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A diversidade na Igreja

"A casa do meu Pai tem muitas moradas", diz-nos Jesus no evangelho.

A unidade na diversidade não é sempre aparente na Igreja enquanto povo de Deus, mas é uma realidade em Deus e uma presença na fé cristã desde a sua origem. A Palavra de Deus não é partidária, elitista e exclusiva. O Reino de Deus é como uma árvore que estende os ramos para dar abrigo a todos os pássaros do céu. Cristo não morreu na cruz para salvar uma mão cheia de cristãos. Até o Deus Uno encerra em si o mistério de uma Trindade.

A Palavra de Deus é inequívoca e só pode levar à desinstalação, à abertura ao outro, e a recebê-lo e amá-lo enquanto irmão ou irmã. Ninguém fica de fora, nem mesmo - se tivessemos - os inimigos.

Muitos cristãos crêem nesta Igreja, nesta casa do Pai, corpo de Cristo, templo do Espírito Santo. Mas como esquecer que muitos se sentem "de fora" por se verem rejeitados, amputados e anulados, e afastam-se por ninguém lhes ter mostrado que há um lugar para cada um, com a totalidade do seu ser?

Um blogue para cristãos homossexuais que não desistiram de ser Igreja

Porquê este blogue?

Este blogue é a partilha de uma vida de fé e é uma porta aberta para quem nela quiser entrar. É um convite para que não desistas: há homossexuais cristãos que não querem recusar nem a sua fé nem a sua sexualidade. É uma confirmação, por experiência vivida, que há um lugar para ti na Igreja. Aceita o desafio de o encontrares!

Este blogue também é teu, e de quem conheças que possa viver na carne sentimentos contraditórios de questões ligadas à fé e à orientação sexual. És benvindo se, mesmo não sendo o teu caso, conheces alguém que viva esta situação ou és um cristão que deseja uma Igreja mais acolhedora onde caiba a reflexão sobre esta e outras realidades.

Partilha, pergunta, propõe: este blogue existe para dar voz a quem normalmente está invisível ou mudo na Igreja, para quem se sente só, diferente e excluído. Este blogue não pretende mudar as mentalidades e as tradições com grande aparato, mas já não seria pouco se pudesse revelar um pouco do insondável Amor de Deus ou se ajudasse alguém a reconciliar-se consigo em Deus.

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Entrevista a um padre gay

"A Igreja é hipócrita porque não aceita uma realidade que é sua"

Polaco, filho de uma família muito crente, cujo apoio o surpreendeu quando revelou ser homossexual, o padre Krzystof Charamsa testemunha a sua vivência no seio do clero, onde assegura que metade são gays. Revolta-se e acusa a Igreja de falsidade por nem sequer querer iniciar o debate do tema

Como o devo tratar, por padre?
Na realidade, porque não? Não sou um ex-padre, sou um padre suspenso. O sacramento do sacerdócio não se pode cancelar. Hoje sinto-me mais padre do que antes. Estou a realizar a minha vocação, em defesa dos direitos humanos, dos homossexuais, das mulheres ...

O Vaticano alegou que tinha violado o voto do celibato. Contrapõe que essa obrigatoriedade visa a relação do padre com uma mulher. Com um homem não é o mesmo?
É a mesma coisa para mim, mas não para a minha igreja, esse é o problema. O direito canónico diz-se contra o concubinato com uma mulher e não contempla o direito de uma relação com um homem.

Não admitem essa possibilidade.
Porque a Igreja é homofóbica e cancela a existência da homossexualidade, só a aceita como uma patologia, uma doença. Para me suspenderem nunca usaram a frase "relação afetiva com um homem ou homossexualidade", usaram o número do cânone que fala do concubinato e outros delitos sexuais. Na minha vida não são delitos sexuais, sinto muito, e também não me podem suspender por ter uma relação com uma mulher.

Concorda com o celibato?
Na maior parte da minha vida fui defensor do celibato, hoje não. Na congregação da Santa Sé, de que fazia parte, fui encarregue de um estudo sobre esse tema. Queriam que o celibato fosse obrigatório para todos os padres - não é na igreja oriental, não é para os padres romenos e ucranianos, para os que vêm de outras confissões -, é só para os padres latinos. Percebi que não havia razão bíblica, teológica, para que isso.

O que espera com este livro?
É uma novela com apontamentos biográficos. Mas na realidade, é um testemunho da evolução de uma pessoa e a sua relação com a instituição onde trabalha, a quem quer e com a qual se identifica e, ao mesmo tempo, descobre que é a instituição que não lhe permite aceitar-se. Neste caso, é um testemunho de um padre, um gay, e a Igreja, a quem considera a sua casa, a sua família, porque é um crente, mas tem um significado mais universal. É o testemunho de uma luta interior e de uma libertação, de uma libertação completa e que não é fácil de explicar a uma sociedade católica, que domina tudo com os seu juízos de valor, que julga em vez de escutar e, assim, oculta a realidade.

Conhecia a doutrina quando decidiu ser padre. Não concordou?
Sim, concordei. Essa foi a razão pela qual escondi a mim próprio que era gay, não queria aceitar, porque ia contra a doutrina que confessava, com a qual me identificava. Depois descobri que a congregação professava uma teoria que não praticava.

Acusa a Igreja de hipócrita.
É hipócrita porque não aceita uma realidade que é sua, que está no seu interior. Quando a Igreja fala dos gays, jamais diz nós, são os outros.

Constatou que há homossexuais que se refugiam no clero?
Sim. As famílias quando percebem que um filho não vai casar com uma mulher, pensam num local para onde ir sem revelar quem é e, assim, realizava-se socialmente.

Afirma que 50% do clero é gay.
O viver da homossexualidade na Igreja é muito mais forte do que na sociedade em geral. Avanço um número, é uma hipótese de trabalho, a igreja não pode ignorar mais este tema. Porque é que reconhece os direitos dos homossexuais.

Porque?
Quer manter o domínio sobre a sociedade, que é patriarcal e machista. E abrir-se à compreensão da homossexualidade exige uma grande reforma do pensamento católico.

O papa Francisco não vai conseguir mudar isso?
Convocou dois Sínodos sobre um tema que é urgente: a família, o matrimónio, as sexualidade, mas no final, foi silenciado pelos bispos, por um Vaticano que não tem capacidade para estudar as questões que a realidade exige. E até agora, não conseguiu nada. Disse muitas coisa boas, na realidade abre a cabeça das pessoas, mas o Vaticano tem minado praticamente qualquer possibilidade de discussão.

Ficou desiludido por não ter respondido à sua carta?
Esperava a resposta do papa Francisco aos homossexuais católicos, não a mim. Esperava uma resposta institucional, de líder espiritual da Igreja Católica e parecia que o Sínodo era um espaço para isso. E ele voltou a repetir as condenações do passado, não disse uma palavra positiva sobre os homossexuais.

O que esperava quando revelou ser homossexual?
Sabia que ia pagar um preço, mas esperava que falassem comigo, que o meu superior me recebesse. O Papa Francisco diz que a Igreja é como um hospital de campo, que procura os feridos, que deve acolher quem está perdido. E o que fizeram foi: "Não trabalhas mais aqui!"

O que faz atualmente?
Sou escritor. Tenho muitos projetos. Vivo na Catalunha, com o Eduardo, é a minha casa e a minha pátria. Da Polónia, na maior parte do tempo recebi ódio e ressentimento. A minha família é muito crente e apoia-me de uma maneira extraordinária. Eles é que sofrem, a minha mãe está a sofrer o que eu devia ter sofrido.

Há muitos padres gays a contactá-lo?
Muitíssimos, por email, facebook, mensagens, mas tudo de foram confidencial, todos com medo, este medo que paralisa. E, finalmente, trata-se só de pensar, estudar um pouco mais o que dizem sobre as relações humanas, A Igreja deveria ajudar a sociedade a respeitar os direitos das minorias, mas se nem aceita os direitos das mulheres?

Uma vez que é tão crente em Deus, há alguma outra confissão religiosa onde se pudesse enquadrar?
Não. Tive propostas de outras confissões, que me queriam receber, mas sou católico, um padre em exílio.

Manter-se numa Igreja que acusa de falsidade e hipocrisia?
Porque nem tudo está mal. Estamos num momento histórico, de compreensão da sexualidade e dos direitos ligados à sexualidade. A Igreja está a perder esse momento, mas não pode continuar fechada.

A pedofilia é uma consequência da falta de debate sobre a sexualidade?
Sim, é uma consequência da incapacidade de falar abertamente sobre a sexualidade humana. Somos católicos, estamos obcecados com a masturbação dos adolescentes, parece que é o maior pecado, quando encobrimos a pedofilia, não lhe demos importância. Formámos sociedades católicas onde as pessoas não querem saber da pedofilia, preferem estigmatizar a vítima. É uma cultura formada por este tabu da sexualidade que a Igreja tem debaixo do seu domínio.

Percebeu que era gay na adolescência e foi para padre, porquê?
Sim, mas não aceitava esse facto, lutava contra os meus desejos, vivia num engano de que não podia ser verdade, porque ia contra a doutrina que eu professava. Hoje a minha consciência de homossexual é a consciência de um padre. A Igreja precisa de padres homossexuais e heterossexuais, pessoas falam da nossa identidade. Os homossexuais têm a experiência humana de uma minoria que precisa de ser vivida e aceite.
por Diana Quintela, para DN, 25 de Outubro de 2016

Winning Dad

Um filme de 2015 que aborda questões ligadas à aceitação da homossexualidade por parte dos pais 

domingo, 8 de abril de 2018

Hoje eu quero voltar sozinho

Trailer do filme brasileiro de 2014 Hoje eu quero voltar sozinho (The way he looks), um belíssimo filme a não perder

Amarás o estrangeiro

Eu e o estrangeiro

Tempo virá
em que, exultante,
te saudarás a ti mesmo chegado
à tua porta, no teu próprio espelho
e cada qual sorrirá ante a saudação do outro,
e dirá: Senta-te aqui. Come.
Amarás de novo o estrangeiro que era o teu Eu.
Dá vinho. Dá pão. Devolve o coração
a ele próprio, ao estrangeiro que te amou
toda a tua vida, que ignoraste.

Como sempre, a poesia, para ser apreciada, requer uma leitura serena: antigamente, cada leitura dos textos escritos exigia a pronúncia exterior, de modo que as palavras reverberassem, deixando em torno de si quase como que um halo, um eco interior. Citámos aqui versos da poesia “Amor após amor”, do grande poeta Derek Walcott, o cantor dos mestiços, nascido numa ilha das Caraíbas, Santa Lúcia, em 1939.

Como se intui, unem-se e sobrepõem-se duas fisionomias diversas, a minha e a do outro, o estrangeiro. Se ao espelho olhamos o nosso rosto, descobrimos nele os traços da humanidade, porque a ela todos pertencemos, para além das diferenças étnicas, culturais, religiosas.

«Amarás o estrangeiro que era o teu Eu», diz o poeta. «Amarás o teu próximo como a ti mesmo», diz a Bíblia. Neste paralelo há dois amores que se fundem, o espontâneo por si próprio e aquele que o é para os outros, muitas vezes conquistado com algum esforço mas que deverá ser, da mesma maneira, intenso.

