo II ilumina a visão e a dinâmica próprias da “Diaconia da Beleza”, que firmou raízes precisamente aqui, em Roma, ao tempo do sínodo sobre a nova evangelização, em outubro de 2012. Juntamente convosco dou graças ao Senhor pelo caminho realizado e pela variedade dos vossos talentos, que Ele vos chama a desenvolver ao serviço do próximo e de toda a humanidade.

Os dons que recebestes são para cada um de vós uma responsabilidade e uma missão. Com efeito, é-vos pedido que trabalheis sem vos deixardes dominar pela procura de uma vã glória ou de uma fácil popularidade, e ainda menos pelo cálculo tantas vezes mesquinho do único lucro pessoal.

Num mundo em que a técnica é frequentemente entendida como o recurso principal para interpretar a existência, vós sois chamados, mediante os vossos talentos e chegando às fontes da espiritualidade cristã, a propor “uma forma alternativa de entender a qualidade de vida, encorajando um estilo de vida profético e contemplativo, capaz de gerar profunda alegria sem estar obcecado pelo consumo” (“Laudato si’”, 222), e a servir a criação e a tutela de “oásis de beleza” nas nossas cidades, demasiado cheias de cimento e sem alma. Vós sois chamados a fazer conhecer a gratuidade da beleza.

Convido-vos portanto a desenvolver os vossos talentos para contribuir para uma conversão ecológica que reconheça a eminente dignidade de cada pessoa, o seu valor peculiar, a sua criatividade e a sua capacidade de promover o bem comum. A vossa busca da beleza naquilo que criardes seja animada pelo desejo de servir a beleza da qualidade da vida das pessoas, da sua harmonia com o ambiente, do encontro e da ajuda recíproca.

Encorajo-vos por isso, nesta “Diaconia da Beleza”, a promover uma cultura do encontro, a construir pontes entre as pessoas, entre os povos, num mundo em que se erguem ainda tantos muros por medo dos outros. Tende no coração a missão de testemunhar, na expressão da vossa arte, que acreditar em Jesus Cristo e segui-lo “não é apenas uma coisa verdadeira e justa, mas também bela, capaz de preencher a vida de um novo esplendor e de uma alegria profunda, mesmo no meio das provações” (“Evangelli gaudium”, 167).

A Igreja conta convosco para tornar percetível a Beleza inefável do amor de Deus e para permitir a cada pessoa descobrir a beleza de ser amada por Deus, de ser cheia do seu amor, para viver dele e dar-lhe testemunho na atenção aos outros, em particular àqueles que estão excluídos, feridos, refutados nas nossas sociedades.

Ao mesmo tempo que vos confio ao Senhor, por intercessão do Beato Fra Angélico, concedo a bênção apostólica a vós e a todos os membros da Diaconia da Beleza. Obrigado!

In SNPC
Fonte: Sala de Imprensa da Santa Sé

Pode a arte converter?

A emoção que experimentamos através da beleza toca em nós fibras extremamente delicadas

Ator, pintor, encenador, escritor, Michael Lonsdale (n. 1931) apareceu em mais de 180 programas de televisão e filmes, entre os quais “Dos homens e dos deuses” e “O nome da rosa”.

Em entrevista ao jornal do Vaticano, L’Osservatore Romano, recorda como as artes foram determinantes para a sua conversão ao catolicismo e consolidação da fé, conta como se manteve firme às suas convicções num mundo difícil para a espiritualidade como é a Sétima Arte e explica por que motivos é tão importante para ele relacionar fé e beleza.

Como nasceu a sua fé católica?
Cresci em Londres até ao verão de 1939, quando o meu pai encontrou trabalho em Casablanca: deviam ser seis meses mas desencadeou-se a guerra e tornaram-se 10 anos. A minha fé nasceu antes de tudo do encontro com uma pintora que um dia me levou à missa na igreja do Sagrado Coração. Nesse tempo não sabia nada de quem era Jesus. Foi ela que me fez descobrir a arte através da atmosfera do seu estudo, e depois com Chagall e Rembrandt: tudo partiu daí.

Mais tarde essa mulher, parisiense de origem, levou-me à capital francesa, encorajando-me a inscrever-me no Ateliê de Artes Sacras, fundado pelo pintor Maurice Denis. Aí, um dia, ouvi uma conferência de um padre dominicano sobre arte e fé: para mim foi uma reviravolta. Entrei em contacto com ele, sem saber sequer como o chamar: «Queria “ativar” a minha capacidade na beleza, o amor, a pureza… e a arte», disse-lhe. Ele respondeu-me: «Talvez seja Deus que estás à procura!». Tornei-me assim seu catecúmeno e fui batizado: tinha 20 anos. O meu padrinho foi um médico judeu convertido ao catolicismo que escapou à deportação. Estava em boas mãos.