Devemos tentar reconduzir o nosso coração «a si mesmo», isto é, à sua consciência profunda, e aí descobriremos que há o estrangeiro dentro de nós porque ele é semelhante a nós por causa do próprio Deus que o criou, do próprio Cristo que o redimiu, do próprio amor que foi deposto nele e em nós, e do próprio pecado que obscurece a nós e a ele.

P. (Card.) Gianfranco Ravasi
Presidente do Pontifício Conselho da Cultura In "Avvenire"
Tradução e adaptação de Rui Jorge Martins para SNPC

Um livro sobre a arquitectura religiosa em Lisboa

Igreja do Sagrado Coração de Jesus, Lisboa
Igrejas do século XX - Arquiteturas na região de Lisboa


A editora Caleidoscópio [lançou em 2016] o livro "Igrejas do século XX - Arquiteturas na região de Lisboa", do arquiteto José Manuel Fernandes, professor catedrático de História de Arquitetura. (...)

"Do ecletismo do princípio de Novecentos ao Modernismo (1900-1950)", "O pós-Guerra (1950-1965): Da reação neotradicional ao movimento de renovação da arte religiosa/M.R.A.R., génese e afirmação" e "A difusão da arquitetura religiosa moderna" (1965-75)" constituem os temas dos três primeiros capítulos.

As duas restantes secções são dedicadas à "Crise e diversidade na arquitetura religiosa (1975-2000) e à "Situação da transição dos séculos XX-XXI, e outros tema", a que se juntam as fichas de obras, notas biográficas e três circuitos ou roteiros de igrejas, a par da bibliografia.

O estudo, «centrado naturalmente num "olhar arquitetónico" e na dimensão estética e histórica das peças analisadas, não deixou de ter em conta os aspetos de articulação, como os da componente funcional religiosa, os das obras de arte complementares, ou ainda os da relação com os contextos urbanos e com as outras funções dos espaços arquitetónicos», lê-se na introdução.

«De uma forma geral, pode dizer-se que a arquitetura religiosa na área de Lisboa ligada ao Patriarcado - tal como nos restantes espaços do país - assumiu-se em expressão do enraizado catolicismo do país, ganhando no século XX um carácter próprio, traduzindo com grande clareza os valores, as mudanças e os conflitos que atravessaram o território e a sua cultura ao longo desse tempo histórico», assinala o autor.

José Manuel Fernandes nota que «na maior parte das obras projetadas ou realizadas verificou-se um constante conflito entre a ideia do "moderno" e os conceitos-base do espaço religioso, quase sempre de sentido tradicional - muitas vezes numa tensão expressa na oposição entre o espaço interno de expressão longitudinal (cruz latina), na visão tradicionalista, e os espaços mais complexos, centrados ou assimétricos e polifacetados, próprios da modernidade».

Ainda que se trate de um «fenómeno geral», esse conflito assumiu na região de Lisboa «uma intenção e uma duração mais expressivas, em função dos contextos próprios e da evolução da sociedade portuguesa da altura».

«A arquitetura religiosa moderna realizada na área do Patriarcado de Lisboa interessou qualificados arquitetos portugueses - nomeadamente, entre vários, Pardal Monteiro, Nuno Teotónio Pereira, Nuno Portas, Pedro Vieira de Almeida, Jorge Viana ou João de Almeida», que evoluíram «numa procura de qualificação e de diversificação».

A seleção de obras apresentadas considera «três tipos principais de igrejas: as obras verdadeiramente notáveis; as obras de características ou qualidade mediana; e as obras neovernáculas, algo "kitsch", revelando por vezes alguma inventiva e sabor popular.

O volume «procura descrever e analisar, para além de enquadrar e caracterizar, uma série de exemplos arquitetónicos representativos» das fases enunciadas no índice.

Rui Jorge Martins
in SNPC

Umberto Eco

Mais do que O Nome da Rosa

O presidente do Conselho Pontifício da Cultura considera que o traço mais distintivo do escritor e pensador italiano Umberto Eco, que morreu esta sexta-feira *, aos 84 anos, em Milão, foi a «curiosidade».

Eco era uma pessoa «convicta da complexidade do real e queria sempre olhar para lá das próprias fronteiras», afirmou Gianfranco Ravasi em entrevista publicada este domingo no jornal "Avvenire", diário da Igreja católica em Itália.

Ravasi sublinha que as raízes etimológicas do termo "curiosidade" apontam para o «cuidado, paixão, preocupação com alguma coisa: não é simplesmente andar às voltas da realidade como uma borboleta, mas também procura de envolvimento».

O cardeal recorda que Umberto Eco «tinha uma verdadeira paixão pelos estudos bíblicos, ainda que dissesse que nunca os tinha podido praticar» e sabia-se como não compreendia o motivo por que os alunos das escolas deveriam «saber tudo dos deuses homéricos e quase nada de Moisés, tudo da Divina Comédia e não do Cântico dos Cânticos e doutros textos bíblicos».

«Estando a par da minha prática exegética, estava sempre pronto a dialogar comigo; entre os textos que mais o fascinavam destacava por exemplo o Qohélet [Eclesiastes]», acrescentou.

Além da Bíblia, a amizade entre Ravasi e Eco centrava-se também na «literatura medieval», que recorda o romance "O nome da rosa", a que acrescenta a «paixão» por S. Tomás de Aquino, cuja estética esteve na base da sua formação universitária.

«Recordo a sua emoção quando lhe mostrei um texto autógrafo do santo, escrito com uma grafia quase incompreensível, obscura, nos antípodas da sua lucidez lógica», lembrou Ravasi, que dirigiu uma das mais importantes bibliotecas cristãs do mundo, a Ambrosiana, em Milão.

O amor comum ao livro completava a convergência de interesses entre ambos, relatou o cardeal, lembrando que a Biblioteca Ambrosiana «fascinava tanto» Umberto Eco, que ele a frequentava «quando estava fechada, para poder andar entre as salas em liberdade».

O prelado sublinhou também que a «experiência religiosa juvenil» de Umberto Eco foi «uma matriz que nunca quis esquecer, não obstante o seu espírito profundamente laico; havia nele o desejo de ver como se poderia viver a experiência de fé sem renunciar a toda a curiosidade cultural. Sempre com grande respeito pelos temas teológicos e de espiritualidade».

Também no domingo, o jornal do Vaticano, "L'Osservatore Romano", realçou a «grande, inexausta paixão pelo conhecimento» que marcou a «vastíssima e multiforme produção literária» do autor.

Umberto Eco caracterizou-se por um «desejo voraz, incessante, bulímico de conhecer, ler, aprofundar», escreve Silvia Guidi, acrescentando que a fixação em S. Tomás de Aquino continuaria após o doutoramento, ao estudar «com a mesma paixão e o mesmo empenho o significado de "integritas", "consonantia" e "claritas" no pensamento do "Doutor Angélico".

Da atração do autor pelos «florilégios e pastiches mais ou menos mascarados (e mais ou menos assinalados explicitamente nas notas de rodapé) nasce o celebérrimo romance "O nome da rosa", uma centena de textos medievais traduzidos, reelaborados e voltados a juntar em torno a um cativante drama negro que foi um "best seller" traduzido em todo o mundo».

Para a autora, «o grande brilho intelectual» do «inventor da semiótica» tem, todavia, um lado sombrio, quando repetia que «tudo é falsificável», que «os instrumentos da comunicação servem só para mentir e a própria vida é um jogo sem importância», posição «aparentemente descontraída e irónica, mas talvez imbuída pela amargura».

Depois de referir que nem toda a «imensa» bibliografia do professor é assinalada de sucessos, o artigo recorda que a militância católica de Umberto Eco nos anos juvenis se foi desvanecendo com o tempo, e termina com uma citação apropriada para esta hora, em que «a sua vida terrena se concluiu».

«Se um dia chegar ao paraíso e puder encontrar Deus, tenho duas possibilidades. Se é aquele vingativo do Antigo Testamento, volto as costas e vou para o inferno. Se, em vez disso, é aquele do Novo Testamento, então lemos os mesmos livros e falamos a mesma língua. Entender-nos-emos.»

texto de Rui Jorge Martins
* Publicado em 22 de fevereiro de 2016 In SNPC

sábado, 7 de abril de 2018

Diário de um capelão hospitalar

Integrar a fragilidade, refazer a vida inteira

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

O padre António Pedro em 2015, no Hospital de Santa Maria (Lisboa);
actualmente, exerce funções de capelão hospitalar no Hospital de Santa Marta
e Maternidade Alfredo da Costa, também em Lisboa


A criadora da noção de cuidados paliativos dizia que “quando já não há nada a fazer, está tudo por fazer”. O padre António Pedro Monteiro, 31 anos, assistente religioso no maior hospital do país, diz que, perante o sofrimento, importa construir um caminho que integre a fragilidade e devolva a saúde pelo perdão de si mesmo e dos outros. E o padre Augusto Cima, 78 anos, manifesta-se muito crítico na falta de profissionalismo no acompanhamento dos doentes feito pelas estruturas católicas (o Dia Mundial do Doente foi assinalado Domingo passado) – ver no final ligação para uma entrevista na TSF.

Quando chega junto de uma das camas, o padre António Pedro ajoelha. Vai conversar com uma doente que chamara alguém da capelania do Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Durante dois ou três minutos permanece ajoelhado, pouco mais do que escutando, entre silêncios.

O pouco que vai dizendo aponta para o presente e o futuro, para a alta que estará próxima, depois de oito meses de internamento, tratamentos e outros sofrimentos. A cena inverte o quadro habitual. “Importa mais escutar Deus que está no outro do que catequizar sobre Deus ou catequizar o próprio Deus”, responderá, quando perguntado sobre tal gesto.

Nascido a 12 de Setembro de 1983, em Vizela (diocese de Braga), António Pedro Monteiro é padre do Sagrado Coração de Jesus (dehoniano) desde 26 de Setembro de 2010. Faz parte da equipa de três padres e um diácono que, diariamente, presta serviço de assistência religiosa, em nome da Igreja Católica, no maior hospital do país.

Uma semana antes de ter sido desafiado a fazer esse trabalho, em 2012, estava António Pedro na Madeira. Contactara todas as escolas da ilha, trabalhava num seminário, numa escola de enfermagem e num lar de idosos. Ao fim de dois anos, sentia que começava a “coser várias pontas”. Foi quando o superior provincial lhe confidenciou a possibilidade de um novo projecto pastoral: o patriarca D. José Policarpo pedira um capelão em Santa Maria, mas não sabia como responder. Nesse momento, nem um nem outro imaginavam que, três semanas depois, o diálogo ganharia um sujeito com António Pedro.

O outro como lugar teológico

Aqui está agora, de bata branca, acorrendo a quem chama – chegam à capelania uma média de 60 pedidos de assistência espiritual por semana. “No hospital, temos de ser não só antenas, mas patenas”, foi o que aprendeu na formação. “Se olhamos a pessoa doente como coitadinha e carente do que tenho para dizer-lhe, encaixamos no modelo anterior de assistência, que se propunha dar sacramentos e levar uma catequese preparada. Se trato a pessoa com dignidade e singularidade, e tento ver nela o rosto de Jesus, como propõe o texto de Mateus 25, então aprendemos que Deus está nessa fragilidade.” Mais do que ir junto dessa pessoa para falar de Deus, acrescenta, importa ter presente que se vai ter com o próprio Deus de Jesus: “A mim o fizestes.”


O outro como lugar teológico. Esse é um princípio muito negligenciado, diz. E que colide mesmo com modelos de formação do clero: “Os padres são formados para a liderança, para ter a última palavra.” Tudo ao arrepio do que é necessário no hospital. “Se não deixarmos esse modelo de autoridade, não conseguiremos a empatia necessária para que o doente se abra e inicie um processo de construção de saúde total, não só biológica, mas biográfica. Nem aprenderemos que o Deus de Jesus Cristo também é impotente e frágil como nós.”

É importante ver a pessoa para lá da doença: “Já chega ter uma instituição centrada na saúde dos órgãos. A pessoa é bem mais do que isso, tem uma vida inteira para narrar.” E isso não acontecerá se apenas se olhar para a doença como se fosse o centro da vida da pessoa doente.

O dia do padre António Pedro é passado entre a capelania (onde diariamente celebra a eucaristia), os corredores e as mais de mil camas das enfermarias. A escuta do outro – doentes, mas também funcionários, médicos, enfermeiros, auxiliares, familiares dos doentes – e a atenção à fragilidade de cada pessoa é o seu ministério essencial.

Numa das homilias recentes, comentava o episódio narrado por São Marcos, em que Jesus é chamado para curar a filha de Jairo e, no caminho, cura a mulher que tinha um fluxo de sangue: “Jesus age entre duas personagens femininas, entre uma idosa doente e uma adolescente moribunda… o trânsito de Jesus acontece no cúmulo da fragilidade (...) A re-lação, esse processo de não desistirmos dos laços, a fé, devolve saúde, devolve a vida na sua inteireza e coloca-nos no lugar onde Jesus gosta de estar: entre frágeis; entre semelhantes.”

(Algumas das suas homilias publica-as num blogue; por vezes, decide dar o púlpito aos Padres da Igreja. Como foi o caso de São João Crisóstomo, no final de Fevereiro, sobre a reconciliação: “Faz assim com os teus irmãos: logo que vejas que eles estão separados da tua amizade, apressa-te tu a tentar a reconciliação.”)

O fascínio pela Bíblia

O evangelista Marcos não surge aqui por acaso: “Gosto muito de ler Lucas e Marcos”, diz António Pedro. “Marcos é o evangelho da periferia, que demora em lugares fora do centro: Jesus escolhe morar em Cafarnaum, a Galileia praticamente passa ao lado da grande história de Israel.” À volta de Jesus, aparecem ainda, no relato de Marcos, os que estão “fora do centro: aleijados, cegos, paralíticos, todos os que não cumprem as prescrições alimentares nem as regras do culto.”

Ou seja: “Jesus escolhe e permite que o siga um grupo de desclassificados, sem lugar na cidade, na sociedade e na religião, em clara oposição a uma religião pura.” Mas, dois mil anos depois, “conseguimos converter o sonho de Jesus numa Igreja pura, muitas vezes em clara oposição a quem julga desclassificado”.

O fascínio pelo texto bíblico nasceu cedo: ainda criança, António Pedro acompanhava um tio, monge em Singeverga, que viajava pelo país, acompanhando grupos do Renovamento Carismático. “Ele incentivava as pessoas a ler a Bíblia e os documentos do Concílio Vaticano II.” António Fernandes, o tio monge, tinha uma forma de estar e celebrar próxima das pessoas que o sobrinho admirava. “Quis sempre ser como ele.” Aos seis anos, já dizia a toda a gente que queria ser padre. Os pais, ambos operários fabris, foram-se habituando à ideia...

A segunda escolha viria aos 12 anos, quando os dehonianos, num trabalho vocacional na escola que frequentava, o convidaram. A congregação foi sendo uma descoberta e uma integração natural, diz. “A vantagem é não termos um carisma vinculado a uma obra, mas estarmos disponíveis para servir onde for mais necessário, de forma cordial e próxima.”

O próprio fundador, o padre Léon Dehon (1843-1925), apesar de ter bebido do ultramontanismo francês, “percebeu a industrialização, a necessidade de cuidar dos operários, das crianças e famílias, apoiar os marginalizados e de ir além do assistencialismo, construindo com os patrões reflexão e modos de gestão com os critérios do pensamento social da Igreja”.

Na Perfectae Caritatis, o decreto do Vaticano II sobre a renovação da vida religiosa, António Pedro lê “frases ainda programáticas e não concretizadas: os religiosos devem voltar às fontes do evangelho e à intenção do fundador, que são sempre um ir para a margem”.

Contesta, por isso, ideias feitas: há poucas vocações? “Na Europa, o número é inferior a outros tempos, talvez por não levarmos a sério o estilo de vida ‘marginal’. A vida religiosa nasce como uma radicalidade. Não tenho de andar de tanga, mas estar num hospital pode ser um sinal dessa radicalidade.”

“A vida comunitária é um grande desafio. É o maior tesouro mas também a maior penitência”, diz uma frase que ouviu. E dá exemplos: ajustar feitios e sonhos, modos de pensar a teologia, formas de entender o outro – como “alguém a converter ou alguém que é o rosto de Jesus”... Por isso, os desajustes ou os adquiridos são quotidianos – como nas famílias. “O desafio é ser cada um a criar comunidade”, contra a solidão que hoje atravessa tantas casas de vida religiosa: “Por vezes, há gente mais amada fora da sua comunidade do que dentro.”

É essa solidão radical, extrema, que se encontra no hospital. Aí, a imagem que cada pessoa tem de Deus fica mais viva: a doença ainda é, para muitas pessoas, sinal de que Deus não gosta delas; para outras, é um presente que Deus dá aos seus amigos para os purificar, como se o Deus-Amor amasse só os purificados.

Cita, por isso, Arnaldo Pangrazzi, autor italiano que tem trabalhado na pastoral da saúde: “Debaixo da roupa estamos todos nus.” E explica: “Mais dos que buscar razões ou culpados da doença, importa reconhecermo-nos frágeis, carentes de outros, à semelhança do Deus de Jesus. Se a doença inaugura um processo de perdas, de abandono por Deus, no hospital é possível perceber essa ‘nudez’ comum a cuidadores e cuidados e anterior a qualquer religião. E construir um caminho de sentido, de integração da fragilidade, de devolução de saúde pela inteireza da vida, de perdão de si e de outros.”

Cicely Saunders, a “mãe” dos cuidados paliativos, dizia que “quando já não há nada a fazer, está tudo por fazer”. Para António Pedro, está tudo por fazer.

(Este texto foi publicado no número 357 da revista Bíblica, correspondente a Março-Abril 2015)

Palavras de um monge

Irmão Luc, monge e médico de Tibhirine: «Não tive muito na vida, mas sou feliz»

Paul Dochier, que se tornará irmão Luc, nasceu a 31 de janeiro de 1914, em França. Após os estudos em Medicina, entra, em dezembro de 1941, no mosteiro trapista (Ordem Cisterciense de Estrita Observância) de Aiguebelle.

Em 1946 parte para Tibhirine, na Argélia, onde durante 50 anos, até à sua morte, será responsável por um posto médico daquela região pobre e interior, realizando até 100 consultas por dia.

De 26 para 27 de março de 1996, Luc e os restantes seis membros da comunidade foram raptados, tendo sido encontrados mortos em maio desse ano.

A vida dos monges esteve na base do multipremiado filme “Dos homens e dos deuses”, realizado em 2010 pelo cineasta francês Xavier Beauvois.

Organizada por François Buet, a obra “Frère Luc – Moine et médecin à Tibhirine” (128 pp.), lançada em 2014 pela editora francesa Nouvelle Cité, permite ao leitor conhecer a fecundidade de uma vida aberta ao infinito e fraterna com a comunidade religiosa e a população muçulmana.

Apresentamos um excerto das 15 meditações incluídas no livro, extraído da tradução italiana.

Irmão Luc – Monge e médico em Tibhirine
Ed. Gribaudi (Itália)


Diante de Deus permanecemos na posição de mendigo. Os seus dons são perfeitamente gratuitos. Nenhum esforço e nenhum trabalho exigem uma retribuição da sua parte a título de justiça. Deus não nos deve nada. O mendigo de Deus abandona-se a este arbítrio divino, do qual depende inteiramente. O cristão assumirá a atitude do homem que, «tendo consciência da sua impotência para satisfazer as suas aspirações ao Reino de Deus», fica à procura de Deus em todos os encontros. A vida cristã não é posta em causa por causa de uma prestação bem conseguida. Depende da iniciativa divina. O mendigo de Deus nunca terá a sensação de ter chegado. Incessantemente, avança à procura de Deus. Assim aceitará sem rebelião os seus fracassos espirituais ou outros insucessos. Sem amargura nem adjetivações das suas falhas, o desencorajamento dificilmente o constrangerá. Compreende que a vida espiritual não é apropriar-se da virtude mas abrir-se ao enriquecimento divino. Nenhum método, nenhuma técnica e nenhuma arte nos trazem Deus se não aceitarmos ir com Ele, mendigando-o, e merecer a bem-aventurança «daqueles que têm uma alma de pobre».

A salvação vem-nos dos outros, que são para nós a presença de Deus que chama à vida. Se a fé salva é porque ela desvia o nosso olhar para um outro, e assim cria uma relação que nos arranca da nossa solidão mortal... Cada vez que deixamos a preocupação por nós próprios, substituindo-a pelas preocupações por outro, vivemos esta fé que é, talvez sem o sabermos, fé em Deus: «Perder a própria vida por Cristo»... Recebendo a vida dos outros, reencontramos a nossa verdade originária: não nos demos a nossa vida, querer poupá-la coloca-nos em contradição com a nossa criação. Se se quer ser feliz, vai-se direito à desilusão, à infelicidade. «Se queres ser feliz, torna alguém feliz!» O retorno do dom não depende de nós, e é aqui que se joga a fé, o salto no vazio... Não se trata de acreditar que o outro nos restituirá alguma coisa, que teremos uma recompensa – seria querer salvar a própria vida. Se o outro não responde, não tem nenhuma importância, é no próprio ato de dar que encontramos «a vida». Perder a própria vida: Cristo não existe para si próprio, e é por isto que nós encontramos a nossa salvação existindo para Ele; isto é, para os seus irmãos que são também os nossos.

Alegremo-nos por sermos pecadores, mas pecadores perpetuamente perdoados, perpetuamente levantados para lá do nosso pecado. O que descobrimos nas nossas confissões válidas é que errámos o pecado. A nossa verdadeira culpa não foram estes atos insípidos que nos eram servidos como passatempo; era preciso que enganássemos a nossa fome. A nossa verdadeira culpa foi não termos acreditado verdadeiramente na existência de alguém capaz de aplacar para sempre esta fome, de não ter ousado acreditar num amor que nos dispensasse de todas estas contrafações.