Como é que se tornou ator?
Na verdade comecei o teatro ao mesmo tempo. Foi sempre graças à ajuda dos dominicanos que consegui fazer alguma coisa: a incerteza travava-me, não sabia que curso escolher e o meu diretor espiritual enviou-me ao P. Carré, o esmolar dos artistas de então. E Carré, também dominicano, enviou-me para o curso da grande atriz Tania Balachova. Foi ela que me formou, permitindo-me também alargar o meu repertório, tentando recitar também personagens maus, que eu não queria interpretar. Serviu-me muito para o meu personagem de Hugo Drax, no James Bond, por exemplo; devo-lhe muito.

Para dizer a verdade, foi sobretudo a música que me levou para a minha vocação profunda: suscitava em mim um êxtase tão forte que me despertava uma sede de Deus. E a pintura… Rembrandt levou-me à loucura: pintou e gravou tudo o que está na Bíblia. “O regresso do filho pródigo”, em particular, uma das suas últimas pinturas, é absolutamente extraordinária. Em França frequentei a casa de uma tia que era a mulher do escritor Michel Arland. Com ele tive a ocasião de ler muito porque era bastante inculto e, sobretudo, iniciou-me à pintura moderna.

O que é que gosta de pintar?
Não tenho um género predileto. Nunca sei o que vai sair. Um dia comecei a pintar escutando a “Sinfonia pastoral”, de Beethoven: estava de tal maneira arrebatado que a minha mão trabalhou sem que eu me desse conta. No final da música havia vários rostos que não conhecia desenhados na tela. Era como que uma presença, seguramente angélica, que me inspirava.

Como viveu a sua fé no mundo do cinema, que não é particularmente próximo da religião?
Convivi com muitas pessoas, muitas delas estavam atormentadas, inclusive eram violentas. Houve momentos muito difíceis. Mas para mim a missa foi sempre inegociável. Os encontros com o meu pai espiritual e a Confissão apoiaram-me. Com o filme “Dos homens e dos deuses” alcancei um ápice: o personagem do Ir. Luc permanecerá, juntamente com “O nome da rosa”, um dos papéis mais importantes da minha vida. É um modelo absoluto de humanidade, capaz de levar até ao fundo a sua missão seguindo os mandamentos de Jesus. Porque não há maior prova de amor do que dar a vida por aqueles que se amam. E quem se ama é o mundo inteiro.

Empenhou-se muito na vida associativa, através da Diaconia da Beleza ou o Festival Sacro de Cannes, por exemplo; porque é que é tão importante para si relacionar fé e beleza?
Com estas iniciativas tive a liberdade de encenar espetáculos únicos, entre eles a “Vida de S. Bernardino”, que apresentamos cinco anos consecutivos, ao ar livre. Unir-se aos outros artistas para formar uma família espiritual radica-nos ainda mais no coração de Deus. A emoção que experimentamos através da beleza toca em nós fibras extremamente delicadas, em particular com a música. Sou fascinado pela ideia de que ela entra em nós pelos poros da nossa pele primeiro do que pelos ouvidos. Porque é que de repente decidimos que a gama de notas seria o dó re mi fa sol lá si dó? Há uma alquimia misteriosa que é sumamente preciosa… Uma voz desafinada, ao contrário, pode picar-nos como espinhos! No nosso mundo tão tumultuoso temos de preservar este milagre.

Ainda há projetos que gostaria de realizar?
Tantos! Com o meu amigo Robert Hossein queremos encenar uma obra teatral sobre Jesus narrada por Pedro ou Paulo. Está também em gestação um projeto experimental sobre Leonardo da Vinci: deverei ser eu o narrador. Ainda está tudo em fase de projeto mas gostava muito de os realizar…

Solène Tadié In L'Osservatore Romano
Tradução e edição: SNPC
Publicado em 24 de fevereiro de 2018

Porque estou aqui

Sinto-me privilegiado por ter encontrado na Igreja um lugar vazio, feito à minha medida. É certo que tê-lo encontrado (ou encontrá-lo renovadamente, pois não é dado adquirido) foi também mérito da minha sede, do meu empenho, de não baixar os braços e achar, passivamente, que não seria possível. Passo a contextualizar: a comunidade onde vou à missa é pequena e acolhedora, e podia bem não o ser. Ao mesmo tempo, sentia um desejo grande de reflexão de vida cristã e encontrei um casal (heterosexual) que tinha a mesma vontade. Começámo-nos a reunir semanalmente numa pequena comunidade de oração e reflexão que, apesar de crítica, nos tem ajudado a sermos Igreja e a nela nos revermos. Paralelamente, face ao contínuo desencanto em relação a algumas posturas e pontos de vista de uma Igreja mais institucional e hierárquica, tive a graça de encontrar um grupo de cristãos homossexuais, que se reuniam com um padre regularmente, sem terem de se esconder ou de ocultar parte de si.

Sei que muitos cristãos homossexuais nunca pensaram sequer na eventualidade de existirem grupos cristãos em que se pudessem apresentar inteiros, quanto mais pensarem poder tomar parte e pôr em comum fé, questões, procuras, afectos e vidas.

Por tudo isto me sinto grato a Deus e me sinto responsável para tentar chegar a quem não teve, até agora, uma experiência tão feliz como a minha.

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