O monge não é alguém que converte – é uma testemunha: testemunha diante de Deus em nome do mundo do qual ele é como que a décima oferenda em holocausto ao Deus soberano, testemunha diante dos homens do primado das obrigações para Deus, da procura de Deus e da vida nele dentro de si. O seu testemunho é eficaz, mas desta eficácia ele não se preocupa, não a procura. Não testemunha, é testemunha pelo próprio facto de ser aquilo que é. O mundo é o que as grandes almas nele fazem, aquelas que, no fundo de si, chegaram até Deus. É realizando a paz em si que se realiza a paz no mundo.   dentro de si que se vencem os poderes das trevas que percorrem o mundo e o dominam.

Deus acompanha-nos para onde quer que vamos, mesmo no nosso vaguear, para nos fazer encontrar o caminho de saída. Deus não é contra nós mas connosco. Deus mesclado em nós para nos conduzir à nossa verdade (Espírito e Verbo) e ao nosso cumprimento. O Espírito é aquele que nos conduz à nossa forma definitiva... O essencial não é ter sucesso segundo os critérios da Terra, mas tornar-se um homem verdadeiro, um homem que sofre, mas repleto de alegria, criador de alegria. Não tive muito na vida, mas sou feliz. Tive a revelação da misericórdia de Deus e da amizade dos homens.

Tradução de Rui Jorge Martins para SNPC

Igreja é Comunhão

«Comunhão», um dos mais belos nomes da Igreja

Se nos pudéssemos lembrar sempre de que Cristo é comunhão ...

Ele não veio à Terra para criar mais uma religião, mas para dar a todos a possibilidade de uma comunhão em Deus. Os seus discípulos são chamados a, humildemente, ser fermento de confiança e de paz na humanidade.

Quando a comunhão entre os cristãos é uma vivência, e não uma teoria, transporta um brilho de esperança. Mais ainda: ela pode sustentar a indispensável busca da paz do mundo.

Assim sendo, como é que os cristãos podem continuar ainda separados?

A reconciliação dos cristãos é hoje urgente. Não pode ser eternamente adiada para mais tarde, até ao fim dos tempos.

Ao longo dos anos, a vocação ecuménica proporcionou partilhas extraordinárias. São as premissas de uma reconciliação. Mas quando a vocação ecuménica não se concretiza em comunhão, não leva a lado nenhum.

O Patriarca ortodoxo grego de Antioquia, Inácio IV, é o autor destas palavras impressionantes: «As nossas divisões tornam Cristo irreconhecível. Precisamos urgentemente de iniciativas proféticas que façam sair o ecumenismo dos meandros nos quais receio que se esteja a enterrar. Temos uma necessidade urgente de profetas e de santos que ajudem as nossas Igrejas a converterem-se através do perdão recíproco.» E o Patriarca apelava a que se «privilegiasse a linguagem da comunhão em vez da linguagem da jurisdição».

O papa João Paulo II, ao receber em Roma os responsáveis da Igreja Ortodoxa da Grécia, falava do «ecumenismo da santidade, que nos conduzirá por fim à comunhão plena, que não é nem uma absorção nem uma fusão, mas um encontro na verdade e no amor».

Na longa história dos cristãos, a certa altura, multidões de crentes deram por si separadas, por vezes sem sequer saberem porquê. Hoje é essencial fazer tudo para que o maior número possível de cristãos, frequentemente inocentes nessas separações, se descubram em comunhão.

Será que a Igreja pode dar sinais de grande abertura, tão grande que se possa constatar que os que no passado estavam divididos já não estão separados, mas vivem agora em comunhão?

Será dado um passo em frente quando se verificar que existe já uma vida de comunhão em alguns lugares do mundo. Será preciso coragem para o constatarmos e para nos adaptarmos. Os textos virão depois. Se privilegiarmos os textos, não acabaremos por nos distanciar da interpelação do Evangelho: «Vai primeiro reconciliar-te»?

São inúmeras as pessoas que desejam a reconciliação do fundo do coração. Aspiram a esta alegria infinita: um só amor, um só coração e uma só e mesma comunhão.

Sim, a comunhão é a pedra de toque. Ela nasce em primeiro lugar no coração de cada cristão, no silêncio e no amor. Começa, desde logo, no interior de cada pessoa.
Há cristãos que, sem esperar mais, vivem já reconciliados nos lugares onde se encontram, de forma muito humilde e simples.

Através das suas próprias vidas, gostariam de tornar Cristo presente para muitas outras pessoas. Sabem que a Igreja não existe para si mesma, mas para o mundo, para nele depositar um fermento de paz.

«Comunhão» é um dos mais belos nomes da Igreja: nela não há lugar para a brusquidão recíproca, mas apenas para a clareza, a bondade do coração, a compaixão...

Nesta comunhão única que é a Igreja, Deus dá-nos tudo para irmos às fontes: o Evangelho, a Eucaristia, a paz do perdão... E a santidade de Cristo deixa de ser inalcançável; está presente, muito próxima.

Permitam-me que volte a dizer que a minha avó materna descobriu, intuitivamente, uma espécie de chave da vocação ecuménica e que ela me abriu um caminho para a concretizar.

Depois da Primeira Guerra Mundial, habitava nela o desejo de que ninguém tivesse de viver aquilo que ela tinha vivido: na Europa, os cristãos tinham pegado em armas para combater uns contra os outros. Que ao menos eles se reconciliem para tentar impedir uma nova guerra, pensava ela. A minha avó era de origem evangélica mas, começando a reconciliação por si própria, começou a ir à igreja católica, sem, no entanto, romper com as pessoas da sua tradição.

Marcado pelo testemunho da sua vida, e ainda muito novo, encontrei a minha identidade de cristão seguindo as suas pisadas, reconciliando em mim mesmo a fé das minhas origens com o mistério da fé católica, sem quebrar a comunhão com ninguém.

Ir. Roger de Taizé
In "Não pressentes a felicidade?", ed. Paulinas
Publicado em Janeiro de 2015 in SNPC

Testemunhas de Jeová e a impossibilidade de um diálogo

As Testemunhas de Jeová, a transfusão sanguínea e a literalidade da interpretação bíblica

Elas apresentam-se com obstinação às portas de nossas casas (exemplares na sua perseverança), com a Bíblia numa mão e a revista "Sentinela" na outra: as Testemunhas de Jeová são uma presença efetiva no nosso horizonte religioso. E também aparecem nas colunas dos jornais quando um juiz retira um dos seus filhos menores à jurisdição paternal porque os seus pais recusam que seja praticada a transfusão sanguínea. Deixando de lado o valor do seu fundamentalismo bíblico e a sua longa história (desde o século XIX), quais são as principais reservas que os católicos lhes podem opor, reservas exprimidas sem demasiado pudor ecuménico?

Vou responder «sem pudor ecuménico» à questão porque o diálogo com as Testemunhas de Jeová está em crise devido à dificuldade em encontrar um ponto de vista comum. Imaginar a Bíblia como base para troca de perspetivas? É através desse caminho que se desenvolve o ecumenismo entre as diversas Igrejas e confissões cristãs. Mas também aqui as Testemunhas de Jeová colocam um obstáculo difícil de ultrapassar com uma questão de princípio e de método.

Impõem-se algumas explicações. Muitos estão persuadidos de que se trata de um problema de tradução bíblica mais ou menos manipulada, argumento com algum fundamento. As Testemunhas partem desde logo de um elemento injustificável com o seu próprio nome, porque "Jeová" é uma aberração linguística que supõe transcrever o nome divino "Jhwh", que os judeus substituíam por "'Adonai", "Senhor", para evitar pronunciá-lo (a pronunciação mais antiga era, provavelmente, "Jahweh").

Além disso, a versão bíblica italiana das Testemunhas de Jeová baseia-se no inglês, e não no original hebraico e grego. Não há nenhum especialista qualificado e rigoroso em exegese bíblica nas Testemunhas de Jeová. Por isso, há numerosas modificações discutíveis nos textos. Por exemplo: «Tomai e bebei. Isto "significa" o meu corpo» (há aqui uma interpretação livre do texto original).

Poderíamos multiplicar os exemplos destes "retoques" em traduções de qualidade menor, mesmo na versão americana, base das outras versões. A verdadeira questão, todavia, não reside aqui: as Testemunhas têm um método de leitura que é inaceitável logo à partida. Trata-se do "fundamentalismo" que nós evocámos [cf. tópico "Questões de fé para crentes e não crentes"].

Recordemos os princípios dessa leitura fundamentalista. Ao ignorar que a Bíblia, Palavra de Deus, se exprime através de palavras humanas e está ligada a uma história, uma cultura, um tempo, um meio humano e ao seu desenvolvimento (por outras palavras, está ligada à incarnação), as Testemunhas limitam a sua leitura à ressonância das palavras, em vez de acolher o valor que elas têm.

Não é difícil demonstrar que o número 12 na linguagem semita é um símbolo de plenitude e 1000 é a imensidão; os 144 000 eleitos do Apocalipse (7, 4) são uma alusão às 12 tribos de Israel que chegaram à plenitude, o povo de Deus que alcançou a salvação definitiva, enquanto que as Testemunhas de Jeová o entendem como o número real e matemático dos eleitos.

Esta leitura literal e fundamentalista da Bíblia pode ter consequências muito graves, apesar da boa fé de quem a recebe; pense-se na interdição da transfusão sanguínea. É verdade que no Antigo Testamento se encontra a interdição de tocar e de "comer" o sangue de uma criatura viva; contudo, na linguagem e cultura do Oriente, o sangue era o sinal da vida, realidade intangível e marcada pelo selo divino (cf. Génesis 9, 6 ou Levítico 17, 10-14). A interdição não é mais do que o respeito e a proteção da vida, qualquer que seja. A transfusão protege e favorece precisamente a vida, evidência paradoxalmente negada por uma leitura literal ou fundamentalista que teme infringir o preceito bíblico.

Sem eufemismo, as Testemunhas de Jeová, que conhecem muitas vezes a Bíblia de maneira aproximativa, selecionam as passagens segundo o seu interesse. Para serem coerentes, seria necessário que dessem uma interpretação literal aos textos violentos, poligâmicos e datados (como o geocentrismo) das Escrituras.

Na maior parte dos casos, elas servem-se de um número restrito de citações isoladas, tiradas do seu contexto, e, de acordo com as necessidades, interpretadas livremente, e já não de maneira literal. Por exemplo, no Génesis (1,1): «No princípio, Deus criou o céu e a terra». Aos seus olhos, o céu é uma metáfora que evoca a revolta dos anjos suscitada por Lúcifer, enquanto que a terra designa metaforicamente Adão e Eva. É uma leitura confusa e embrulhada, tão rígida como evanescente e alegórica, que ignora a sucessão dos textos, os desmembra e os reúne de acordo com as necessidades.

Só é possível sorrir ao ver a junção de três passagens autónomas e de épocas diferentes, o livro de Daniel (4, 7-23), o Apocalipse (12, 6.14) e o livro de Ezequiel (4, 6), para justificar o ano de 1914 como o do fim do mundo - data prolongada com outros estratagemas de interpretação, a fim de salvar a face.

Com tal escolha de princípio e de método, é muito difícil, para não dizer impossível, dialogar de maneira construtiva, tanto ao nível dos fiéis como ao nível dos biblistas sérios, católicos, ortodoxos, protestantes ou laicos.

Card. Gianfranco Ravasi
Biblista, presidente do Pontifício Conselho da Cultura
Publicado em SNPC

sexta-feira, 6 de abril de 2018

O que procuras?

Quando nos aproximamos de Deus, temos de clarificar o que procuramos

Um vizinho encontrou o Sr. Simão de gatas, em plena rua, à procura de alguma coisa no chão. «Que procuras, amigo?» Simão, erguendo o olhar como quem pede ajuda, respondeu: «A minha chave. Perdi-a». Por isso o bom vizinho ajoelhou-se ali mesmo e os dois puseram-se à procura da chave perdida. Passado largo tempo, o vizinho perguntou-lhe: «Onde a perdeste?». Simão, quase como se se desculpasse, com uma voz que saía para dentro, respondeu: «Dentro de casa». «Santo Deus! Então porque é que andamos à procura no meio da rua?» «Porque aqui há mais luz» (tomado com alguma liberdade criativa de Anthony de Mello, “O canto do passáro”).

É uma verdade bastante óbvia, mas estou convencido de que não só é importante saber o que estamos à procura, como também ter claro onde o fazer; quando queremos aproximar-nos de Deus temos de clarificar primeiro o que é que procuramos, o que é que queremos dele; por que o invocamos, o que lhe pedimos... Mas isto não basta. Também é importante definir muito bem onde o vamos procurar; porque pode ser que haja lugares aparentemente iluminados que nos parecem mais próprios para encontrar Deus; e, todavia, Ele pode estar à nossa espera noutro lugar menos luminoso, como a nossa vida normal e quotidiana.

Costumo começar a experiência dos Exercícios Espirituais perguntando às pessoas «o que procuram?», porque me parece fundamental que cada uma estabeleça o seu próprio encontro com o Senhor esclarecendo, para si mesma, o que a leva a procurá-lo. As motivações que se desvelam diante de nós são muito variadas e, muitas vezes, contraditórias. O milagre que essa experiência realiza é muito simples: quando aclaramos o que procuramos, quando dizemos que procuramos Deus, então começa a concretizar-se o lugar onde o devemos procurar.

Uma pergunta como esta foi a que Jesus lançou um dia a dois dos discípulos de João Batista, que o seguiam pelo caminho: «Que procurais?» Eles disseram: «Mestre, onde vives?». A resposta foi: «Venham e vejam». A Igreja propõe-nos este texto do Evangelho porque quer suscitar em nós a fome do encontro com Deus e o desejo de saber mais dele. Peçamos-lhe (...) que Ele nos mostre onde vive, para que o conheçamos cada vez mais, para que mais o amemos e o sigamos nas nossas vidas. O importante é não acabarmos como o protagonista da história, procurando onde Ele não está.

P. Hermann Rodríguez Osorio, S.J.
Decano da Faculdade de Teologia da Pontifícia Universidade Xaveriana, Bogotá, Colômbia
In "Periodista Digital"
Tradução e edição de Rui Jorge Martins
Publicado em 22 de Janeiro de 2015 in SNPC

terça-feira, 3 de abril de 2018

Discípul@s de Jesus

Somos chamad@s a ser fecund@s

Queridos irmãs e irmãos

Hoje, neste passo do Evangelho de S. João que proclamamos, aparece-nos uma interpretação da palavra “discípulo” que é importante nós tomarmos para a nossa reflexão. Porque nós damos por descontado que somos discípulos de Cristo, porque o nosso próprio batismo tornou-nos isso. Consideramos o discipulado como a categoria de base, a categoria que é ponto de partida.

Esse entendimento continua certo, há que dizê-lo. Antes de toda a nossa ação, todo o nosso mérito, de toda a nossa construção, nós somos em Cristo. Recebemos a Sua força, o Seu vigor, é Ele que nos ilumina, recebemos a Sua graça, a Sua presença nas nossas vidas. De maneira que nós somos à partida discípulos de Cristo. Mas há um outro entendimento que emerge das palavras do Senhor que hoje escutamos. Esse entendimento coloca o termo “discípulo” não como ponto de partida, mas como ponto de chegada de uma vida que tudo faz, que em tudo se empenha, que se compromete autenticamente para se tornar uma vida semelhante à de Jesus.

Nós não somos discípulos porque começamos um caminho. Nós somos discípulos porque ao longo do nosso caminho, um caminho necessariamente demorado, complexo, paciente, um caminho necessariamente feito de tantos, de múltiplos recomeços, a verdade é que, no final desse caminho, há alguma coisa em nós que sem palavras nos liga à pessoa de Jesus, à lição de Jesus, ao modelo de Jesus. Então é a forma de viver, é a modalidade da nossa própria existência, é a forma, a configuração que damos à vida que nos faz ou não ter este nome de discípulos de Cristo.

Só numa vida de permanência em Jesus e numa vida fecunda nós podemos dizer que somos discípulos de Cristo. Esta dupla aceção que a palavra “discípulo” tem no discurso do Senhor introduz, sem dúvida, uma tensão na nossa vida. Não podemos estar parados, não podemos estar de braços cruzados a achar que tudo está adquirido, e que basta o que temos, e que podemos estar satisfeitos com o que fazemos.

Nós somos chamados, na Páscoa de Jesus, a um sobressalto, a uma transformação. A vida não pode ficar a mesma. Nós somos chamados a dar fruto, somos chamados a uma fecundidade interior. Que só vem também quando nos dispomos, verdadeiramente, a multiplicar os talentos, a dar outros passos, a abrir as nossas mãos, a adensar a nossa experiência espiritual. Somos chamados a ser fecundos. Como diz o Senhor: “A glória do Meu Pai é que deis muitos frutos.”

Num domingo como este, o V domingo da Páscoa, em que a questão é o fruto, que fruto nós damos? Qual é a fecundidade das nossas vidas? A nossa fé serve para quê? Enche o nosso coração de que coisas? Num domingo como este, em que esta é a questão decisiva das leituras da palavra de Deus, é muito importante que cada um, no seu coração, possa de facto sentir que somos chamados a passar da escassez e da retenção à multiplicação da vida. Que não podemos estar a diminuir, a subtrair o significado da vida, mas todos nós somos chamados a multiplicar a vida que nos é dada. E multiplicar a vida é torna-la fecunda, é sentir que a nossa participação em Cristo atua em nós muito fruto. Fruto de vida.

É interessante que nas Cartas de S. João nós temos um critério muito prático, mas também muito seguro, do ponto de vista espiritual, para olharmos e fazermos um balanço, um exame de consciência da nossa vida. A Carta de S. João coloca, de facto, o centro deste balanço naquilo que diz o nosso coração. O que é que me diz, hoje, o meu coração em relação à minha vida? Ele pede-me mais? Ele pede-me outras coisas? O meu coração está em paz com a vida que eu vivo? Se o meu coração tem reivindicações, se o meu coração me põe perguntas, se o meu coração me pede mais eu tenho de ouvi-lo. Eu tenho de ouvi-lo. O critério numa vida espiritual é: há paz no teu coração? Há paz nessa consciência que é o santuário íntimo onde o homem e a mulher se encontram com Deus?

Eu estou em paz ou sinto que estou parado, ou sinto que faço pouco, sinto que fico aquém, sinto que não dou o fruto que podia dar? E se eu sinto essa insatisfação em mim, eu tenho o dever de escutá-lo, tenho o dever de escutá-lo. Porque é pelo meu coração que Deus fala. É pelo meu coração, antes de tudo, que Deus fala. Eu posso ouvir muitas coisas e isso ser importante, mas a grande mensagem de Deus é-me dita pelo meu coração. Se o nosso coração não tem paz, temos de tomar a sério, temos de colher as implicações, temos de fazer um discernimento. Sabendo que, mesmo quando o nosso coração é pequeno e pobre, Deus é sempre maior que o nosso coração. Deus pode tornar sempre maior o nosso coração.

Nesse sentido há aqui uma confiança fundamental que é preciso trabalhar ao mesmo tempo que trabalhamos o nosso sentido de justiça, de autenticidade, de verdade.

Porque, como diz a Carta de S. João, não podemos ficar a amar Jesus e a amar os irmãos, não podemos ficar apenas a ser discípulos de Jesus por palavras e pela língua, temos de o ser também pelas obras. E todos sabemos como isso é mais difícil. É muito mais fácil dizer que sim e depois logo se vê, se sim se não. Outra coisa é ter a vida hipotecada à palavra do Senhor. Sentir, no fundo do coração, que nos entregamos, que nos damos e que concretizamos, que fazemos, que praticamos a Ressureição, que praticamos a fé na Ressureição. Não é apenas uma verdade que anunciamos mas é uma verdade que praticamos. Torna-se não apenas uma ortodoxia, mas também uma ortopraxia, a Páscoa de Cristo, porque nos empenha a fazer coisas.

Aqui é importante sabermos que não há obstáculos, que ninguém está excluído desta tarefa de tornar fecunda a vida, uma vida multiplicada pelo espírito do Ressuscitado.

O exemplo que os Atos dos Apóstolos hoje nos dão é do apóstolo Paulo. Ele que era o rival, ele que era o inimigo, ele que era o perseguidor torna-se o vaso de eleição. Deus pega nele e transforma-o, e torna-o um braço da Sua videira, torna-o um lugar onde a vida acontece, onde a vida jorra, torna-o uma nascente de vida. Por isso nenhum de nós pode dizer: “Ah, estou já demasiado estéril”, “Já é demasiado tarde” ou “Nunca vou chegar isso.” Não, todos somos chamados, permanecendo em Cristo, a dar esse fruto. É o próprio Espírito que conspira com a nossa fragilidade para que essa fecundidade aconteça nas nossas vidas.

Queridos irmãs e irmãos, neste tempo santo da Páscoa nós não estamos apenas a celebrar a Ressurreição de Jesus, nós estamos a celebrar a nossa ressurreição. Estamos a colocar aqui sobre a mesa, como assunto, como questão a ressurreição das nossas vidas, a transformação das nossas vidas.

Esta transformação não é uma utopia, não é apenas uma questão de palavra ou de fé, é uma questão de prática. O que é uma vida ressuscitada? O que é uma vida nova?

Penso que as duas grandes palavras de Jesus que nos aparecem no Evangelho são palavras que temos, de facto, de levar para as nossas vidas. Uma palavra é: permanecer. O desafio a permanecer. “Permanecerei em Mim e eu permanecerei em vós.” Este desafio a radicar, a esconder, a colocar, a ligar a nossa vida à vida de Cristo. E a outra palavra é a palavra “fecundo”, o dar fruto. Há uma exigência que é feita aos discípulos do Senhor. Nós temos de merecer também esse nome. Esse nome é um dom mas também é uma tarefa, também é uma missão. Merecer o nome de discípulo de Jesus.

Acreditemos, queridos irmãs e irmãos, que não há nome mais belo que nós possamos conquistar, não há título de maior luminosidade que nós possamos ganhar na nossa vida do que a de termos sido e a de sermos humildes e fiéis discípulos de Jesus.

Pe. José Tolentino Mendonça, V Domingo da Páscoa

O túmulo vazio

Domingo de Páscoa, ou o Túmulo Vazio

Há quase dois mil anos, numa madrugada de domingo em Jerusalém, três mulheres iam a caminho de um sepulcro recentemente talhado na rocha. Estavam muito preocupadas: como remover a enorme pedra que fora utilizada para fechar a sepultura? Já nascera o sol e elas levavam consigo perfumes que tinham comprado para embalsamar o morto. Esta etapa do rito fúnebre estava deslocada da ordem correta, pois o que teria sido normal era que tivessem embalsamado o morto antes de fecharem a sepultura com a pedra. Mas não aconteceu assim. O sepultado tinha morrido (e de morte bem cruel) quando estava para começar o sábado judaico. Não houvera tempo para tratar o seu corpo com perfumes.

Ao chegarem ao túmulo, as mulheres viram, com espanto, que alguém já removera a pedra. Entraram dentro do túmulo: e foi aí que ficaram apavoradas. O morto tinha desaparecido. Lá dentro, estava sentado um jovem, vestido de branco, que elas não conheciam. O jovem diz às três mulheres: “é Jesus, o Nazareno, que procurais, o crucificado? Ressuscitou. Não está aqui” (Marcos 16:6). O jovem recomenda às três mulheres que vão dizer a Pedro e aos outros discípulos que Jesus foi à frente, rumo à Galileia: na Galileia é que eles o verão. As mulheres fogem do sepulcro, dominadas por um misto de tremor e de tresloucamento (a palavra grega é “ékstasis”, donde vem a nossa palavra êxtase). Só que elas não obedeceram às instruções dadas pelo jovem. Na verdade, aquelas mulheres “nada disseram a ninguém. Tinham medo, pois” (Marcos 16:8).

É nestes termos que o mais antigo relato da ressurreição de Jesus nos descreve o momento arrepiante em que Maria Madalena, Maria (mãe de Tiago) e Salomé depararam com o túmulo vazio. O Evangelho de Marcos termina assim, no ar, como que (musicalmente falando) em cadência interrompida. É sabido que, posteriormente, cristãos anónimos, insatisfeitos com este final abrupto, trataram de escrever mais umas frases em jeito de continuação, também para que o final do Evangelho de Marcos condissesse com o final dos outros três Evangelhos canónicos, em que os discípulos têm “experiências imediatas” de Jesus ressuscitado, nas quais Jesus conversa (e até come) com eles.

As palavras proferidas por Jesus ressuscitado e as circunstâncias em que essas palavras são ditas (que desmentem, no caso de Lucas, o que o jovem vestido de branco diz às mulheres no Evangelho de Marcos) apresentam diferenças significativas quando comparamos os Evangelhos. Diferenças que levantam obrigatoriamente perguntas e nos obrigam a pensar.

A pergunta mais imediata é imensamente sugestiva para todos aqueles agnósticos que, como eu, se interessam pela fascinante figura histórica que foi Jesus de Nazaré; e deveria ser basilar para crentes que veem n'Ele o Filho de Deus. E a pergunta é esta: qual é o grau de fidedignidade dos relatos que lemos nestes quatro Evangelhos a respeito da ressurreição de Jesus? Todos eles falam num túmulo vazio. Mas donde lhes veio essa informação? Já mencionámos que Marcos, que redigiu o mais antigo relato que conhecemos sobre o túmulo vazio, nos diz que as supostas testemunhas oculares (as três mulheres) ficaram tão apavoradas que não contaram nada a ninguém.

Ora em nenhum momento do seu Evangelho nos é dito por Marcos que ele, o evangelista, presenciou pessoalmente aquilo que nos está a narrar. O mesmo vale para Mateus e para Lucas. Também é facto que, se os três se arrogassem o estatuto de testemunhas oculares, ainda maiores seriam as nossas dificuldades com estes textos fundadores do Cristianismo. É que os relatos dos evangelistas não são coincidentes. E se há quatro versões distintas, a lógica mais básica impede-nos de aceitar que as quatro possam ser verídicas. Podem estar as quatro erradas. Mas não podem é estar todas certas.

Em Lucas, tal como em Marcos, temos como testemunhas Maria Madalena e Maria (mãe de Tiago); mas Lucas não as faz acompanhar por Salomé, como em Marcos, mas sim por uma tal de Joana. Além destas três mulheres, há outras (não nomeadas) que estão também com elas. Este “coro trágico” de mulheres é exclusivo do Evangelho de Lucas. Em vez de elas verem um jovem sentado dentro do túmulo, estas mulheres descritas por Lucas veem dois homens. Estão vestidos de trajes resplandecentes e dão às mulheres a notícia fulminante de que Jesus ressuscitou. Tal como as mulheres em Marcos, as do Evangelho de Lucas também ficam apavoradas. Mas ao contrário do que fazem as duas Marias e Salomé em Marcos, em Lucas as mesmas Marias e Joana contam tudo aos apóstolos.

No entanto, estes não lhes dão crédito e (de forma bastante machista) acham que elas estão a dizer uma “parvoíce” (Lucas 24:11). Pedro, porém, não deve ter achado as mulheres assim tão parvas: levanta-se e vai a correr até ao sepulcro, para ver o que se passa com os seus próprios olhos. Olha lá para dentro e não vê nada. Só vê, abandonadas, as ligaduras com que o corpo de Jesus tinha sido envolto aquando da sepultura.

Consideremos agora o relato de Mateus: no caso deste Evangelho, são só duas as mulheres que chegam ao túmulo no domingo de manhã. São as nossas já conhecidas Marias (a Madalena e a mãe de Tiago). Unicamente neste Evangelho, dá-se um sismo. As duas Marias veem então um anjo do Senhor “com aspeto de relâmpago” (Mateus 28:3). Os guardas que estão a guardar o túmulo ficam “como mortos” (estes guardas só existem no Evangelho de Mateus; mais nenhum evangelista os refere). O anjo informa as duas mulheres que Jesus ressuscitou. Elas saem depressa, eufóricas de alegria (e não apavoradas, como em Marcos e Lucas).

De repente, acontece uma coisa com que nem Marcos nem Lucas tinham sonhado: aparece-lhes Jesus em pessoa. Diz-lhes “não temais” (embora elas não estivessem com medo) e dá-lhes a incumbência de transmitir aos “irmãos” Dele a mensagem de que devem ir até à Galileia: será na Galileia que o contemplarão. E assim acontece em Mateus e em João (mas não em Lucas). Repare-se que, no Evangelho de Mateus, nenhum discípulo de Jesus (nem sequer Pedro) vai ao túmulo para ver, com os próprios olhos, o que se passou: mas isso sucede (como referimos) em Lucas. E acontece também em João.

É no Evangelho de João que encontramos o relato mais divergente sobre as circunstâncias relativas ao túmulo vazio. A diferença fulcral é que só neste Evangelho nos é dito que o autor do texto viu com os seus próprios olhos aquilo que está a descrever. João afirma categoricamente que viu o túmulo vazio: foi o primeiro a vê-lo, aliás (João 20:8), antes mesmo de Pedro. No Evangelho de João, as três mulheres (que vão ao túmulo em Marcos e Lucas) e as duas mulheres (de Mateus) estão agora reduzidas a uma só: Maria Madalena.
Madalena é o verdadeiro denominador comum dos quatro relatos sobre o túmulo vazio. É ela que chega sozinha ao túmulo no domingo de manhã: ainda estava escuro (contrariamente ao que nos diz Marcos, que afirma explicitamente que já nascera o sol). Ao ver a pedra removida da entrada, Madalena desata a correr. Vai dar logo a notícia a Pedro e ao discípulo “que Jesus amava” (João 20:2), que, por sua vez, se põem também a correr. Vão todos em alvoroço até ao túmulo, mas quem corre mais depressa é o próprio autor do Evangelho, o discípulo amado. É ele que chega primeiro ao túmulo. Espreita lá para dentro e vê os panos depostos. Pedro chega logo de seguida e entra no túmulo. O discípulo amado entra atrás dele. “Viu e acreditou”.

Quando, muitos anos mais tarde, o discípulo amado escreveu o seu Evangelho, comentou a propósito deste momento que nem ele nem Pedro tinham compreendido o que tinham diante dos olhos, pois “ainda não conheciam a passagem da Escritura, segundo a qual Ele tinha de ressuscitar dos mortos” (João 20:9). Nós, leitores modernos, podemos considerar perdoável este alegado desconhecimento da Escritura por parte dos dois discípulos, atendendo ao facto de em nenhuma passagem do Antigo Testamento se encontrar escrita noção semelhante.

Pedro e o evangelista voltam “para junto dos seus” e só Madalena fica sozinha a chorar no exterior do túmulo. Por entre as lágrimas, ela espreita lá para dentro e vê dois anjos sentados. Os anjos (que tinham acabado de descer do céu, ou então eram visíveis apenas para Madalena, já que Pedro e João não os tinham visto) dão-se conta do choro dela e perguntam-lhe porque está a chorar. Madalena responde “porque levaram o meu Senhor e não sei onde o puseram”. Madalena volta-se depois para trás e, nas palavras do evangelista, vê Jesus sem saber que era Jesus. Também Ele lhe pergunta a razão do choro. Julgando estar a falar com o jardineiro, Madalena pergunta-Lhe (num momento de subtil ironia poética digna da tragédia grega) se foi Ele que levou o corpo d'Ele. Jesus diz o nome dela: “Maria!”
É nesse momento (supremamente arrepiante mesmo para quem já leu o Evangelho de João centenas de vezes) que Madalena percebe.

A propósito das descrições divergentes do que se passou no túmulo vazio, dissemos acima que, quando temos quatro relatos que não coincidem sobre determinada realidade, somos impedidos pela lógica mais básica de aceitar que os quatro possam ser simultaneamente verídicos. Ou bem que estava um jovem sentado dentro do túmulo vazio (Marcos), ou dois homens (Lucas) ou um anjo (Mateus) ou dois anjos (João). Ou bem que foram três mulheres ao túmulo (Marcos e Lucas), duas mulheres (Mateus) ou só uma mulher (João). Estas personagens não cabem todas dentro e à porta do túmulo ao mesmo tempo. E mesmo que decantássemos a questão de modo a nos focarmos só na oscilação entre uma figura masculina (jovem ou anjo) e duas figuras masculinas (homens ou anjos), mesmo assim não faz sentido admitirmos que ambas as versões possam ter validade equivalente. Aceitando como realidade factual que Jesus foi crucificado numa sexta-feira da década de 30 do século I da nossa era e que, no domingo de manhã, o túmulo, onde tinha sido colocado o cadáver, estava vazio, temos de perguntar: o que aconteceu nessa sexta-feira? O que aconteceu nesse domingo de manhã? Qual será a verdade da ressurreição de Jesus? Qual será a verdade do túmulo vazio?

A resposta do crente é – claro está – a própria crença, território que não me compete pisar. O ateu encontrará talvez uma explicação racional no boato que Mateus pretende combater no final do capítulo 27 do seu Evangelho: os discípulos fizeram desaparecer o corpo de Jesus, de modo a dar a ilusão de que tinha ressuscitado. O túmulo estava vazio porque o corpo fora propositadamente removido.

Para aqueles que, como eu, não são crentes nem ateus, mas que leem de espírito aberto estes textos indispensáveis, constituirá porventura ressurreição suficiente o facto de, neste mundo onde Jesus de Nazaré morreu, podermos afirmar que, bem vistas as coisas, Ele afinal não morreu. Porque a verdade é esta: tanto crentes como não-crentes andaremos às voltas com Jesus nas nossas cabeças, enquanto houver seres humanos na Terra.

Frederico Lourenço, in Facebook

Sepultar Jesus, a visão de um agnóstico

Sepultar Jesus

O problema da celebração da Páscoa para o agnóstico é a terceira das suas três etapas (sendo elas: crucificação; deposição no túmulo; ressurreição).

Para quem prefere manter uma posição distanciada relativamente ao modo como o Novo Testamento narra a biografia de Jesus, custa aceitar a ideia de que o homem a quem injustamente torturaram e mataram supera milagrosamente o horror do que lhe aconteceu ressuscitando ao terceiro dia.

O horror da última sexta-feira da sua vida é crível: é 100% consentâneo com o horror da realidade humana. O sentimento (de perda, de exaustão emocional e de infinita tristeza) vivido pela mãe do defunto e pelos seus amigos é compreensível, necessário e intensamente humano. O que acontece de sábado para domingo – o inexplicável regresso à vida depois da morte – obriga a um salto de raciocínio que a Razão trava à partida. Só podemos aceitar a ideia de que à morte se segue a vida (ainda para mais eterna) se aceitarmos que isso só pode fazer sentido num plano irracional.

Mas permaneçamos no terreno do racional. O Evangelho de Mateus (27: 57) conta como um homem de Arimateia chamado José se dirigiu a Pilatos e obteve dele a permissão para enterrar o corpo de Jesus. “E levando o corpo” (escreve o evangelista) “José envolveu-o num pano de linho lavado e depô-lo num túmulo recente, que mandou cavar na rocha”. O laconismo discreto das palavras de Mateus não deixa espaço para a consideração do estado emocional de José; das duas mulheres (ambas de nome Maria) que o evangelista inclui neste episódio diz-se apenas que ficaram sentadas em frente do sepulcro. Mas facilmente conseguimos imaginar o estado de espírito com que permaneceram ali sentadas: esse estado de choque, decorrente do luto profundo, foi descrito por um poeta em Roma mais ou menos na altura em que Jesus teria 8 anos de idade. A mulher enlutada descrita por esse poeta queda-se, imóvel, com o rosto pálido e sem pinga de sangue, com os olhos parados e a língua congelada dentro da boca (Ovídio, Metamorfoses 6, 303-6). O horror daquilo a que as duas Marias tinham assistido no lugar chamado Gólgota outra coisa decerto não permitiria.

Quanto às emoções de José de Arimateia, essas só 1700 anos depois é que encontrariam quem as soubesse intuir e descrever. Não apenas por palavras, mas acima de tudo por música. “Quero ser eu a enterrar Jesus” canta o solista da última das quatro árias para Baixo da “Paixão Segundo São Mateus” de Johann Sebastian Bach. “Faz-te puro, meu coração”.

Que sentido tem esse “quero ser eu a enterrar Jesus?” De que serviu declarar isto numa igreja em Leipzig mais de 1700 anos após o acontecimento? E de que servirá hoje, quase 2000 anos depois, a um ex-católico como eu a ideia de que continua válido o sentimento de responsabilidade individual experimentado por José de Arimateia no enterro de Jesus? Quero ser eu a enterrar Jesus porquê? Que significado tem para mim esse gesto?

Para o agnóstico, a acção de José de Arimateia – o Enterro de Jesus – é justamente o momento da história pascal que mais apela à sua participação. Se eu tenho dúvidas de que Jesus tenha sido filho de Deus, se eu não sei se existe Deus (embora intua irracionalmente que Ele existe), não me fará sentido a “forte união ao sacrifício de Cristo na cruz” (que, já agora, um padre católico me recomendou em tempos como “cura” para a homossexualidade). Muito menos me fará sentido a ressurreição.

Sepultar Jesus é outra coisa. É um gesto de desvelo, de homenagem a este homem que poderá (ou não) ter caminhado sobre a água, que terá conseguido (ou não) restituir a visão aos cegos e que terá feito (ou não) a multiplicação de pães. Foi um homem que morreu traído por um amigo e renegado por outro; foi um homem que teve a coragem de criticar fariseus, de escorraçar vendilhões e que afirmou “amém vos digo que dificilmente um rico entrará no reino dos céus” (Mateus 19: 23). Pregou o amor ao próximo, chamou “filhos de Deus” aos que promovem a paz e prometeu o “reino dos céus” aos que sofrem perseguição por causa da justiça.

Dar, como José de Arimateia, enterro condigno a este homem é – independentemente da religião que se formou em seu nome – homenagear o melhor que existe na natureza humana. Ao mesmo tempo, é voltar ao minuto zero, ao pré-Cristianismo, antes de Jesus ter (ou não) ressuscitado dos mortos: é voltarmos atrás na História, ao último momento em que nos podemos concentrar apenas nele – na sua vida e na sua morte. Antes da sua ressurreição. Antes de outros se terem interposto entre ele e nós e antes da fixação da igreja na figura mediadora de Maria. Pois este momento da deposição no túmulo permite-nos esquecer tanto São Paulo como todos os protagonistas vindouros das lutas assassinas entre seitas cristãs; permite-nos esquecer Constantino, Justiniano, os Reis Católicos, Luís XIV, D. João V, Pinochet e todos os outros ditadores e bilionários a quem a acomodatícia igreja de Cristo sancionou o devaneio de que professavam uma religião inspirada na vida de Jesus; permite-nos esquecer papas e inquisidores, católicos e luteranos, ortodoxos e calvinistas. Permite-nos esquecer dogmas e concílios, teólogos e missionários, conversões forçadas e autos-de-fé, Fátima e outras árvores-das-patacas similares.

Estarmos, uma vez por ano, ao lado de José de Arimateia a enterrar Jesus (e a sentir o luto intenso pela sua morte tão injusta) é homenagearmos a vida dele. E homenagearmos a vida de Jesus é o primeiro passo na percepção de que, em última análise, somos nós que podemos (por meio da forma como vivemos a nossa própria vida) assegurar que a vida admirável deste admirável defunto não tenha sido vivida em vão.

Frederico Lourenço, in Facebook

Arvo Pärt, um místico de hoje: uma breve introdução à sua obra

Arvo Pärt, ou a música da identidade do cristianismo

É um profundo louvor da palavra e da sua meditação em forma de música, esta Passio Domini Nostri Jesu Christi Secundum Joannem, ou Passio, na versão abreviada. A obra do estoniano Arvo Pärt prende-nos desde o clamor inicial, com a formulação do título. A partir daí, e até ao “Amen” final, a peça vai-se tecendo numa densa narrativa do sofrimento e da paixão, história definidora do cristianismo e da sua identidade – o sofrimento que se transfigura na plena doação, a paixão que se concretiza como redenção.

Ao contrário de outras peças musicais que narram ou se fundamentam na mesma história (como as de J.S. Bach, Heinrich Schütz, Stolzel, Homilius ou Buxtehude, por exemplo – ver nota e ligações no final deste texto), e nas quais a construção musical é obviamente fundamental, esta peça de Pärt tem o seu centro na palavra, na história narrada e contada de geração em geração desde há vinte séculos – uma história que viria a tornar-se central para tantos homens e mulheres e para o próprio devir da humanidade. Cantada em latim, a obra ganha uma emoção plena, que se transfigura também numa intensa perturbação, dimensões às quais a interpretação dos Hilliard Ensemble não é estranha.

Arvo Pärt foi um dos três vencedores da edição de 2017 do Prémio Ratzinger de teologia, uma distinção atribuída pela Fundação Joseph Ratzinger-Bento XVI, em Setembro do ano passado, e entregue pelo Papa Francisco em Novembro – e um pretexto para (re)encontrar algumas etapas da sua obra. Na ocasião do anúncio do prémio, o cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício da Cultura, considerou o músico nascido na Estónia, em 1935, como sendo talvez o maior compositor vivo. E, quando entregou o prémio, o Papa Francisco enalteceu o facto de a distinção ter sido alargada às artes – uma ideia que considerou corresponder “bem à visão de Bento XVI, que muitas vezes nos falou de modo tocante da beleza como via privilegiada para nos abrir à transcendência e encontrar Deus”. E de quem, acrescentou, “admirámos a sua sensibilidade musical e o seu exercício pessoal de tal arte como via para a serenidade e para a elevação do espírito”.

Desde a sua revelação com Tabula Rasa, na ECM (1984), que o trabalho de Pärt traduz também, há muito, essa sensibilidade de fazer da arte e da música uma via para a serenidade e a elevação do espírito. Numa obra recente, The Deer’s Cry, isso pode verificar-se: o disco começa com uma peça intensa, que dá o título ao disco, “o grito do veado”: “Cristo comigo, Cristo diante de mim, atrás de mim, em mim... Cristo à minha direita, à minha esquerda, quando me deito, quando me sento...” O poema como que ressoa as palavras de São Paulo: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim.” E é essa comunhão só intensamente possível que aqui se ouve, se sente, se estremece.

A mesma experiência que se tem com outras composições sugeridas por geografias tão diversas quanto o México (uma ternurenta Virgencita) ou Portugal (com Três Pastorinhos de Fátima, encomenda do santuário escutada na Sé de Lisboa, em 2015). Na incursão portuguesa do trabalho de Arvo Pärt, aqui preciosamente cantado pelos seus compatriotas estonianos Vox Clamantis, surge em toda a sua plenitude a capacidade do compositor em recriar o mistério, a jovialidade da infância e a aclamação. 

De outras referências ainda se faz este disco: desde a inspiração bíblica, com o belíssimo E Um dos Fariseus, narrando, com um coro e solista, o episódio da mulher pecadora em casa de Simão; até peças nas quais já reconhecemos a marca Arvo Pärt, como o profundo Da Pacem, Domine ou os hinos litúrgicos Most Holy Mother of God (Santíssima Mãe de Deus), Gebet Nacht dem Kanon (oração depois do cânone) ou Habitare Fratres in Unum (viver como irmãos em união) que, a par da peça sobre Fátima, é uma das novas composições. Uma beleza capaz de nos pôr a dançar interiormente ou de, como diz o director artístico dos Vox Clamantis, Jaan-Eik Tulve, arrebatar por igual grandes líderes espirituais e ateus radicais.

Em Lamentate, como escreve o próprio Arvo Pärt, se tenta reflectir o esbatimento da fronteira entre o temporal e o intemporal. Quando se escuta a música deste compositor estónio, a experiência que temos é desse esbatimento: as suas peças traduzem uma espiritualidade intensa, quase intemporal, mas enraizada no tempo. Inspirado em Marsyas, escultura de Anish Kapoor, Lamentate é uma obra para piano e orquestra, assumindo o piano o carácter de instrumento solista. O que lhe dá o tom certo entre a intimidade solista e o vigor orquestral. No início, o disco oferece-nos ainda um intenso Da pacem, Domine, composto a convite de Jordi Savall, e que recria, com as vozes do Hilliard Ensemble, uma antífona gregoriana do século IX. 

A profunda viagem musical e espiritual de Pärt tem outra etapa importante em In Principio, título que remete para a composição com o prólogo do Evangelho de São João. O disco inclui seis peças: além da que lhe dá o título, e por esta ordem, La Sindone fala do Sudário de Turim, Cecilia Vergine Romana conta a história da mártir Santa Cecília (século II), padroeira dos músicos, Für Lennart In Memoriam é o requiem para o funeral do seu amigo e antigo Presidente estónio (1992-2001), Lennart Meri, o já referido Da Pacem Domine é uma oração em memória das vítimas dos atentados de Março de 2004 em Madrid (tocada anualmente em Espanha desde então) e Mein Weg (escrito originalmente em 1989, para órgão) é aqui revisitada para 14 cordas e percussão.
A música de Pärt dá-nos a dramaticidade de histórias como as de Cecília, a emotividade de acontecimentos como os atentados de Madrid ou a intensidade e luminosidade de um texto como o Prólogo de São João. Compositor de uma espiritualidade vincada, este In Principio é, sem dúvida, uma etapa maior da sua obra, já tantas vezes justamente premiada.

Se mudarmos a rosa dos ventos para a direcção Leste-Oeste, a obra do compositor continua a traduzir a experiência contemporânea a partir de referências e histórias antigas. Em Orient Occident, três peças tentam ultrapassar as fronteiras da morte (a Canção do Peregrino, baseada no Salmo 121, é uma homenagem ao amigo Grigori Kromanov), da geografia (Oriente & Ocidente faz uma peregrinação admirável entre as sonoridades das duas metades da Europa) e da desesperança (Como o veado sedento retoma os Salmos 42 e 43 para nos levar do desencanto à consolação e à reconciliação), num trabalho que, todo ele, é de profunda interioridade.

Outro momento alto, entre o meditativo e o minimalista é o da Sinfonia nº 4. Composta por encomenda da Los Angeles Philharmonic e do seu director, Esa-Pekka Salonen, em parceria com o Canberra International Music Festival/Ars Musica Australis e o Sidney Cnservatorium of Music, estreada em Janeiro de 2009 no Disney Concert Hall, é a primeira sinfonia do músico estoniano após 38 anos, quando escreveu a terceira. O compositor, que vive no campo rodeado de silêncio, tinha andado a ler sobre anjos da guarda quando recebeu a encomenda vinda de Los Angeles (os anjos). Por isso, resolveu subtitular a obra, para cordas, harpa e percussão, como Los Angeles. E o que aqui temos é uma peça de uma beleza ímpar, que tem o seu ponto de partida num “cânone do anjo da guarda” e se mescla depois com a profundidade poética e musical da Igreja Ortodoxa e da cultura eslava. Ainda com uma nota simbólica adicional: a obra é dedicada ao empresário Mikhail Khodorkovsky, que tinha ambições políticas e esteve preso, entre 2003 e 2013, numa prisão siberiana. Não como dedicatória política, mas como expressão de respeito por um homem que descobriu o “triunfo moral no meio da tragédia pessoal”. E como tradução do “grande poder do espírito humano e da dignidade humana”.


Passio – intérpretes: Hilliard Ensemble; dir. Paul Hillier
The Deer’s Cry – intérpretes: Vox Clamantis; dir. Jaan-Eik Tulve
Lamentate – intérpretes: Hilliard Ensemble e outros
In Principio – direcção: Tõnu Kaljuste
Orient Occident – Swedish Radio Symphony Orchestra
Symphony no. 4 – Los Angeles Philharmonic; dir. Esa-Pekka Salonen
(todos os discos são edição ECM)


Todos os textos, excepto o que se refere a Passio, são adaptados de artigos publicados na revista Além-Mar, em Dezembro de 2002, Fevereiro de 2006, Maio de 2009, Outubro de 2010 e Outubro de 2016; os textos podem ser lidos aqui, procurando os meses respectivos.
Acerca dos outros autores citados, podem ler-se textos e ouvir-se excertos ou obras integrais nas seguintes ligações:
Paixão segundo São Mateus, de J.S. Bach, texto e vídeo
Paixão Segundo São Mateus, de Heinrich Schütz, vídeo
Brockes Passion, de Gottfried Heinrich Stölzel, texto e vídeo
Homilius, texto e excerto aqui
e a obra de Buxtehude aqui

sexta-feira, 30 de março de 2018

Sexta-feira Santa vista por Frederico Lourenço

Sexta-feira Santa

Apesar de, no plano racional, me considerar ex-católico e profundamente céptico em relação a todas as religiões, a sexta-feira santa nunca será para mim um dia como outro qualquer.

De manhã à noite o meu pensamento está involuntariamente dominado pela imagem do homem pregado na cruz, esse homem singular portador de três identidades (Filho de Deus; ou apenas um nazareno histórico chamado Jesus; ou somente personagem da narrativa dos evangelistas). A ideia depregar alguém numa cruz, depois de se lhe ter cuspido em cima e chicoteado de forma cruel, é persistentemente perturbadora, talvez porque nela conseguimos focar a indignação que o conhecimento da história humana nos obriga a repartir por tantas realidades análogas.

Torturas e execuções são o pão quotidiano da humanidade desde que ela deixou de ser constituída por caçadores-recolectores e passou a organizar-se em torno de um modo de vida sedentário. A civilização (não esquecer a ligação etimológica com «civitas») que nasceu da descoberta da agricultura há 12000 anos trouxe no seu encalço a escravatura, a guerra, as hierarquias sociais e a vocação das ideologias políticas e religiosas para cercear a liberdade de pensamento.

Desde então, muitos seres humanos foram torturados e executados (por vezes com crueldades ainda piores do que as sofridas pelo Nazareno); a própria crucificação já era coisa banal no mundo antigo quando Jesus foi crucificado. Basta dar este exemplo: na mesma Jerusalém, no século anterior, 800 judeus sofreram no mesmo dia a crucificação enquanto as mulheres e os filhos eram degolados à vista dos crucificados.

De alguma forma, a imagem da crucificação de Jesus propõe à nossa consideração uma espécie de sinédoque visual do sofrimento humano: é a parte abarcável que nos põe em confronto com um todo inabarcável – pois desse todo fazem parte as masmorras da Inquisição, da Gestapo e da KGB; dele fazem parte genocídios de povos inteiros; dele fazem parte as tragédias de hoje na Síria e no Iraque; dele fazem parte toda a fealdade hedionda do ser humano.

Pensarmos, pois, com toda a nossa compaixão no homem de Nazaré pregado na cruz é, assim, uma pequena tentativa de abarcarmos o inabarcável. É darmos um nome a um sofrimento que é global, milenar e anónimo.

publicação de Frederico Lourenço no Facebook

Três géneros na Alemanha

Alemanha vai reconhecer legalmente um ‘terceiro género’

A Alemanha pode vir a ser o primeiro país da Europa a reconhecer legalmente uma terceira categoria de género desde o nascimento. Uma medida que pode abrir as portas à mesma decisão em mais países.
A Alemanha pode vir a ser o primeiro país da Europa a reconhecer legalmente uma terceira categoria de género desde o nascimento. Este ‘terceiro género’ – que poderá ser chamado de inter ou diverso – diz respeito às pessoas intersexuais, ou seja, pessoas que nascem com características que não se encaixam na definição típica de sexo feminino ou sexo masculino.

Nesta quarta-feira, o Tribunal Constitucional Federal alemãodecidiu que deverá ser aprovada uma lei que reconheça legalmente um ‘terceiro género’ até final de 2018, afirmando que o sistema atual “não prevê uma terceira opção – além de feminino ou masculino“, e que isso é inconstitucional.

Johannes Dimroth, porta-voz do Ministério do Interior da Alemanha, disse, em resposta, que “Nós respeitamos plenamente a decisão do Tribunal Constitucional Federal e o governo está totalmente disposto a implementar a decisão”.

A decisão foi levada a cabo depois de uma pessoa intersexual, que pretendia ser designada como inter ou diverso, ter formulado um pedido nesse sentido. A requerente apresentou uma análise dos seus cromossomas que concluía precisamente que estes não correspondiam a homem ou mulher. O pedido, que tinha até agora sido rejeitado em todas as instâncias, incluindo o Supremo Tribunal Federal, criou agora um precedente e uma obrigação legislativa.

Em 2013, a Alemanha foi o primeiro país europeu a permitir legalmente que crianças intersexuais deixassem a caixa de género em branco na certidão de nascimento, a pedido do Conselho Alemão de Ética, segundo o qual as pessoas não deveriam ser forçadas a escolher uma das duas opções.

(...)

Maja Liebing, especialista em direitos LGBTI na Amnistia Internacional, na Alemanha, disse à CNN que este é um passo muito importante e que é necessário que as pessoas comecem a perceber que “há mais que dois géneros”.

De acordo com as Nações Unidas, entre 0,5% e 1,7% da população global nasce com traços de intersexualidade. Por vezes, algumas destas características são visivelmente evidentes, como nascer com os dois genitais ou com características físicas dos dois sexos; mas pode também ter que ver com diferenças genéticas ou hormonais. Até há pouco tempo utilizava-se o nome hermafroditas para designar estas variações.

A Amnistia Internacional publicou, em maio deste ano, um relatório no qual dava conta de que na Alemanha muitos bebés que nascem com estas variações visíveis sofrem cirurgias dolorosas e irreversíveispara que fiquem com uma aparência convencional. Em 2016, um grupo de especialistas em direitos humanos da ONU pediu “um fim urgente” a estas violações dos direitos humanos, instando os governos a proibirem práticas médicas nocivas e a proteger as pessoas intersexuais contra a discriminação.

Como o Observador explicou, a intersexualidade nada tem que ver com a orientação sexual da pessoa ou com a identidade de género, é sim uma condição inata (apesar de muitas vezes só ser descoberta mais tarde) que reflete variações biológicas reais.

in Observador em 9 de novembro de 2017

Porque estou aqui

Sinto-me privilegiado por ter encontrado na Igreja um lugar vazio, feito à minha medida. É certo que tê-lo encontrado (ou encontrá-lo renovadamente, pois não é dado adquirido) foi também mérito da minha sede, do meu empenho, de não baixar os braços e achar, passivamente, que não seria possível. Passo a contextualizar: a comunidade onde vou à missa é pequena e acolhedora, e podia bem não o ser. Ao mesmo tempo, sentia um desejo grande de reflexão de vida cristã e encontrei um casal (heterosexual) que tinha a mesma vontade. Começámo-nos a reunir semanalmente numa pequena comunidade de oração e reflexão que, apesar de crítica, nos tem ajudado a sermos Igreja e a nela nos revermos. Paralelamente, face ao contínuo desencanto em relação a algumas posturas e pontos de vista de uma Igreja mais institucional e hierárquica, tive a graça de encontrar um grupo de cristãos homossexuais, que se reuniam com um padre regularmente, sem terem de se esconder ou de ocultar parte de si.

Sei que muitos cristãos homossexuais nunca pensaram sequer na eventualidade de existirem grupos cristãos em que se pudessem apresentar inteiros, quanto mais pensarem poder tomar parte e pôr em comum fé, questões, procuras, afectos e vidas.

Por tudo isto me sinto grato a Deus e me sinto responsável para tentar chegar a quem não teve, até agora, uma experiência tão feliz como a minha.

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